Solos - Na medida certa

A teoria do plantio direto surgiu como uma alternativa no controle da erosão. As primeiras experiências na implantação desta técnica, atenderam, principalmente, aos interesses dos produtores americanos em reduzir a crescente demanda energética e de tempo de trabalho requeridas pelas operações de preparo de solo.

Tais bem sucedidas experiências anglo-americanas foram paulatinamente sendo exportadas, tendo repercutido muito bem em algumas regiões tropicais do mundo, devido às suas características conservacionistas. No Brasil a idéia evoluiu e se difundiu rapidamente, impondo algumas alterações conceituais importantes.

SISTEMA

Dentre os diversos conceitos novos e readequados que os estudos sobre a técnica do plantio direto introduziram, destaca-se o de “sistema”. Evidenciou-se a importância da adoção de todo um sistema de produção e não exclusivamente de uma técnica. O plantio direto somente tem êxito quando adotado de forma integral, com reequilibrio da fertilidade do solo, redução do potencial de infestação de plantas daninhas, rotação de culturas e permanente cobertura do solo.

Da mesma forma, as pessoas responsáveis pela produção agropecuária em um empreendimento rural, não importando sua dimensão, devem fazer parte deste sistema, promovendo e seguindo planejamentos com prazos maiores, mantendo-se informado e reciclado e possibilitando que as pessoas que atuam no programa de produção tenham acesso à treinamentos e capacitações. Assim, há maiores possibilidades de os produtores acessarem o grande volume de informações continuamente gerados sobre a adoção e adequação do sistema.

Portanto, o conceito da técnica do plantio direto, que nas culturas anuais surgiu com o objetivo de substituir as operações de preparo de solo pela semeadura diretamente sobre os restos culturais, evoluiu exigindo a adequação de todo o sistema de produção, surgindo os conceitos: “Sistema de Plantio Direto” ou “Plantio Direto na Palha”.

PREPARO DE SOLO

Outro conceito que merece ser revisado neste contexto é, justamente, o de preparo de solo. Apesar da aparente incoerência desta postura diante da idéia do plantio direto, isto se baseia em dois fatos, basicamente:

• a introdução da motomecanização no Brasil foi um processo de importação de tecnologia, com as operações de preparo de solo atendendo mais aos interesses de desempenho das máquinas do que da adequação destes equipamentos às características e necessidades dos diversos tipos e condições de solo; portanto, não criamos uma sapiência informal no preparo de solo e tais operações foram sendo realizadas indiscriminadamente, causando os prejuízos conhecidos;

• o plantio direto nasceu da idéia do “no till” mas, se observarmos atentamente, veremos que o que se promove é uma redução drástica no volume de solo mobilizado, passando do preparo em toda a superfície do solo para o preparo apenas nos locais onde desejamos implantar a cultura, seja por semeadura direta, plantio direto ou transplantio direto. Neste enfoque o Sistema de Plantio Direto passa a ser considerado como um sistema com preparo localizado de solo que, quando realizado inadequadamente, pode ser prejudicial ao solo.

Aglutinando estas idéias, pretende-se enfatizar que na adoção do Sistema de Plantio Direto não se abandona os conceitos do preparo de solo. Ocorre que tais conceitos devem ser potencializados para uma adequada implantação da cultura associado com a melhor conservação do solo, na condição em que se realizará a operação.

COMPACTAÇÃO DO SOLO

Uma das preocupações mais freqüentes nas regiões quentes, úmidas e com solos argilosos, tem sido a compactação de solo associado ao Sistema de Plantio Direto. Um dos maiores problemas na abordagem deste assunto é a generalização, sem uma avaliação mais cuidadosa das situações envolvidas. Ora vemos manifestações minimizando estes problemas, ora depara-se com manifestações infundadas de que todos os problemas que ocorrem com as lavouras sob plantio direto decorrem da compactação do solo, como ocorreu com a safra 2000/2001 de soja em algumas regiões. Nem tanto ao mar e nem tanto à terra; há problemas, há dificuldades porém há alternativas.

A fertilidade do solo pode ser resumida como sua capacidade em fornecer nutrientes às plantas. Pois bem, se a planta encontra dificuldades em distribuir adequadamente seu sistema radicular, isto prejudicará sua capacidade em absorver água e nutrientes necessários, independentemente das qualidades químicas do solo. A compactação subsuperficial do solo pode ser uma destas causas e é este nível de compactação que passa a ser preocupante. Portanto, quando se pretende avaliar a fertilidade de um solo é obrigatório que se faça, pelo menos, uma avaliação adequada de suas características físicas, além das químicas convencionais.

A compactação do solo é inerente ao Sistema de Plantio Direto em culturas anuais. O fato de eliminar-se as operações de preparo de solo realizadas em todas as safras, permite que as camadas superficiais se acomodem, através da reorganização dos torrões, agregados e partículas, reduzindo os espaços porosos, aumentando, consequentemente, a densidade. É o efeito inverso do arejamento promovido pelo preparo convencional e é fruto das ações naturais como, por exemplo, o clima. Analogamente, pode-se comparar com a areia sendo transportada na carroceria de um caminhão, que vai se acomodando e compactando em função da trepidação sofrida.

Normalmente, é esta compactação que os produtores alegam existir nas áreas em que o sistema ainda não está estabilizado, observando-se apenas a superfície do solo. Esta compactação ocorre nas camadas mais superficiais do solo e é facilmente identificável numa análise mais cuidadosa de um perfil ou com penetrômetros mais sensíveis. A manutenção de cobertura no solo e a rotação de culturas minimizam os efeitos negativos desta compactação.

Outra compactação muito relatada é aquela, em geral, identificada apenas com a penetração de uma haste com as mãos. Na maioria das vezes, trata-se de uma variação natural do solo, conhecida como adensamento e que não é causada pelo sistema de produção adotado. Para sua identificação, deve-se realizar um rápido reconhecimento pedológico da área avaliada para evitar incorrer neste erro clássico. Sua profundidade varia em função da variação dos horizontes pedológicos e sua ocorrência superficialmente está associada aos níveis de erosão ocorridas na área. É uma situação que se assemelha bastante com uma camada compactada, inclusive dificultando a penetração de raízes. A diferença está no seu controle, já que não se muda a personalidade de um solo com facilidade. O melhor a fazer nestes casos é evitar o revolvimento do solo, reduzir os potenciais de erosão e melhorar os níveis de disponibilidade de nutrientes e de matéria orgânica, aspectos conseguidos com a adoção continuada e adequada do Sistema de Plantio Direto.

Finalmente, temos a compactação propriamente dita, aquela causada pelas operações agrícolas, de efeito cumulativo e que também atinge as áreas exploradas sob Sistema de Plantio Direto, principalmente em solos com altos teores de argila. É com esta compactação que devemos nos preocupar, pois pode causar perdas significativas de produtividade e exigir grandes investimentos no seu controle.

NÍVEIS

Esta compactação deve ser monitorada, aliás, sugere-se que isto faça parte do recomendável monitoramento da fertilidade do solo, fertilidade no sentido amplo como já referido, que determinará as ações mais adequadas para seu controle. Questiona-se freqüentemente qual o nível de compactação que exige alguma ação. Pois bem, ela deve ser avaliada em dois aspectos fundamentalmente:

1-Abrangência: a compactação pode ocorrer em camadas contínuas ou em pontos isolados e descontínuos, conhecidos como ilhas de compactação.

A ocorrência em camadas é sempre mais grave, pois prejudica toda a atividade do perfil do solo em termos de infiltração d’água, trocas gasosas, atividade biológica e penetração de raízes e é tanto mais prejudicial quanto mais espessa e superficial. Se assemelha com os “pés de grade” e “pés de arado” do sistema convencional e está normalmente associado à adoção do sistema em condições inadequadas. Tais camadas podem ter sido herdadas do sistema convencional que não foram convenientemente controladas para a implantação do sistema ou podem se originar dentro do próprio sistema quando operações agrícolas são realizadas repetidamente em condições inadequadas ou quando o programa de rotação de culturas e de coberturas não é eficiente. Quanto maior o potencial regional para formação destas camadas, mais importantes são as práticas de rotação de culturas e formação de cobertura morta sobre o solo. A adoção integral do Sistema de Plantio Direto é bastante eficiente para combatê-la, sendo rara a necessidade da descompactação mecânica (Fig. 1 - veja no final do texto como visualizar este artigo em PDF).

A formação de ilhas de compactação está normalmente associada à passagem dos rodados dos equipamentos e um bom gerenciamento das operações agrícolas reduzem significativamente seus efeitos.

2- Intensidade: o grau de compactação de um solo varia bastante existindo diversas metodologias analíticas, como densidade do solo, resistência à penetração e análise de porosidade, que adotam índices para sua classificação. Porém, em nível de campo, uma informação valiosa é a capacidade de penetração das raízes. Havendo raízes na camada compactada ou abaixo dela, isto significa que não houve limitações nas condições em que se instalou a lavoura, sendo esta compactação regenerável com os métodos culturais previstos no Sistema de Plantio Direto.

METODOLOGIA

Dentre as diversas metodologias existente para se avaliar a fertilidade física do solo, uma das ricas é a do Perfil Cultural, que prevê a abertura de uma trincheira na área a ser avaliada. Nas paredes desta trincheira, ou perfis, avalia-se a condição física do solo, associado ao enraizamento das plantas. Nos próprios perfis podem ser feitas outras amostragens de interesse, com, por exemplo, químicas, biológicas e físicas do solo. Na análise da compactação permite associar com uma identificação pedológica, para diferenciar de um eventual adensamento, possibilitando identificar a abrangência e intensidade da mesma.

Por ser uma metodologia qualitativa, permite muita flexibilidade nos critérios avaliados, exigindo do avaliador desprendimento e um pouco de treinamento para diferenciar as estruturas do solo. Em algumas regiões, o controle à compactação é fundamental e, para isto, um gerenciamento da operações agrícolas que permitam às tomadas de decisão com uma previsão dos riscos envolvidos alia-se à adoção do Sistema de Plantio Direto de qualidade, mas este é um assunto para uma próxima oportunidade.

Ricardo Ralisch
Universidade Estadual de Londrina

* Este artigo foi publicado na edição número 05 da revista Cultivar Máquinas, de setembro/outubro de 2001.

* Confira este artigo, com fotos e tabelas, em formato PDF. Basta clicar no link abaixo:

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