Substrato adequado

A produção de mudas de hortaliças é uma das fases mais críticas no planejamento da maioria das lavouras hortícolas, incluindo a cultura do tomateiro. A obtenção de uma lavoura bem-sucedida depende da qualidade das mudas utilizadas, em relação à sanidade ou genética do material. Para produção de mudas de alta qualidade, o emprego de boas técnicas é essencial e dentre os fatores importantes está o substrato, cuja qualidade depende de sua estrutura física e composição química e deve apresentar-se isento de fitopatógenos.


O substrato desempenha funções diretas na manutenção mecânica do sistema radicular, na estabilidade da planta, suprimento de água e nutrientes, suprimento de oxigênio e transporte de dióxido de carbono entre as raízes e o ar externo. Portanto, exerce mais que a função de suporte às plantas.

Os conhecimentos a respeito das melhores misturas são escassos e essas informações são de extrema importância para elaboração de substratos com boa qualidade. O mesmo ocorre com os conhecimentos relacionados à microbiota nos substratos, que é um aspecto pouco estudado, pois as populações microbianas presentes nos substratos desempenham funções similares aos presentes naturalmente no solo, como decomposição de resíduos orgânicos com a liberação de nutrientes e CO2, produção de substâncias estimuladoras do crescimento vegetal, estabelecimento de simbiose mutualista com plantas e controle biológico de doenças.

Um dos principais causadores da perda de qualidade das mudas são os patógenos do solo, principalmente fungos como Rhizoctonia solani, Pythium sp. e Fusarium sp., responsáveis pelo tombamento de mudas em diversas culturas, e que podem ocorrer antes ou após a emergência das plantas. O tombamento pré-emergente é caracterizado quando ocorre a infecção das sementes, antes ou durante a germinação, causando seu apodrecimento e desintegração, resultando em falhas de estande. O tombamento de pós-emergência em plântulas é comumente observado quando se produzem mudas em bandejas, caracterizando-se pelo ataque do patógeno na base do caule da planta, mostrando sintomas de escurecimento e amolecimento da base da planta, muitas vezes resultando em constrição dos tecidos atacados (Lopes et al, 2005).

O controle químico é pouco eficaz quando se trata de doenças causadas por fungos de solo, devido à interação do fungicida com partículas do solo que podem inativar os princípios ativos e o fato dos patógenos poderem se abrigar em diferentes profundidades nos solos. Portanto, existe a necessidade da utilização de medidas alternativas e eficazes para combater essas doenças.

A substituição ou complementação da aplicação de fungicidas tem se dado através da utilização de agentes de controle biológico como Trichodermasp., que reduzem a capacidade do patógeno de se reproduzir, mantendo baixos níveis de inóculo. Mas a sobrevivência do Trichodermasp., no solo ou no substrato, pode ser influenciada por fatores como temperatura, umidade, nutrientes, tipo de solo, microbiota, aeração, pH e teor de matéria orgânica.

Com o objetivo de analisar a qualidade de misturas de substratos e substratos comerciais (Tabela 1), com aplicação de Trichoderma sp. e sem aplicação, desenvolveram-se, no Departamento de Agronomia da Universidade Estadual de Londrina, diversos testes de caracterização física, análise de matéria orgânica e pH dos substratos; e avaliações da qualidade de mudas de tomateiro, inoculadas com Rhizoctonia solani, fungo causador do tombamento de mudas na cultura.

Nos resultados da caracterização física dos substratos (Tabela 2) observaram porcentagens 3,2% de macroporosidade no substrato para maioria dos substratos. A microporosidade, a porosidade total e a capacidade máxima de retenção de água mostram maiores porcentagens nos substratos SD (comercial Turfa Fértil), SE (solo + areia + torta de filtro) e SF (comercial Bioplant) e em relação aos resultados da densidade aparente, os substratos comerciais SD (Turfa Fértil) e SF (Bioplant) apresentaram 0,02g/cm3 e 0,07g/cm3 e nos demais, variaram de 0,31 a 0,54g/cm3. Nos substratos SD e SF foram observados os maiores níveis de matéria orgânica, 402,6g/Kg e 228,1g/kg, respectivamente. E os resultados das análises do pH (CaCl2) mostraram pH de 6,6 (SA); 6,4 (SB); 5,6 (SC); 5,5 (SD); 7,1 (SE) e 5 (SF).

Nos resultados de avaliação de doença, observaram-se menor porcentagem de tombamento nos tratamentos onde foram utilizados substratos comerciais, provavelmente devido à sua maior qualidade física e química, citada anteriormente, e qualidade fitossanitária. Assim como na avaliação de altura de plântula, comprimento de raízes e peso da parte aérea e peso radicular, também foram observados os melhores resultados nos substratos comerciais. Observou-se, também, eficiência do Trichoderma sp. no controle do tombamento, quando comparado à testemunha, sem aplicação (Figura 1).

Relatos sobre a eficiência do controle biológico de doenças de plantas com a utilização de Trichoderma sp. são cada vez mais comuns, principalmente doenças causadas por fitopatógenos, como a Rhizoctonia solani, devido à alta eficiência dos mecanismos de ação como parasitismo pela penetração do Trichoderma sp. nos micélios de R. solani, antibiose pela produção de metabólitos inibidores do crescimento e esporulação de Trichoderma sp. e competição por nutrientes e oxigênio.

Os substratos elaborados por meio das misturas com solo, areia, vermiculita e casca de arroz carbonizada, não apresentaram resultados significativos. Para o melhor aproveitamento desses materiais deve haver melhor elaboração da formulação dos substratos a fim de tornar sua utilização viável no sistema de produção de mudas.

A eficiência dos substratos comerciais está associada às suas características físicas e químicas que proporcionaram condições favoráveis para o melhor desenvolvimento das mudas e, consequentemente, reduzindo a predisposição a patógenos. Como por exemplo, devido aos altos níveis de matéria orgânica presente nos substratos, à maior capacidade de retenção de água e à menor densidade aparente do substrato. A densidade também é uma importante propriedade para o manejo, uma vez que o substrato e recipientes são transportados e manipulados, podendo influenciar nos custos de transporte e infraestrutura necessária para sua utilização.

Os conhecimentos a respeito do desempenho desses substratos correlacionados com controle químico e biológico de doenças são escassos. Nascimento et al (2003), testando apenas a germinação de hortaliças com tipos de substratos diferentes, observaram que o substrato Turfa Fértil proporcionou excelentes resultados de germinação, assim como Gomes et al (2008) trabalhando com o substrato Bioplant.

Sobre a eficiência antagônica de isolados selvagens de Trichoderma spp. no controle de doenças existem inúmeros relatos, como de Elad et al (1980), Hadar et al (1987), Larkin et al (1998), Naseby et al (2000), Howell (2003), Harman et al (2004) Asran-Amal et al (2005) e Woo et al (2006). Hadar et al (1987), em estudos com Rhizoctonia solani, relataram a capacidade de isolados selvagens de Trichoderma harzianum em colonizar o micélio de R. solani, diminuindo efetivamente os danos causados por esse patógeno. Asran-Amal et al (2005), também testaram isolados de Trichoderma sp. contra Rhizoctonia solani em testes in vivo apresentando dados satisfatórios para o controle de doenças. Em trabalhos realizados por Woo (1986), relatou-se a diminuição da população de Trichoderma sp. em solos com baixo teor de umidade e, em relação à incorporação de matéria orgânica, observou significativo aumento da população. A umidade é considerada um dos fatores que mais influenciam na manutenção da distribuição natural das várias espécies de Trichoderma sp. e na capacidade deles em colonizar a rizosfera para competir com os patógenos, bem como a filosfera. Melo (1998) relatou que o fungo Trichoderma sp. Tem ampla distribuição no mundo, em praticamente todos os tipos de solos e habitats naturais, especialmente naqueles que contêm ou são formados de matéria orgânica. Howell (2003) relatou que os mecanismos de ação do controle biológico são influenciados pelo substrato ou solo, temperatura e pH. Confirmando trabalhos de Papavizas (1985) e Harman e Taylor (1988), que relataram que o pH pode influenciar o parasitismo de biocontroladores como Trichoderma sp., que são geralmente favorecidos por solos ácidos.

Em conclusão, no sistema de produção de mudas, é fortemente recomendada a utilização de substratos comerciais de qualidade comprovada, sendo mais seguro devido às suas características físicas, químicas e fitossanitárias ideais para formação das mudas, influenciando no controle de patógenos como Rhizoctonia solani. Principalmente, quando é utilizado o controle biológico com aplicação de Trichoderma sp., que auxilia no combate de várias doenças de ocorrência em mudas, mantendo o maior equilíbrio da microbiota do substrato, favorecendo o desenvolvimento das mudas e, consequentemente, aumentando a produtividade da cultura na fase adulta da planta.


Tabela 1 - Composição das misturas dos substratos avaliados

Substratos

Composição

SA

Solo + areia + casca de arroz carbonizada + torta de filtro + vermiculita (3:3:2:2:2)*

SB

Solo + areia + vermiculita (1:1:2)*

SC

Solo + areia + casca de arroz carbonizada (1:1:2)*

SD

Turfa Fértil (turfa + perlita + calcário + fertilizante mineral)

SE

Solo + areia + torta de filtro (1:1:2)*

SF

Bioplant (material de origem vegetal e vermiculita expandida)

*proporção das misturas dos substratos em volume.


Tabela 2 - Atributos físicos dos substratos: macroporosidade (MA), microporosidade (MI), porosidade total (PT), capacidade máxima de retenção de água (CMRA), densidade aparente do substrato (DAS), matéria orgânica (MO) e pH

Substratos*

MA (%)

MI (%)

PT (%)

CMRA (50ml/cm3)

DAS (g/cm3)

MOg/Kg

pH (CaCl2)

SA

4,8

34,6

39,4

17,3

0,31

32,2

6,6

SB

3,2

38,0

41,2

19,0

0,51

2,7

6,4

SC

3,2

37,2

40,4

18,6

0,54

2,7

5,6

SD

3,2

43,6

46,8

21,8

0,02

402,6

5,5

SE

3,2

43,0

46,2

21,5

0,48

40,3

7,1

SF

3,2

42,4

45,6

21,2

0,07

228,1

5,0

*Substratos: SA: solo + areia + vermiculita + palha de arroz carbonizada + torta de filtro; SB: solo + areia + vermiculita; SC: solo + areia + palha de arroz carbonizada; SD: comercial Turfafertil; SE: solo + areia + torta de filtro e SF: comercial Bioplant.


Figura 1 - Avaliação de altura de plântulas, comprimento de raiz, peso da parte aérea, parte radicular, porcentagem de germinação e porcentagem de tombamento, cultivados sob diferentes substratos para produção de mudas de tomateiro, com tratamento de Trichoderma sp. (Figura 1A, 1B e 1C) e sem tratamento (Figura 1D, 1E e 1F). SA: solo + areia + vermiculita + palha de arroz carbonizada + torta de filtro; SB: solo + areia + vermiculita; SC: solo + areia + palha de arroz carbonizada; SD: comercial Turfafertil; SE: solo + areia + torta de filtro; SF: comercial Bioplant

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