Solução ideal

Colocou-se em prática os princípios do manejo integrado, visando o controle do bicho-mineiro das folhas do cafeeiro, Leucoptera coffeellum (Guérin-Mèneville & Perrottet, 1842) (Lepidoptera: Lyonetiidae). O experimento foi conduzido entre 1987 e 1993, em cafezal ‘Mundo Novo’ em produção. Os tratamentos consistiram na aplicação de aldicarb no solo em fevereiro, pulverização foliar de ethion, deltamethrin, e associação de aldicarb com ethion ou deltamethrin. As pulverizações foram feitas quando a percentagem de folhas minadas, isentas de predação por vespas (Vespidae), ultrapassou 30%, em amostragens quinzenais. Com base nesses levantamentos foi necessária uma pulverização a cada ano. Aldicarb e ethion foram os produtos mais seletivos. Deltamethrin, e combinação de aldicarb com deltamethrin ou ethion apresentaram menor número de minas predadas. Considerando a média da produção nos seis anos estudados, houve uma redução entre 34,3 e 41,5% devido ao ataque do bicho-mineiro. As maiores produções foram obtidas nos tratamentos com aldicarb, principalmente quando associado à pulverização de deltamethrin ou ethion.

Conheça o inimigo

O bicho-mineiro do cafeeiro, Leucoptera coffeellum (Guérin-Mèneville & Perrottet, 1842) (Lepidoptera: Lyonetiidae), é praga chave na cafeicultura, causando prejuízos, no estado de Minas Gerais, da ordem de 52% de redução da produção em conseqüência da desfolha que causa nas plantas. O controle químico do bicho-mineiro já é conhecido e eficiente, bem como é conhecida a ação de predadores e parasitóides na redução da população do inseto, 70 e 20% de redução respectivamente.

O uso do inseticida aldicarb na formulação granulada já foi referido como viável para o manejo integrado do bicho-mineiro no estado de São Paulo, pois foi eficiente na redução da praga sem diminuição acentuada na sua predação por vespas predadoras, tendo sido adotado 40% de folhas minadas como nível de controle.

O objetivo deste trabalho foi o de encontrar um modo eficiente de controlar o bicho-mineiro evitando um desequilíbrio biológico, com base nas seguintes hipóteses: (1) o uso de inseticida granulado sistêmico no solo atua diretamente sobre a praga contaminando o conteúdo celular, tendo portanto pouco ou nenhum efeito direto sobre os parasitóides e predadores; (2) uma pulverização de inseticidas somente quando o bicho-mineiro atinge o nível de controle, também deve influir pouco sobre o equilíbrio biológico, pois se a praga apresenta uma elevada infestação significa que seus inimigos naturais não estão sendo eficientes e (3) tendo a população do bicho-mineiro atingido o nível de controle conclui-se que as condições para aumento populacional da praga estão mais favoráveis do que para aumento dos inimigos naturais, o que justifica a adoção de medidas de controle para reduzir a população do inseto, restabelecendo o equilíbrio entre a praga e os inimigos naturais.

Manejo da praga

O experimento foi conduzido na Fazenda Experimental da Epamig, em São Sebastião do Paraíso, MG, entre 1987 e 1993, em cafezal ‘Mundo Novo’, LCP 379/19, plantado no espaçamento de 3,0 x 2,0 m, duas plantas por cova, e com seis anos de idade por ocasião da instalação do ensaio.

O delineamento constou de seis tratamentos em talhões de 100 covas, cinco linhas com 20 plantas, sendo as três linhas centrais consideradas a parte útil. Foi evitado o uso de pequenas parcelas, para facilitar o sistema de manejo da praga. Para efeito de análise da variância, cada ano de execução foi considerado como uma repetição.

Neste trabalho, adotou-se o nível de controle de 30% de folhas minadas (no terço médio das plantas) e com lesões intactas, ou seja, sem apresentarem lesões dilaceradas por vespas, conforme os trabalhos já realizados no estado de Minas Gerais.

Os tratamentos foram: aplicação de aldicarb granulado (Temik 150 G) (10 g/cova) no mês de fevereiro, mais pulverização com deltamethrin (Decis 25 CE) (100 ml/1000 covas) quando constatado 30% de folhas minadas sem sinais de predação; aplicação de aldicarb (10 g/planta) no mês de fevereiro, mais pulverização com ethion (Ethion 500 CE) (1000 ml/1000 covas) quando constatado 30% de folhas minadas sem sinais de predação; aplicação de aldicarb (10 g/cova) no mês de fevereiro; pulverização com deltamethrin (100 ml/1000 covas) quando fosse constatado 30% de folhas minadas sem sinais de predação; pulverização de ethion (1000 ml/1000 covas) quando constatado 30% de folhas minadas sem sinais de predação, e testemunha, sem aplicação dos inseticidas.

Aldicarb foi aplicado em dois sulcos com 10 cm de profundidade, um de cada lado das plantas, na projeção da saia, e cobertos logo após a aplicação. As pulverizações foram feitas com atomizador costal motorizado equipado com bico de baixo volume, com gasto de 180 litros de calda por 1000 covas de cafeeiro. Os demais tratos culturais foram os realizados normalmente para a cultura do cafeeiro e iguais para todos os talhões.

As amostragens para determinar o nível de controle, foram realizadas quinzenalmente em 30 covas da parte útil dos talhões, sendo retiradas cinco folhas do terço médio de cada planta. Para avaliação da infestação foram contadas as folhas minadas, e nestas o número de lesões predadas por vespas, principais agentes de controle biológico da praga. O efeito deste manejo integrado do bicho-mineiro também foi avaliado através da produção de café.

Resultados do manejo

Os resultados obtidos mostram que nos seis anos agrícolas estudados foi necessária uma pulverização a cada ano, durante o período mais seco, com exceção de 1993 quando a infestação foi baixa em todos os tratamentos.

Tais tratamentos foram eficientes no controle do bicho-mineiro, porém sob o ponto de vista do manejo, principalmente na preservação dos predadores, foram melhores o aldicarb e ethion. A não interferência do aldicarb sobre as vespas predadoras já havia sido constatada também em outros trabalhos.

Os tratamentos com pulverização, à exceção do ethion isoladamente, apesar de eficientes no controle da praga, foram os que apresentaram menor número de minas predadas em relação à testemunha e ao aldicarb aplicado isoladamente. Quando se associou aldicarb e pulverização, deltamethrin foi mais prejudicial aos predadores do que ethion. Aldicarb aplicado isoladamente em fevereiro não evitou, nesses anos, a necessidade de pulverização, no período seco, para complementar o controle do bicho-mineiro, o que pode ser explicado pela término de seu efeito residual.

Os predadores do bicho-mineiro mais freqüentes foram as vespas predadoras (Hymenoptera: Vespidae) pertencentes a diversas espécies, com destaque para Brachygastra lecheguana (Latreille) e Protonectarina sylveirae (de Saussure).

Aldicarb, aplicado isoladamente, além de controlar o bicho-mineiro e não interferir na presença de predadores, apresentou maior produção de café do que os tratamentos só com pulverização. Porém, quando houve associação de aldicarb com deltamethrin e ethion em pulverização, a produção aumentou em relação ao aldicarb isoladamente, produzindo 17 e 15 sacos a mais por hectare, respectivamente. O efeito desse inseticida sistêmico na produção de café já foi estudado e pode ser devido ao aumento de NPK nas folhas.

Embora o aldicarb tenha exercido efeito marcante no aumento da produção de café, não afetou a bianualidade de produção que é uma característica dos cafeeiros.

Levando-se em conta somente os tratamentos com pulverização, para que não fosse considerado o efeito de aldicarb na produção, o que daria uma falsa idéia de prejuízo pelo bicho-mineiro, as médias dos seis anos estudados mostram que a praga causou redução na produção de café entre 34,3 e 41,5%.

Com base nos resultados obtidos conclui-se que o manejo, nas regiões onde o bicho-mineiro atinge freqüentemente o nível de controle, pode ser feito com o uso de aldicarb, aplicado no solo no mês de fevereiro, e complementado com pulverização de ethion quando for constatado mais de 30% de folhas minadas, nos terços médio e superior, sem sinais de predação, no período de maior incidência da praga, e só com pulverização nas demais regiões.

Paulo Rebelles Reis e Júlio César de Souza,
Epamig

* Este artigo foi publicado na edição número 22 da revista Cultivar Grandes Culturas, de novembro de 2000. ver mais artigos
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