Solo novo em folha

Em zonas áridas e semi-áridas do mundo, onde se enquadram grandes superfícies da Península Ibérica e do Semi-Árido brasileiro, existem extensas áreas de irrigação, estimadas ao redor de 700 mil ha, para produção de alimentos e matérias-primas para a agroindústria. Entretanto, a irrigação e as práticas agrícolas têm produzido efeitos ambientais negativos em muitas áreas agrícolas do mundo. Entre eles, a salinização do solo e da água, a compactação, a erosão, a contaminação por agrotóxicos, metais pesados e fertilizantes químicos utilizados de maneira abusiva e em definitivo, a perda de fertilidade do solo e a diminuição da saúde dos agroecossistemas.

No Brasil, o manejo inadequado das práticas de cultivo tem provocado a salinização das áreas agrícolas irrigadas que já ocupam de 25-30% do Semi-Árido nordestino. A diminuição de aportes orgânicos nesses solos e aplicações cada vez mais intensas de agroquímicos têm produzido perdas do equilíbrio do ecossistema edáfico, diminuindo a atividade biológica e a biodiversidade. Com isso, alterou-se significativamente o desenvolvimento das plantas que padecem de nutrição e são mais sensíveis ao ataque de pragas e doenças, ou ainda, as áreas tornaram-se impróprias para o cultivo.

A maioria das pesquisas neste campo está centrada no interesse em desenvolver indicadores de qualidade e práticas de manejo do solo que recuperem ou melhorem a produção vegetal e biológica, minimizando o impacto ambiental, assegurando assim o desenvolvimento de uma agricultura mais sustentável. Considerando que, atualmente, a tecnologia utilizada para dessalinização das áreas irrigadas tem sido feita de maneira segmentada por mecanismo físico de drenagem, que onera o custo de produção e altera as propriedades físico-químicas e biológicas do solo, a presente proposta se baseia em explorar a aplicação de tecnologia biológica “limpa” integrada às propriedades físico-químicas do solo. Deste modo, a incorporação de matéria orgânica não decomposta aos solos salinos estimula os microrganismos a produzirem enzimas sintetizantes de exopolissacarídeos possuidores de diferentes grupos funcionais. Este processo induz à formação de compostos reutilizados por microrganismos e plantas, resultando na diminuição da concentração de sais.

Recuperação dos solos

Nessa linha de pesquisa, durante o ano de 1999, nas Universidades Politécnica de Madri-UPM/ETSIA e Européia de Madri/UEM na Espanha, foi estudado o efeito da incorporação de matéria orgânica e microrganismos eficazes (EM) sobre as propriedades físico-químicas e biológicas de solos de cultivo protegido, degradados por excesso de agroquímicos, procedentes de terras baixas do rio Tajo em Aranjuéz, Madri (solo textura franco-argilosa) e solo salinizado de textura arenosa procedente de Petrolina, PE. Matérias orgânicas de origem animal (esterco de vaca ou bode) nas concentrações equivalentes de 25 e 50 ton./ha e vegetal (restos de cultivo + plantas invasoras e resíduos de folha de planta Platanus hispanica) nas concentrações equivalentes a 15 e 30 toneladas/ha foram incorporados aos solos e, posteriormente, adicionados os microrganismos eficazes (EM).

O EM adicionado é um probiótico decomposto por grupos de bactérias que produzem ácido lático (Lactobacillus plantarum e Streptococcus lactis), que fazem fotossíntese (Rhodopseudomonas capsulatus), actinomicetos (Streptomyces albus), leveduras (Saccharomyces cerevisiae e Candida utilis) e fungos micorrízicos, que aceleram a decomposição dos restos de cultivos, aumentam a reciclagem de nutrientes e a fixação de nitrogênio atmosférico, além de estimularem a solubilização de nutrientes e a melhoria das propriedades do solo.

Após um mês, mantidas em laboratórios, as amostras de solo foram incubadas à temperatura de 26°C e umidade de 70 % da capacidade de campo, utilizando o dispositivo adaptado por Polo et al., (1982). Depois de dois meses de incubação, as amostras foram avaliadas através de parâmetros/indicadores biológicos, bioquímicos e físico-químicos. Os resultados mostraram que nos solos degradados, o baixo nível de matéria orgânica permite baixa atividade microbiana (por exemplo, produção de enzimas fosfatases e esterases) por ausência de energia. Em função do pH alcalino, no geral, há excesso de cátions (Ca, Mg, Na), os quais tornam o fósforo insolúvel na forma de fosfato de cálcio ou magnésio e os micronutrientes não disponíveis para os microrganismos e as plantas, impedindo o seu desenvolvimento. Assim, a matéria orgânica tanto de origem vegetal como animal adicionada com microrganismos (RC30 EM e E50 EM) tem sua atividade biológica incrementada no solo. Esta matéria orgânica é medida por indicadores bioquímicos com aumento de 280% nos polissacarídeos; de 304% a 335% nas atividades enzimáticas fosfatases e esterases, respectivamente, aspecto refletido pelos indicadores físico (capacidade de campo) com aumento médio de 62%; químico (CTC) com aumento médio de 32%; e biológico (emergência do feijoeiro) com aumento médio de 33%.

A adição de matéria orgânica nesse solo é indispensável como fornecimento de energia para os microrganismos e estes, ao se desenvolverem, corrigem o pH para a neutralidade, liberando ácidos orgânicos (fenólicos, graxos, etc), polissacarídeos, enzimas como esterases, fosfatases alcalinas e desidrogenases. Esses compostos orgânicos excretados por microrganismos também alteram as propriedades físico-químicas, como a condutividade elétrica, a decomposição da matéria orgânica, a capacidade de campo (CC) e a capacidade de troca catiônica (CTC), processos comprovados pela correlação entre esses indicadores de qualidade do solo.

Conclui-se que a metodologia foi eficiente, rápida e de baixo custo e os indicadores biológicos e bioquímicos detectaram de forma precisa e precoce as mudanças físico-químicas avaliadas nos solos. Os resultados ainda mostraram que o uso desses solos requer sempre uma fonte de energia e estímulo aos microrganismos do tipo EM, a fim de acelerar a recuperação e os cultivos econômicos. Também mostra a importância do tipo e da quantidade de matéria orgânica adicionada ao solo, bem como o interesse dos parâmetros biológicos como indicadores da saúde integral do solo.

Pedro José Valarini
Embrapa Meio Ambiente

* Este artigo foi publicado na edição número 05 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de dezembro/2000 - janeiro/2001. ver mais artigos
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