Test Drive: LS Tractor U60 Power Shuttle

Testado num local que exige agilidade nas manobras e bom raio de giro, o LS U60 mostrou que a sua transmissão Power Shuttle é uma excelente ferramenta para tornar o trator mais dinâmico e eficiente

De uma forma geral, os test drive da Revista Cultivar Máquinas são temáticos e envolvem a aplicação de uma máquina em uma ou duas operações específicas. Buscamos, desta maneira, inserir a máquina no processo real em que ela está sendo utilizada e, por isto, realizando a avaliação em uma condição específica identificada com a situação e o sistema de produção. Por esta razão, é completamente impossível realizar um teste ou uma avaliação quantitativa, com recursos tecnológicos disponíveis e utilizados na pesquisa científica. 

Para o teste desta edição, fomos até o município de Carambeí, no Paraná, para realizar uma avaliação do trator LS modelo U60 Cabinado, em uma situação extremamente particular, mas que, sem dúvida, será muito interessante para os nossos leitores e para poder levar informação sobre esse modelo que já havíamos testado, porém que agora vem ao mercado com uma importante novidade, o reversor elétro-eletrônico Power Shuttle.
Este modelo, que é novidade na marca LS e será apresentado em todos os eventos e feiras deste ano, incorpora uma tecnologia de grande utilidade em muitas atividades agrícolas. 
O trator é equipado com um motor LS agrícola, modelo L4AL, produzido pela própria LS, de quatro cilindros e quatro válvulas por cilindro, volume total de 2.505cm3, refrigerado a água, com injeção direta por bomba rotativa e turbo compressor centrífugo (turbina). O projeto contempla uma bomba de sangria, que possui um dispositivo eletrônico de detecção de água no combustível, que avisa o operador através de um sinal luminoso no painel do trator. O ar da admissão é filtrado por meio de dois elementos secos, de papel, um primário e outro secundário, que estão sob o capô, na parte da frente do motor.
O motor atende à normativa Tier III de contaminantes atmosféricos, algo que diferenciou a marca desde a sua chegada ao país e que não é frequentemente encontrado em tratores desta potência. O motor, pela Norma ISO TR 14396, alcança 65cv de potência na rotação nominal, que é de 2.500rpm, sendo que, destes, 57cv chegam à TDP nesta rotação. O torque máximo de 209Nm é alcançado a 1.600rpm, chegando a uma reserva de Torque  de 20%.
Para o arrefecimento da temperatura do motor se utilizam nove litros de um líquido à base de água. Para a troca da temperatura com o meio ambiente, dois radiadores estão colocados sob o capô à frente do motor. O primeiro é do condicionador de ar e o segundo é do líquido de arrefecimento do motor. Para diminuir a chegada de pó aos radiadores, existe uma tela, que pode ser removida para limpeza, quando necessário.
Para atender a uma boa autonomia de combustível, o depósito tem capacidade para 60 litros. Sua posição é na parte inferior da cabine, no lado esquerdo. 
A transmissão é do tipo sincronizado, denominada nesta versão de Power Shuttle, com 16 marchas à frente e 16 marchas à ré, utilizando um reversor de sentido. São quatro marchas distribuídas em quatro grupos. A alavanca seletora de marchas está posicionada à direita do operador e a de seleção de grupos, utilizada com menos frequência, está posicionada à esquerda do assento. Ambas apresentam posicionamento de neutro. Junto à coluna do volante da direção, onde normalmente é posicionada a alavanca de luz sinalizadora de direção (pisca-pisca), o fabricante posicionou a alavanca mais importante deste modelo, que é a do reversor de movimento. Com três posições, frente, neutro e ré, ela pode ser movimentada sem que seja necessário retirar a mão do volante. Bem ergonômica, é de muito fácil movimentação e se presta muito na ajuda necessária às manobras rápidas. Também notamos uma novidade interessante deste modelo, que é a possibilidade de configurar a reação do trator no engate da reversão. No painel há um interruptor que possibilita que o operador diferencie o tempo de reação da reversão, em função da operação que está desenvolvendo e da sua exigência em esforço. Portanto, é possível configurar manobras mais rápidas, para operações de transporte e manobras mais lentas, para aquelas com implementos acoplados e que exigem esforço do trator. Este é um dos diferenciais deste modelo e que pudemos provar em uma operação de movimentação de silagem, na propriedade. 

TRANSMISSÃO

A TDP tem três velocidades de 540rpm, 750rpm e 1.000rpm

Este modelo pode ainda ser equipado com a transmissão Power Shuttle, que traz um supercreeper, que proporciona mais 16 marchas ultrarreduzidas de velocidade de deslocamento. 
Na tomada de potência (TDP), esta marca já trouxe na sua chegada ao país uma novidade, que é a oferta de três velocidades de 540rpm, 750rpm e 1.000rpm. A rotação de 540rpm na TDP é conseguida com 2.409rpm, e a de 1.000rpm, se consegue a 2.381rpm do motor. Como alternativa, a marca dispõe de uma velocidade de 750rpm, que é considerada uma forma de TDP econômica, conseguida a 2.375rpm. Um interruptor no painel serve para acionar de forma eletromecânica a tomada de potência (TDP), que pode ser utilizada em modo manual ou independente, dependendo da posição da chave seletora. Quando se escolhe a forma manual, a TDP se desconecta quando a embreagem for acionada. Quando a escolha for para a forma independente, o trator desliga automaticamente a TDP quando os braços do sistema de três pontos do trator se elevarem. Para a proteção do usuário, a TDP apresenta uma proteção metálica fixa do tipo escudo. Como é comum em vários tratores, o mesmo lubrificante da transmissão é utilizado para o sistema hidráulico, VCRs e sistema de direção. Neste trator este volume de fluido é de 47 litros. 
A direção é do tipo hidrostático e o eixo dianteiro é motriz, com tração dianteira auxiliar e acionamento mecânico por alavanca. Uma característica que difere este trator e é adotada pela marca, é que a transmissão dianteira utiliza engrenagens cônicas, e não árvore com cruzetas, que resulta em menor raio de giro, segundo o fabricante. 
O sistema hidráulico de três pontos é da categoria II, com vazão total máxima de 55 litros por minuto, pressão máxima de 200bar e capacidade máxima de levantamento na rótula de 1.754kgf. No sistema existe a tradicional alternativa de posição e profundidade, em duas alavancas, posicionadas à direita do assento do operador. O sistema de controle remoto é independente, com duas válvulas VCR como versão standard e três como opcionais, com vazão máxima de 36,4 litros por minuto. Para a ativação do sistema foram montadas duas bombas hidráulicas independentes. Uma delas serve exclusivamente ao sistema de direção do trator e a outra é utilizada para o sistema de levantamento em três pontos e para as VCRs. Como novidade, há uma automatização do sistema, utilizando uma pequena alavanca, posicionada ao lado direito do posto de operação. Com este automatismo, o operador pode levantar o equipamento e com apenas um toque em um interruptor pode baixá-lo a uma posição vertical pré-programada. 
A LS oferece várias opções de montagem de rodas e pneus para este modelo, além dos rodados dianteiros com especificação 11.2-24 e traseiros 18.9-30, montados no trator de teste. Ainda há mais três opções de R1 e uma opção de pneus garra alta R2 para a traseira. O nosso trator de teste estava equipado com seis pesos, cada um de 20kg, e mais um suporte de 33kg na parte frontal. 

CABINE
A cabine é de boa qualidade, apoiada em quatro coxins, dois frontais e dois traseiros, para diminuir vibração, com porta de entrada do operador em ambos os lados e uma janela traseira basculante. As laterais são envidraçadas e favorecem a visibilidade, principalmente em operações intensivas e em espaço reduzido. Para a filtragem do ar interno da cabine há um filtro de carvão ativado, que o usuário como adquirir como opção. O cano de descarga dos gases está posicionado atrás da coluna da cabine e bem protegido, para evitar queimaduras de quem inadvertidamente possa apoiar-se. 

A alavanca de reversão de sentido facilita o trabalho do operador

Como é padrão nesta classe de trator, o projeto previu aumento de visibilidade do operador, dotando o trator de dois retrovisores laterais e um no interior da cabine. Para a iluminação noturna foram colocados dois faróis na parte superior da cabine e quatro faróis embutidos no capô, além de dois faróis de trabalho direcionáveis nos pega-mãos de acesso à cabine. As sinaleiras traseiras estão colocadas nos para-lamas, juntamente com as luzes de indicação de direção. 
Como se exige por norma brasileira e mundial, o trator tem uma estrutura de proteção ao capotamento (EPC) embutida dentro da cabine. O fabricante declara efetividade da estrutura, indicando que esta passou por ensaio pela norma Asae J2194. Dentro da cabine, encontramos todas as funcionalidades exigidas como o condicionador de ar, com saídas nas partes frontal e lateral do teto. Também no teto, porém na parte frontal esquerda, estão disponíveis os controles de ventilação e condicionamento do ar, assim como um CD-Player. Na lateral esquerda da cabine, embutidas nas colunas, outras funcionalidades, como o ponto de energia de 12V para carregamento de equipamentos portáteis como notebook e telefones móveis e os interruptores das luzes internas e externas da cabine e do limpador de para-brisas. 
O console lateral principal está posicionado à direita do operador e nele existem um porta-objetos, as alavancas de acionamento das marchas, a alavanca de acionamento (escolha) da rotação da TDP e as de acionamento das VCRs, do acionamento do sistema de três pontos e determinação da profundidade de trabalho do implemento acoplado nos três pontos. Destaca-se também, na cor laranja, a pequena alavanca de memorização da posição regulada do sistema de três pontos, mencionada anteriormente.
O freio de estacionamento e a alavanca seletora dos grupos de marchas (quatro grupos) estão colocados no piso ao lado esquerdo do assento do operador.
À frente do volante foi colocado um pequeno painel frontal, onde podem ser visualizadas várias funções operacionais do trator, como o tacômetro analógico e digital, o registro do total de horas trabalhadas, um indicador da temperatura da água do motor, do nível de combustível e das luzes indicativas da condição do alternador, da pressão do óleo, do acionamento do freio estacionário e do aquecimento antes da partida do motor. 
O volante da direção tem regulagem de posição e, junto a ele, temos o acelerador na direita e a alavanca de reversão na esquerda, que é o ponto alto deste modelo. 
No piso da plataforma, para o comando do operador, estão os pedais de embreagem, os freios, o acelerador de pé, de bloqueio do diferencial e do acionamento da TDA.
O assento do operador possui apoio de braços, cinto de segurança e pode ser ajustado de três formas: distância, posição do encosto e oscilação vertical.
O capô é basculante e favorece bastante as operações de manutenção e limpeza de radiadores e demais componentes do motor. Os freios são a disco, imersos em óleo, utilizando três unidades em cada lado, com acionamento hidráulico. 
Quanto às dimensões, o trator possui distância entre eixos de 2.047mm e comprimento total de 3.759mm. A altura máxima é de 2.454mm e o vão livre de 420mm.

OS TESTES

Revolvimento da cama onde as vacas de ordenha ficam em repouso

Dividimos o nosso teste em duas partes. A primeira foi dentro do pavilhão que abriga as vacas na operação de revirar a cama. Esta operação é bastante pesada, pois é necessário movimentar uma massa de solo, misturado com serragem e os resíduos dos animais. Fizemos este revolvimento utilizando uma enxada rotativa da marca Mec-Rul, com 1,20 metro de largura, posicionando o trator em segunda marcha do grupo 1, com uma rotação de motor de 2.200rpm, para estabelecer 540rpm na TDP. Esta operação de revolvimento deve ser feita lentamente, pois a condição é primordial para a qualidade do trabalho. No entanto, o tempo total da operação, nessa situação, deve consumir apenas 20 minutos, pois em seguida as vacas que foram levadas à ordenha estarão retornando e desejarão deitar na cama já revolvida. Portanto, ao passo que a lentidão é uma premissa para a qualidade do revolvimento, o tempo total da operação é restrito, obrigando o conjunto mecanizado ser eficiente nas manobras, a perda de tempo menor e a eficiência da operação, a melhor possível. 
Mas não é somente esta a exigência para que um trator possa ser recomendado para este trabalho. Além de requerer que o trator tenha excelente raio de giro, para facilitar a manobra de retorno e de acabamento, é ideal que ele seja silencioso, para evitar estresse ao rebanho que continua na instalação. Também é necessário que o projeto do trator tenha previsto comandos acessíveis e de fácil acionamento, como é o caso do reversor, que antes comentamos. Finalmente, para movimentar a massa da cama, que é bastante pesada, é necessário que o motor entregue potência e torque adequados para acionar o equipamento que homogeneíza a cama. Enfim, não é qualquer trator que pode atender a todos estes requisitos e possa ser recomendado para uma operação intensiva como esta.
A segunda parte do teste foi feita sobre uma área de silagem. Para a compactação do silo fizemos operação de vai e vem sobre a massa vegetal, aproveitando a funcionalidade do reversor. Testamos, nesta ocasião, o sistema de fixação da reação à reversão presente neste modelo, que se verificou bastante efetivo.
Ao final do teste, vimos que o trator se adaptou muito bem a estas exigências e deixou o produtor bastante empolgado para a aquisição deste modelo. 

Concessionário TratorSul
O concessionário TratorSul, que nos auxiliou na realização do test drive, é a revenda LS para a região dos Campos Gerais Paranaenses, que atende a vários municípios da região. Estivemos na loja matriz de Ponta Grossa, encontrando um prédio novo, com layout moderno e um visual bastante bonito e organizado. 
A loja nova, que tem quatro anos, conta com uma seção de serviços e peças bastante equipada, com atendimento em toda a região de abrangência. Além da excelente estrutura e apoio para este teste, a concessionária dispôs de um técnico, o Agnado Queiroz Naldo, que é consultor de Vendas da empresa e que conhecia bastante a região e o equipamento que estava sendo testado.
De parte da LS MTron Brasil tivemos o auxílio técnico de Astor Kilpp, que é diretor comercial da empresa e que está sempre próximo das atividades de conhecimento e aplicação das máquinas que a empresa comercializa.

Local do teste

O teste foi feito numa propriedade que trabalha com a técnica  Compost Barn

O local do nosso teste foi na propriedade rural da família Gerrit, na localidade de Santa Cruz, que é situada no município de Carambeí, quase na divisa com Ponta Grossa. A área que os proprietários chamam de chácara totaliza 60 hectares, mas que chega a 180 hectares contando a área de produção de alimento, onde se pratica uma atividade de pecuária leiteira intensiva, no sistema de Compost Barn. 
Fomos recebidos pela família do senhor Willen Kastelijn Gerrit, que administra a atividade junto com mais dez funcionários e membros da família, entre eles o seu pai, que é responsável pela produção da imensa quantidade de alimento que o gado consome. O módulo de Compost Barn que a família administra é formado de pavilhões cobertos de 110 metros de comprimento por 50 metros de largura, onde vivem e se alimentam 300 vacas leiteiras, a grande maioria da raça holandesa. Em anexo, há uma instalação com 14 ordenhadeiras, onde se revezam grupos pares de sete vacas.
A atividade é intensa o ano todo. Durante o dia são três turnos de trabalho para chegar a uma média de 30 litros de leite por vaca, por dia, em três ordenhas. Há muito conhecimento envolvido, para entregar o melhor produto, livre de impurezas e no teor correto de gordura. Nos explicaram que o teor de gordura é controlado com a presença de alguns indivíduos da raça Jersey, que fornece um leite mais gordo que o da raça holandesa. Na média, são oito mil litros de leite produzidos por mês na chácara da família.
O alimento oferecido é à base de ração, misturada com um triturado de milho silagem e feijão, disponibilizado em quantidade suficiente para exceder a demanda gerada pelos animais.
Na intensa rotina de trabalho são várias as atividades mecanizadas. Além do revolvimento da cama, em que trabalha o trator com a enxada rotativa, onde testamos o LS U60, identificamos várias outras operações. Um conjunto composto por um trator pequeno e um implemento específico faz a raspagem dos pisos ao redor da instalação, retirando resíduos animais, e quando da alimentação do gado, reposiciona a comida que foi afastada pelo animal, junto ao cocho. Também há um conjunto que usa um trator médio e um misturador que faz o trato dos animais, depositando uma faixa de alimento ao lado da instalação, em todo o seu comprimento. De outra parte, há um intenso trabalho de preparação do alimento com o corte, a ensilagem, a compactação e a desensilagem, em geral feita por tratores dotados de pás frontais. Vimos que na maioria das operações há a necessidade de reversão de movimento e que um trator equipado com um sistema ágil e preciso passa a ser fundamental.

O que é Compost Barn
O Compost Barn é uma técnica de confinamento de gado leiteiro, criada nos Estados Unidos na década de 1980, mas que somente agora está chegando ao Brasil. Embora recente no país, a sua adoção aumenta muito, com vários bons projetos sendo executados com sucesso, principalmente no estado do Paraná.
Tecnicamente é uma instalação formada por pavilhões cobertos, com área de descanso para os animais sobre um piso macio formado por uma cama. Esta cama é à base do próprio solo, e vai constantemente sendo adicionada pelas fezes e a urina dos animais e outros compostos, como raspas finas de madeira e serragem.
Esta cama, no entanto, para ser homogeneizada, precisa ser revolvida nos momentos em que o grupo de animais que ocupa esta área é direcionado para a ordenha. Em geral, este revolvimento é feito com equipamentos mecânicos, do tipo enxada rotativa, embora existam equipamentos especiais.
A alimentação dos animais se dá fora da área de descanso em áreas revestidas por concreto nas laterais do pavilhão.
O elevado pé direito e a cama dão o conforto aos animais, que ficam descansando e se alimentando, com saídas de duas a quatro vezes ao dia para a ordenha. Por todas estas razões, um projeto necessita ser bem feito, com uma boa ventilação, medidas de drenagem da umidade em excesso e posicionamento correto em relação à movimentação do sol durante o dia.


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José Fernando Schlosser

Laboratório de Agrotecnologia – NEMA – UFSM