Tem que ter fibra

O principal produto desta malvácea é a fibra; em seguida vem o caroço. Quando se fala num mercado globalizado (e em curto prazo exportação), a tecnologia da fibra é fator primordial para uma boa aceitação no mundo. As características tecnológicas da fibra melhoradas vão servir para mudar a imagem, principalmente no mercado europeu, de que o algodão brasileiro é de baixa qualidade.

No mês de junho/2000, especialistas, técnicos, consultores e agricultores de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia e São Paulo, estiveram reunidos participando de um Curso Interdisciplinar para uma Produção Algodoeira Sustentável e Competitiva, em Montpellier - França, organizado pelo CIRAD-CA e coordenado no Brasil pela Coodetec. Um dos temas principais foi a caracterização da fibra do algodão (pensando-se numa maior competitividade internacional) e evidentemente sistemas de cultivos visando redução de custos e preservação do meio ambiente.

Progressos tecnológicos

No Brasil, a indústria têxtil tem obtido importantes progressos tecnológicos nos últimos 25 anos. Neste progresso, que conduz ao aumento da produtividade, a exigência dos industriais pela melhor qualidade aumentou porque as rupturas ligadas aos defeitos da fibra causam sérios problemas nas fiações mais modernas e de grande capacidade. Isso demonstra a importância das características da fibra, consideradas secundárias anteriormente.

Mais ainda, os industriais têm utilizado mecanismos para avaliar se suas exigências são atendidas corretamente, através de novos equipamentos de medição automatizados (HVI, AFIS...).

O HVI (High Volume Instrument), instrumento de medição das características físicas da fibra de alta capacidade, é uma ferramenta que utiliza conceitos teóricos das medições clássicas, integrados em um só aparelho. As principais mudanças estão no método de avaliação da resistência, e a dependência entre os diversos módulos da máquina. Os instrumentos de medição integrados em um HVI permitem a determinação das seguintes características: comprimento, uniformidade, resistência e alongamento, micronaire, colorimetria e taxa de matérias estranhas e seu tamanho.

Todas as análises provenientes deste equipamento são dependentes das condições ambientais. A sala de trabalho deve ser bem acondicionada em 65%, mais ou menos 2% em umidade relativa e 21 graus centígrados mais ou menos em temperatura. As variações das condições climáticas não só afetam os níveis de medição, como também causam variabilidades nos resultados. Um estudo americano mostra que uma variação de curta duração de 1% na umidade relativa leva a uma modificação média de 1g/tex na resistência.

Para a pesquisa já foi desenvolvido o número de repetições confiáveis para cada variável em estudo. Para lotes comerciais o objetivo final é o estabelecimento de características homogêneas. Levando em consideração as informações geradas pelo sistema HVI, é possível limitar os problemas em fiações, e ao mesmo tempo melhorar as qualidades dos fios produzidos. Desta forma, os produtores podem valorizar o máximo sua produção.

Com o resultado confiável desta máquina duas variáveis são muito importantes no processo atual: resistência e micronaire.

Avaliando resistência

A resistência é uma característica relevante que depende em grande parte da resistência do fio. É expressa geralmente em carga específica de ruptura, comumente chamada pela indústria de tenacidade, ou seja, a carga de ruptura expressa em cN sobre a massa lineíca em tex (comercialmente expressa em g/tex). Pelos padrões de calibração HVICC, materiais que tenham pelo menos 28 g/tex, já são considerados razoáveis para fiação. Excelente seria em torno de 30 g/tex. Este será um fator limitante na escolha de uma variedade para comercialização da pluma no futuro.

O micronaire também é uma variável de relevância no algodão. É importante para os produtores, pelo fato de que os fiandeiros requerem um certo padrão e se o algodão cair abaixo deste padrão, ele irá ter um deságio no seu preço. Porém, o micronaire sozinho não diz nada em termos de característica da fibra. Tem-se que entender que ele é na realidade uma complexa e indireta medição da combinação da maturidade da fibra (espessura) e a finura (diâmetro externo). O diâmetro externo da fibra é determinado pela variedade, e está definido de 3-5 dias após a floração. Nas variedades comerciais (G. hirsutum) a finura aceitável é: Hs = 175 a 200 mtex.

Ressalta-se também que a finura é um fator muito importante na determinação da rigidez de um tecido ou, alternativamente, de sua maciez no toque e suas qualidades de drapejamento. A finura desempenha um papel fundamental para determinar a facilidade com que as fibras podem ser entrelaçadas durante a formação do fio. A maturidade representa a espessura da parede secundária. Depende das condições de cultivo, da ocorrência de doenças e do ataque dos insetos. As temperaturas baixas afetam o transporte de matéria prima, sua conversão à celulose e conseqüentemente reduzem a espessura da fibra (capulhos produzidos tardiamente são particularmente suscetíveis à baixa micronaire por esta razão). Este índice é definido MR = maturity ratio que combina as percentagens de fibras normais e mortas, dando a percentagem média de fibras maduras (% PM). Índices aceitáveis para esta variável são: PM % = >75.

Processo produtivo

Além da tecnologia da fibra, o processo produtivo do algodão não pode ser dissociado de algumas práticas agronômicas valiosas para produção: adubação mineral, proteção fitossanitária, efeitos positivos resultantes do melhoramento genético e, em algumas áreas, irrigação. Os trabalhos de seleção e criação varietal têm permitido não somente aumentar o rendimento, mas também a expressão do potencial de rendimento com variedades tolerantes às doenças, e criação de variedades mais precoces para regiões com latitudes mais setentrionais. Deve-se também à genética a criação de materiais mais adaptados aos diferentes modos de cultivo (por exemplo, à colheita mecânica que exige plantas menos pilosas, com vegetação mais reduzida e que respondam bem à desfolhação química) ou a objetivos de produção particulares, como níveis mais elevados de rendimento de fibra.

Variedades Coodetec

A cultivar CD 404 atualmente recomendada para região central do Brasil tem respondido positivamente, à maioria destas demandas. Fica evidente que para uma região com variações edafoclimáticas consideráveis, a recomendação de uma só base genética não é viável. Diversificar seria o melhor caminho para evitar riscos maiores. Além da CD 404 recomenda-se também CD 402 e CD 403 para regiões onde se precisa de mais rusticidade das cultivares.

O problema não é somente pôr em prática novas técnicas para produzir mais, e sim produzir melhor, ou seja, de maneira economicamente rentável e socialmente aceitável. Entre os critérios de aceitação social, estão o impacto da produção algodoeira sobre o meio ambiente, ou melhor, a durabilidade da produção no sentido de preservação das capacidades de produzir no futuro, que são elementos que os países produtores não devem esquecer. A pesquisa está se dedicando a resolver problemas mais graves e complexos. Cabe ao produtor estabelecer metas de produção eficiente com rentabilidade, sem pensar única e exclusivamente em produtividade com oneração dos custos.

Delano Marcus Gondin
Coodetec

* Este artigo foi publicado na edição número 19 da revista Cultivar Grandes Culturas, de agosto de 2000.

* Confira este artigo, com fotos e tabelas, em formato PDF. Basta clicar no link abaixo:

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