Tempo certo de realizar dessecação em soja

O fator chave para que o produtor possa obter sucesso com a dessecação reside em acertar o momento exato de realizá-la. Aplicações antecipadas podem reduzir significativamente a produtividade da soja ao mesmo tempo em que as realizadas com atraso não apresentarão bons resultados na antecipação da colheita, objetivo principal da operação.

A dessecação da soja foi muito utilizada no Brasil na década de 90. Em função de falhas no manejo de plantas daninhas, a colheita mecanizada tornava-se uma prática muito difícil. Assim, a dessecação era indispensável para facilitar a colheita dos grãos e reduzir perdas. Após a inserção no campo e expansão da soja RR, o controle das plantas daninhas melhorou, reduzindo a necessidade da utilização da prática de dessecação, com esta finalidade.

Figura 1. Percentagem da soja dessecada na região de atuação da Copacol em função das safras.
Figura 1. Percentagem da soja dessecada na região de atuação da Copacol em função das safras.

No cenário atual, a dessecação em soja proporciona benefícios importantes para os produtores, como: facilitar a colheita dos grãos, escalonamento da colheita e semeadura (milho 2a safra) com consequente otimização do uso de máquinas (colhedora e semeadora), uniformização da maturação, redução de impurezas nos grãos, redução do custo de secagem dos grãos, aproveitamento de melhores condições comerciais da soja, antecipação da semeadura do milho de inverno aumentando o potencial produtivo e reduzindo o risco de perdas por geadas e secas deste cultivo. Estima-se que na região Oeste do estado do Paraná mais de 30% das áreas são dessecadas anualmente. Na região de atuação da Copacol, na safra 2014/15, foram dessecadas 45% das áreas comerciais de soja. (Figura 1).

Os ativos mais utilizados e registrados para dessecação de soja RR são: paraquat, diquat e glufosinato de amônio, presentes em diversas marcas comerciais (Tabela 1). A aplicação destes produtos para dessecar a soja, representa acréscimo no custo de produção. Na última safra, o custo médio do produtor paranaense para dessecar um hectare de soja foi de R$ 41,82. Esse custo já foi maior, porém com o registro de diversas marcas de produtos genéricos do paraquate houve um aumento da oferta de marcas e diminuição do preço para o produtor (Figura 2).

Figura 2. Custo médio do dessecante para soja na região de atuação da Copacol em função das safras.
Figura 2. Custo médio do dessecante para soja na região de atuação da Copacol em função das safras.

Diante deste cenário a equipe do Centro de Pesquisa Agrícola da Copacol (CPA), elaborou um ensaio na safra 2014/15 para avaliar o melhor produto e momento adequado para dessecação da soja. O ensaio foi montado em blocos ao acaso e delineamento de tratamentos fatorial. Avaliou-se três produtos distintos: paraquate, diquate, e glufosinato de amônio, na dose de 2,0 L/ha do produto comercial e três momentos de dessecação: 20 dias, 15 dias e 10 dias antes da maturação de colheita da soja, com quatro repetições.

A cultivar utilizada foi a BMX Alvo RR que possui ciclo de aproximadamente 120 dias para a região. A semeadura ocorreu no dia 12/10/2014, com a utilização de 330 kg/ ha do fertilizante formulado 04-24-16 (N-P2O5-K2O) e espaçamento entre linhas de 45cm. Os tratos culturais foram realizados de acordo com as recomendações oficiais para cultivo da soja na região oeste do Paraná. Em 23/01/2015 foram demarcadas as parcelas com cinco linhas e 10 metros de comprimento. Na mesma data foram aplicados os tratamentos na primeira época de aplicação (20 dias antes da maturação de colheita). No dia 28/01/2015 e 02/02/2015, foram aplicadas a segunda e terceira época, 15 dias e 10 dias antes da maturação de colheita, respectivamente (Figura 3). As aplicações foram realizadas com equipamento pressurizado a CO2, utilizando ponta de pulverização XR 110 02, e 300 L/ ha de vazão. 

Figura 3. Visão geral das parcelas na data da dessecação.
Figura 3. Visão geral das parcelas na data da dessecação.

No dia 12/02/2015 todas as parcelas foram colhidas, determinando a produtividade e massa de mil grãos (MMG). A massa das parcelas foi corrigida para umidade de 13%. Os dados foram submetidos à ANOVA utilizando-se teste de regressão para as épocas de aplicação.

Não houve diferenças entre os produtos aplicados, tanto para à produtividade, quanto para a MMG. Porém ocorreu resposta significativa em função da época de aplicação dos produtos. Quanto maior a antecipação, maiores foram as perdas de produtividade e redução da MMG. Como pode ser visto nas Figura 4 e 5, a dessecação 20 dias antes da maturação de colheita causou uma redução de 904 kg/ ha (15 sc/ha). Observa-se perda em todas as épocas de dessecação, porém foram menores abaixo dos 10 dias (<5% de perdas).

Figura 4. Produtividade da soja em função da dessecação com diferentes produtos e dias antes da maturação de colheita.
Figura 4. Produtividade da soja em função da dessecação com diferentes produtos e dias antes da maturação de colheita.

A redução de produtividade está relacionada à prematura queda das folhas. A perda total da área foliar cessa a produção e a translocação de fotoassimilados das folhas para os grãos. Com interrupção da translocação, ocorre redução na MMG, que é um dos componentes de rendimento que interfere diretamente na produtividade da soja. Na Figura 5, observa-se que com a dessecação antecipada de 20 dias, reduziu-se em 22,83 g grãos1000.

Figura 5. Massa de mil grãos da soja em função da dessecação com diferentes produtos e dias antes da maturação de colheita.
Figura 5. Massa de mil grãos da soja em função da dessecação com diferentes produtos e dias antes da maturação de colheita.

Na Tabela 2, está apresentada a estimativa do percentual de perda diária (dias antes da maturação de colheita), calculada a partir da equação obtida no ensaio (Figura 4). Aplicações realizadas antes de 7 dias da maturação de colheita, possuem maior taxa de perda diária de produtividade.  Portanto, os benefícios e subtrações obtidos pela dessecação devem ser devidamente calculados.

Avaliar a real necessidade da dessecação é fundamental. Assim entender a dinâmica dos sistemas de cultivos (sucessão de culturas) adotados na propriedade, oferta de maquinas, espécies e quantidade de plantas daninhas presentes, uniformidade da lavoura de soja e previsão das condições climáticas que serão enfrentadas, são alguns dos pontos que devem ser avaliados para tomar a decisão sobre a necessidade da dessecação.

 Quando adotada, o fator chave de sucesso da dessecação está em acertar o momento correto de realiza-la. Aplicações antecipadas podem reduzir significativamente a produtividade da soja, diminuindo assim a rentabilidade do produtor rural. Por outro lado, a aplicação atrasada não apresentará resultados significativos na antecipação da colheita, objetivo principal da operação, elevando custo de produção sem o retorno esperado. 

Dessecação em soja – 2 dias após a aplicação
Dessecação em soja – 2 dias após a aplicação
Dessecação em soja – 4 dias após a aplicação
Dessecação em soja – 4 dias após a aplicação


Fernando Fávero, Tiago Madalosso, CPA/Copacol


Artigo publicado na edição 202 da Cultivar Grandes Culturas.

ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura