Tecnologia inovadora

Durante o trabalho de avaliação de equipamentos agrícolas, a equipe do Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas (Nema) da UFSM se defronta com todo o tipo de máquinas, algumas com mais qualidade que as outras, algumas muito interessantes em soluções técnicas e, não muito raramente, aparecem soluções inovadoras.

Entre tantos produtos, destacamos neste artigo o sistema de pulverizador denominado Spar, fabricado por Stahar (Stapelbroek & Cia Ltda). Os bicos de pulverização, ao invés de estarem em uma barra rígida, estão distribuídos sobre uma mangueira ligada a uma linha de cabos flexíveis com um trator em cada extremidade, sendo que somente um deles leva um pulverizador convencional adaptado.

As provas de campo foram desenvolvidas na propriedade do Sr. Carlos Boherz, em Jarí, região central do Estado do Rio Grande do Sul. As avaliações realizadas foram feitas em distintas etapas como a caracterização do espécime, as avaliações dimensionais e os testes estáticos de funcionamento. Na fase final, foram feitas avaliações de campo nas culturas de aveia preta, soja, milho, sorgo e campo nativo.

A avaliação do sistema Spar foi realizada com base nas normas de avaliação existentes de diferentes instituições como ASAE e ISO. Pelas características bastante particulares do equipamento, muitas metodologias foram adaptadas e desenvolvidas para ser possível a realização das provas.

Características da máquina

O Spar (Sistema de pulverização de arrasto e alto rendimento), como é denominado comercialmente, é uma mangueira utilizada como acessório para pulverizadores tratorizados, no lugar da barra do pulverizador. Apresenta um sistema de acoplamento rápido para facilitar operações alternadas entre o mesmo e a barra normal dos pulverizadores. O sistema foi desenvolvido para acoplamento em qualquer pulverizador, desde que apresente uma bomba com vazão suficiente para a largura de operação do equipamento.

Além dessas especificações, a empresa comercializa equipamentos múltiplos dessas dimensões, ou seja, produz-se equipamentos de até 120 m de comprimento total. Nos equipamentos maiores são utilizados dois pulverizadores, um em cada extremidade.

Funcionamento

O equipamento é acoplado em dois tratores que trabalham em paralelo (lado a lado), deslocando-se a velocidades iguais. No caso de sistemas menores, o mesmo é acoplado a apenas um pulverizador, que terá a função de fornecer uma vazão de calda suficiente ao sistema. Em equipamentos maiores (acima de 80m), é necessária a utilização de dois pulverizadores, um de cada lado. Nesse caso, cada pulverizador alimentará a metade do sistema. Esse sistema difere das aplicações de um pulverizador de barras normal em dois grandes pontos: o equipamento desloca-se por arrasto sobre a cultura na qual se fará a aplicação e, ao invés de aplicar a calda de cima para baixo, aplica de baixo para cima com o jato dirigido para trás.

Perfil de distribuição do bico leque no sistema

Quanto ao perfil de distribuição dos bicos (pontas), realizou-se um ensaio sobre uma mesa de distribuição. Os resultados mostram-se semelhantes aos obtidos com as pontas funcionando na posição de trabalho normal (aplicação de cima para baixo). Na Figura 01, podemos verificar o perfil de distribuição de uma ponta (110 05 BD) trabalhando a 3 bares de pressão, atingindo uma largura de aplicação de 49 x 5 = 245cm. Esse perfil não mudou muito com a variação da pressão de trabalho, tendendo a aumentar a largura de alcance com o aumento da pressão. Verificando-se a posição de trabalho das pontas no sistema Spar, foi notado um aumento na largura efetiva de trabalho de cada ponta, o que fará com que haja maior sobreposição entre pontas durante a aplicação, se comparado com a posição normal das pontas em uma barra de aplicação normal.

Uniformidade de vazão e pressão

Nos ensaios realizados, verificou-se o comportamento da pressão de trabalho em todas as pontas ao longo do sistema Spar. As medidas foram realizadas trabalhando-se com pressão de 3,3 kgf.cm-2 no manômetro do pulverizador, e rotação de 540 rpm na TDP do trator. A medição foi realizada utilizando-se um manômetro de pontas. Utilizou-se um conjunto de pontas de marca Magno BD 110 015 novas. Os valores medidos, a essa rotação, variaram de 3,2 a 3,4 kgf.cm-2, ficando com médias de 3,27 kgf.cm-2 na primeira metade da mangueira e 3,31kgf.cm-2 na segunda metade da mangueira. A pressão média geral ficou em 3,29 kgf.cm-2, desvio padrão de 0,077 e coeficiente de variação (CV) de 2,33. Isso indica que o equipamento apresenta um índice muito bom de distribuição de produto ao longo da mangueira.

Danos à cultura após a passagem do equipamento

O sistema de pulverização Spar avaliado usa as plantas da cultura como apoio na sua passagem sobre o dossel. As avaliações foram realizadas no sentido de mensurar se essa passagem da mangueira causa danos aos diferentes tipos de cultivos. Para tanto, se desenvolveu uma metodologia específica. No local de aplicação, amostrou-se em uma área conhecida e determinada a condição das plantas antes da passagem do sistema, caracterizando a situação dessas plantas conforme suas particularidades. Logo após a passagem do sistema, em amostra análoga à testemunha, fez-se nova caracterização das plantas, buscando quantificar os danos que possam ter ocorrido pelo contato da mangueira com a cultura em estudo. Os possíveis danos foram identificados conforme a característica da planta principal em análise e seu estádio de desenvolvimento.

Considerando-se os dados obtidos nos diferentes ensaios dinâmicos realizados com o equipamento Spar, pode-se fazer algumas conclusões referentes a danos mecânicos:

• Em aplicações nos estágios reprodutivos de gramíneas de inverno, como o caso de fungicidas, o equipamento Spar pode ser utilizado sem restrições quanto a danos mecânicos;

• Na cultura da soja, nos estágios vegetativo (V5) e reprodutivo (R3 e R5.1), o equipamento provoca um baixo nível de danos, desde que essas lavouras apresentem um bom estande de plantas quando da realização das aplicações. Em estandes “abertos”, como pode ser visto na Foto abaixo, podem ocorrer danos por quebra de planta, geralmente nas últimas plantas da linha de semeadura;

• Na cultura da soja em aplicações no estágio reprodutivo (R5.1), ocorre a queda de flores e vagens, o que, todavia, não exerceu influência na produtividade final da cultura;

• O equipamento não deve ser recomendado para aplicações nas culturas de sorgo e milho. Caso haja o interesse para essa opção de utilização, as aplicações devem ocorrer em estádios iniciais, quando as plantas ainda não tiverem internódios expostos. No ensaio realizado ocorreu grande quebra de plantas nos estágios posteriores.

Penetração do produto em plantas com grande massa foliar

Realizou-se um ensaio comparando-se os equipamentos na aplicação de fungicida na cultura da soja, visando obter informações quanto à penetração do produto na cultura. Foram comparados o pulverizador de barras, o equipamento Spar – Stahar e o avião agrícola Ipanema. Esse ensaio foi realizado com a cultivar RS-10. A metodologia utilizada foi a colocação de cartões hidro-sensíveis no meio do dossel a 30 e 60cm de altura a partir do solo. Isso permite a verificação da penetração de produto no meio do dossel vegetativo da cultura.

Observando-se o Quadro 02 (veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF), podemos verificar que a densidade de deposição de gotas do sistema Spar e do pulverizador de barras foi bem superior à do avião, o que pode ser explicado em parte pela grande diferença nos volumes de calda aplicados. Quando compararmos as densidades de aplicação somente entre o pulverizador e o sistema Spar, pode-se verificar que nos volumes de 150 L.ha os dois equipamentos se assemelham bastante, principalmente na parte superior do dossel de plantas (60cm). Porém, na parte mais inferior do dossel, pode-se verificar um melhor alcance do sistema Spar, que atingiu valores bem superiores (310,37 L.ha para o Spar contra 121,20 L.ha para o pulverizador de barras). Isso nos indica claramente uma melhor eficiência de aplicação dos produtos na parte inferior do dossel pelo sistema Spar.

No Quadro 03, pode-se visualizar os resultados quanto à produtividade, utilizando-se três diferentes sistemas de aplicação de fungicidas na cultura da soja. O melhor tratamento foi a aplicação do fungicida utilizando-se o pulverizador de barras que não diferenciou significativamente do sistema Spar nos dois volumes de aplicação utilizados (100 e 150 L.ha) e do avião nos dois volumes de aplicação (20 e 30 L.ha). O pior tratamento foi a testemunha, que também não diferenciou do avião nos dois volumes de aplicação (20 e 30 L.ha). Isso permite-nos concluir que os equipamentos utilizados na aplicação dos fungicidas foram eficientes, tendo atingido aumentos na produtividade de 8,79% a 13,67%.

Capacidade operacional do sistema

A capacidade operacional de um conjunto agrícola relaciona a quantidade de área trabalhada com um determinado período de tempo, sendo que estes valores são dependentes de vários fatores. Para as avaliações de campo, buscou-se trabalhar em distintas situações e realidades, as quais devem ser consideradas no momento de se realizarem comparações. Todos os testes basearam-se na quantificação dos tempos operativos dos conjuntos, que eram tomados e registrados manualmente com cronômetro e planilhas de campo, necessitando-se para isso de dois operadores no trator ou junto ao conjunto mecanizado. Dessa forma, formou-se uma planilha de tempos classificada em três tipos distintos:

• Tempo efetivo – quando o sistema estava acionado, aplicando a calda sobre a lavoura;

• Tempo de manobras – quando o conjunto operacional não estava realizando aplicação da calda, manobrando nas cabeceiras ou desviando obstáculos diversos;

• Tempo de reabastecimento – quando o conjunto estava repondo, no depósito, a água e o produto. Esse tempo foi tomado desde o final da aplicação, quando se desligava o sistema, até o reinício da mesma, quando novamente a calda era pulverizada.

Durante a aplicação, mais dois operadores registravam a largura efetiva de trabalho e a velocidade real de deslocamento dos conjuntos. Dessa forma, ao final das avaliações estavam registrados os dados necessários para o cálculo das capacidades operacionais, as eficiências para cada operação e os rendimentos operacionais.

Dessa forma, ao final dos ensaios em diferentes áreas, culturas, produtos aplicados e com diferentes tamanhos de pulverizador, analisando-se os dados coletados obteve-se algumas conclusões, tais como:

• O equipamento Spar-Stahar, nas condições de ensaio, apresentou Capacidade de Campo Operacional em torno de 15 ha/h;

• A Capacidade de Campo Operacional do conjunto Spar foi em média 100% superior à Capacidade de Campo Operacional da aplicação com um pulverizador equipado com barras normais;

• O Rendimento de Campo Efetivo do equipamento Spar-Stahar aumenta bastante nas aplicações em áreas maiores;

• É importante que o agricultor disponha de um sistema de reabastecimento do pulverizador na lavoura para atingir maior rendimento de campo efetivo.

José Fernando Schlosser, Valmir Werner e Marcelo Prado Lima da Silva,
Nema/CCR/UFSM
Eduardo Guimarães de S. Filho,
AGCO

* Este artigo foi publicado na edição número 22 da revista Cultivar Máquinas, de julho/agosto de 2003.

* Confira este artigo, com fotos e tabelas, em formato PDF. Basta clicar no link abaixo:

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