Tendências de mercado

O cultivo de pimentões é uma atividade significativa para o setor agrícola brasileiro. Anualmente, cerca de 12.000 ha são cultivados com esta hortaliça, com uma produção de aproximadamente 280.000 toneladas de frutos. A produção de pimentão existe em todos os Estados da Federação, mas concentra-se nos Estados de São Paulo e Minas Gerais que plantam, em conjunto, cerca de 5.000 ha, alcançando uma produção de 120 mil toneladas. Somente o mercado nacional de sementes de pimentão movimenta US$ 1,5 milhão.

Entre os condimentos, o pimentão vermelho tem ganho importância na indústria de processamento de alimentos devido à presença, na polpa de seus frutos maduros, de um concentrado de pigmentos naturais. A coloração vermelha dos frutos é devido à presença de carotenóides oxigenados (xantofilas), principalmente capsorubina e capsantina, que respondem por 65-80% da cor total dos frutos maduros. Tais pigmentos têm sido largamente utilizados como corantes em diversas linhas de produtos processados como molhos, sopas em pó de preparo instantâneo, embutidos de carne, principalmente salsicha e salame, além de corante em ração de aves. A área cultivada no Brasil com pimentão para processamento industrial na forma de pó (páprica) ainda é muito pequena (menos de 2.000 ha) e quase toda a produção é exportada. O mercado externo é extremamente exigente quanto à qualidade do produto. Para atender esta demanda, é essencial a escolha de uma cultivar adequada, com polpa grossa, alto teor de pigmentos, elevado rendimento industrial e que produza um pó com grande estabilidade.

Quanto ao mercado interno, o consumo de pimentão na forma desidratada basicamente restringe-se à indústria de alimentos como condimento/tempero em sopas de preparo instantâneo e em molhos, além de venda à varejo, onde é comercializado em pequenos frascos como tempero. Apesar de que grande parte da população brasileira desconhece a existência e a composição da páprica, assim como sua utilidade na culinária, existe potencial para uma popularização deste condimento.

Principais problemas da cultura

A ocorrência de doenças em campos de pimentões tem dificultado o cultivo desta hortaliça no Brasil e afetado a qualidade dos seus frutos. São considerados fatores limitantes à produção a murcha-de-fitóftora (Phytophthora capsici), a mancha-bacteriana (Xanthomonas campestris pv. vesicatoria), a murcha-bacteriana (Ralstonia solanacearum), o oídio (Oidiopsis taurica), o vira-cabeça (TSWV, GRSV, TCSV) e o mosaico (PeYMV, PVY). A ocorrência de ácaros e tripes também apresenta-se como fator limitante ao desenvolvimento de plantas e frutos.

Em recentes estudos sobre hortaliças no Estado de São Paulo, a principal demanda levantada por extensionistas foi a necessidade de novas cultivares resistentes a pragas e doenças, mais produtivas e adaptadas às condições locais de cultivo. Acrescenta-se, ainda, a ineficiência do controle químico da maioria destas doenças por agrotóxicos, além do seu alto custo e riscos ao meio ambiente, produtores e trabalhadores rurais, bem como ao consumidor através da contaminação do produto final.

Cultivares e híbridos disponíveis

Não se sabe com precisão a data e o local em que iniciou-se o cultivo comercial de pimentão no Brasil. Há registros de que as primeiras cultivares de pimentão que aqui chegaram são de origem espanhola, do grupo “Casca Dura”, de frutos cônicos, e foram introduzidas inicialmente em Mogi das Cruzes e Suzano, no Estado de São Paulo. As primeiras cultivares brasileiras de pimentão surgiram a partir de seleções feitas em populações destes materiais. Até a década de sessenta, as principais cultivares plantadas eram aquelas selecionadas por agricultores, que levavam em consideração o vigor da planta, frutos graúdos e com formato cônico, polpa espessa e firme. Normalmente, recebiam o nome do produtor - cv. “Ikeda”, ou do local onde eram cultivados, como “Avelar” no Estado do Rio de Janeiro, e “São Carlos” no Estado de São Paulo. Em menor escala, cultivava-se em São Paulo cultivares importadas dos EUA, como “Ruby King”, “Wilson A.”, “California Wonder” e “World Beater”, de formato quadrado.

Para consumo de fruto in natura, o mercado brasileiro tem preferência por frutos de formato cônico, graúdos e de coloração verde-escuro. Cultivares do tipo quadrado restringem-se às regiões Norte, Nordeste e ao Rio Grande do Sul. Esse tipo de pimentão tem grande aceitação nos mercados americano e europeu. Alguns países da Europa têm importado pimentões brasileiros de formato quadrado, durante o inverno europeu.

No mercado existe um predomínio de híbridos, que se caracterizam pela resistência múltipla a doenças, alto vigor, produtividade, precocidade de produção e uniformidade. Além de cultivares de frutos verdes (quadrados ou cônicos) e vermelhos quando maduros, existe no mercado um grande número de híbridos de pimentão coloridos, em cores que variam do marfim à púrpura, passando pelo creme, amarelo e laranja, e podem também apresentar resistência a diferentes doenças. A área cultivada com estes híbridos ainda é pequena, e as sementes importadas correspondem a 1% do volume total de sementes de pimentão comercializado no Brasil, sendo normalmente cultivados em estufas. Em média, o preço de venda destas sementes é R$ 15 mil/kg.

Melhoramento genético de pimentão no Brasil

O pimentão tem sido foco de programas de melhoramento há várias décadas no Brasil. Programas de melhoramento do setor público criaram uma grande parte dos materiais utilizados até a década de oitenta – as cultivares da série Agronômico desenvolvidas sob a liderança do Dr. Hiroshi Nagai, do Instituto Agronômico de Campinas, foram, e algumas ainda são, de grande importância para a produção nacional, tendo resistência à doença conhecida como mosaico (causada pelo vírus PVY). Esta doença surgiu no Estado de São Paulo na década de sessenta e inviabilizou o cultivo de pimentão na região por alguns anos. Também foram conduzidos programas de melhoramento de pimentão na Universidade Federal de Viçosa - MG (UFV) e na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

A Embrapa Hortaliças, no setor público, a Sakata Sudameris e a Horticeres, no setor privado, são hoje os condutores de substanciais programas de melhoramento genético de pimentão no Brasil. A Sakata Sudameris, inicialmente conhecida como Agroflora, lançou em 1978 a cv. “Magda”, de fruto cônico e que ainda hoje é muito plantada por pequenos produtores de pimentão. Em 1989, foi lançado o híbrido “Magali”, aliando produtividade e frutos bem maiores (cônico alongado), em 1995 o híbrido “Magali R”, com resistência a viroses, e em 1998 o híbrido “Martha”, com resistência a viroses e à murcha-de-fitóftora ou requeima.

O programa de melhoramento de pimentão da Horticeres tem focado resistência à principal doença fúngica da cultura, murcha-de-fitóftora, causada pelo fungo Phytophthora capsici. Existem no mercado três híbridos da Horticeres resistentes à murcha-de-fitóftora, “Athenas”, “Hércules” e “Priscila”.

Nos últimos vinte anos, o programa de melhoramento da Embrapa Hortaliças tem se concentrado na resistência múltipla a doenças, como Phytophthora capsici (murcha-de-fitóftora), Xanthomonas campestris pv. vesicatoria (mancha-bacteriana), Ralstonia solanacearum (murcha-bacteriana), PVY (mosaico) e TSWV (vira-cabeça). Como resultado deste trabalho foram liberadas diversas linhagens que estão sendo utilizadas tanto no Brasil como no exterior: linhagem CNPH 148, resistente à murcha-de-fitóftora (usado no programa de melhoramento da Horticeres); linhagem CNPH 703, padrão mundial de resistência estável e durável a Xanthomonas campestris pv. vesicatoria, entre outras. E, mais recentemente, vem desenvolvendo populações e linhagens de pimentões e pimentas doces para páprica e pimentas picantes para molhos líquidos, com resistência a doenças e com melhores características agronômicas e industriais, sob contrato de cooperação técnica e financeira com empresas do setor privado.

Tendências de mercado

O plantio sob plástico foi iniciado na região Sul do país no final dos anos 80, para possibilitar a produção no inverno. Diante da excepcional condição de produção apresentada, possibilitando cultivo durante todo o ano, a expansão deste tipo de estrutura aconteceu praticamente em toda a região Centro-Sul do país, sendo utilizada como proteção, não só contra as baixas temperaturas, mas também contra intempéries (chuva, granizo).

Com o incremento do plantio em condições protegidas, sob plástico, houve uma procura por híbridos com maior produtividade e valor comercial que compensasse o investimento na nova infra-estrutura de produção. Inicialmente, havia um diferencial de preço do pimentão produzido na estufa devido à valorização da qualidade do fruto. Posteriormente, houve a entrada de híbridos coloridos, de sabor mais leve e adocicado, que possibilitaram alto rendimento para o produtor, tanto em produtividade (até 240 toneladas/ha) quanto valor da unidade produzida.

Com o uso intensivo do solo e os ciclos mais longos da cultura (de até 12 meses), surgiram problemas fitossanitários agravados pelas condições ótimas que a estufa proporciona a insetos, ácaros e patógenos, aliados à quase inexistente rotação de culturas. Em situações mais graves de contaminação do solo por fungos, o produtor que quer permanecer na atividade é obrigado a cultivar em substratos, fornecendo todos os nutrientes da planta via fertirrigação.

Atualmente, verifica-se uma menor longevidade dos cultivos, com conseqüente redução de produtividade em função do menor período de colheita. Desta forma, a grande vantagem comparativa entre cultivo de pimentão verde nas estufas versus campo foi sendo paulatinamente reduzida.

A valorização do produto devido a sua forma de cultivo não acontece mais, pois o mercado não diferencia o pimentão verde produzido no campo ou na estufa, o que talvez seja explicado pelo alto nível tecnológico dos cultivos e pelos híbridos utilizados que permitem obter produtos de excelente qualidade nos dois ambientes. O diferencial de preço ainda é verificado para os pimentões coloridos, atingindo 60-100% de incremento no preço de atacado, que continuam com plantios restritos às condições protegidas, em parte devido ao alto custo da semente e à necessidade de condução sob condições ambientais adequadas. Ainda assim é necessário reduzir o ciclo da cultura a fim de garantir frutos pesados de polpa espessa, conforme exigência do mercado.

Quando da explosão da moderna plasticultura, houve uma tendência de lançamento de híbridos no mercado com frutos grandes, tipo cônico ou quadrado, com peso a partir de 250 gramas, em média. No entanto, há dois anos, verifica-se um movimento no mercado de sementes favorável a volta de cultivares e híbridos de frutos menores, do tipo “block” (quadrados). Este tipo de pimentão atende a um segmento da sociedade moderna, formado por famílias pequenas, que preferem frutos menores por ocuparem menos espaço nas geladeiras e por serem consumidos logo, evitando desperdícios.

Identificam-se dois tipos de mercado com relação a tamanho de frutos, havendo preferência, em feiras e quitandas, por frutos menores, enquanto que as grandes redes de supermercados valorizam os frutos maiores. Para o produtor, o custo de mão-de-obra para colheita, classificação e embalagem é reduzido na produção de frutos maiores quando comparado com os com peso inferior a 150-180 gramas.

Outro fator que altera o valor da produção é a embalagem de comercialização. Os híbridos coloridos são comercializados preferencialmente em caixas de papelão ou bandejas de isopor com 3-4 frutos embalados com filme plástico, enquanto que para pimentões verdes são utilizadas as antigas caixas tipo K, de madeira, resultando em menor custo de embalagem e também menor preço no mercado.

O cultivo de pimentão no Brasil apresenta excelentes perspectivas de expansão, principalmente considerando-se os diferentes nichos de mercados que estão surgindo. Além de serem consumidos frescos (em saladas, refogados, fritos e como tempero) também podem ser processados pela indústria de alimentos, na forma de páprica (corante natural ou condimento), molhos, escabeches, conservas e geléias.

Cláudia S. da Costa Ribeiro,
Embrapa Hortaliças
Débora M. Rodrigues Cruz,
EMATER - DF

* Este artigo foi publicado na edição número 14 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de junho/julho de 2002. ver mais artigos
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