Sob estresse

No Brasil são estimados aproximadamente 35 milhões de hectares de soja na safra 2017/18, nas mais diversas condições de ambiente e de sistemas de produção. Nesse amplo universo, há incontáveis casos de sucesso e superação, mas também muitos problemas. Os sojicultores brasileiros recorrentemente se deparam com entraves fitossanitários, climáticos, logísticos, etc., que podem ser localizados, regionais ou nacionais, acarretando prejuízos com diferentes magnitudes.

Entre os problemas da soja nessa safra, destacam-se os de abortamento de vagens e/ou de enchimento deficiente de grãos. Esses casos chamaram a atenção não por terem sido mais onerosos e abrangentes que outros, gerados por equívocos na instalação da cultura, inadequado manejo do solo, doenças fúngicas, insetos-praga, plantas daninhas, nematoides, chuva na colheita, etc., mas por terem ocorrido em lavouras que vinham apresentando elevado potencial produtivo, em áreas com bons históricos agronômicos, conduzidas por sojicultores experientes e assistidas por profissionais competentes.
Grande parte dos relatos sobre esses distúrbios na soja veio das regiões oeste e norte do Paraná, médio Paranapanema em São Paulo e sudoeste do Mato Grosso do Sul. Contudo, apesar da considerável quantidade de agricultores acometidos, ressalta-se que a distribuição dos casos foi aleatória e com extensão de área relativamente baixa, em relação ao total de lavouras comerciais dessas regiões.
Quanto aos sintomas, as lavouras vinham apresentando desenvolvimento normal, visualmente com elevado potencial produtivo, até os estádios fenológicos de formação das vagens (tecnicamente denominados de R3 e R4). Quando se iniciou o período de enchimento de grãos (estádio R5.1), os problemas começaram a ficar evidentes. Houve situações em que as vagens foram abortadas das plantas de soja, em diferentes níveis de dano, e, em outras, as vagens permaneceram conectadas às plantas, sem que os grãos pudessem completar seu desenvolvimento.
De forma generalizada, o abortamento de vagens tem sido atribuído ao clima. Realmente, nas duas últimas semanas de dezembro de 2017 e nas duas primeiras semanas de janeiro de 2018, praticamente todas as regiões sojícolas do centro-sul do Brasil permaneceram por vários dias sob chuva, sol encoberto e solo com alto teor de água. Porém, não foram raras as situações em que se constatou um talhão de soja com problemas nas vagens e, a poucos metros de distância, talhões com soja em estádios fenológicos semelhantes ao da área prejudicada, apresentando vagens com desenvolvimento normal e elevado potencial produtivo. Diante disso, fica claro que a abordagem isolada do clima não é suficiente para elucidar os distúrbios fisiológicos observados. As evidências apontam para um problema agronômico complexo, decorrente da interação de vários fatores.
Geneticamente, a soja está programada para descartar um grande número de flores, que são normalmente produzidas em excesso, assim como é comum a ocorrência de aborto de vagens quando as plantas têm necessidade de ajustar o enchimento de grãos em função da oferta de recursos do ambiente (água, luz, nutrientes, etc.). Continue lendo...

Claudine Dinali Santos Seixas 
José Salvador Simoneti Foloni
Norman Neumaier
Embrapa Soja


ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura