Tomate manchado

No Brasil, a doença foi relatada na década de 1950 no Estado de São Paulo, e hoje se encontra disseminada em todas as regiões produtoras de tomate, seja ele estaqueado ou para processamento industrial.

A doença afeta somente as partes aéreas da planta: folhas, caule, flores e frutos. Os sintomas podem ocorrer durante todas as fases de desenvolvimento da lavoura, podendo tornar as mudas imprestáveis quando estas são afetadas em sementeira. O mais comum, entretanto, é a manifestação da doença a partir do florescimento das plantas. Em tomateiro para processamento industrial, o porte rasteiro dos cultivares plantados e o tipo de irrigação comumente empregado (aspersão convencional, pivô-central) propiciam um ambiente úmido no interior do dossel de plantas adultas, que favorece sobremaneira a manifestação da doença.

A mancha-bacteriana é observada inicialmente nas folhas mais velhas, onde aparecem lesões marrom-escuras, irregulares e encharcadas, evoluindo para lesões maiores, com ou sem um estreito halo amarelo. O coalescimento das lesões causa necrose, mais concentrada nas bordas das folhas que, mesmo sob intenso ataque, permanecem aderidas à planta, conferindo a ela um aspecto de “queima”. Na fase inicial de desenvolvimento dos sintomas, a mancha-bacteriana pode ser confundida com outras doenças fúngicas e bacterianas, como a pinta-preta (Alternaria solani) e a pinta-bacteriana (Pseudomonas syringae pv. tomato), respectivamente.

Disseminação da doença

Inspeções cuidadosas das lavouras desde o início do estabelecimento indicam que, na maioria das vezes, a epidemia se inicia em plantas isoladas, o que sugere uma transmissão por sementes e/ou mudas contaminadas. A doença então se espalha, formando reboleiras, mais rapidamente quanto mais favorável for a condição de disseminação do patógeno. As reboleiras passam a não ser perceptíveis à medida que ocorre disseminação secundária dentro do mesmo campo.

No caule das plantas afetadas, aparecem pequenas pintas marrons, que raramente comprometem a produção. Já o ataque nos pedúnculos florais resulta em abortamento de frutos, com conseqüente redução de produtividade. Os frutos em crescimento são mais sujeitos à infecção, pois ainda possuem pêlos que, quando quebrados pela ação e pela abrasão provocada por ventos proporcionam o principal sítio de entrada da bactéria. Nos frutos, as lesões iniciais da mancha-bacteriana são pequenas e esbranquiçadas, mas logo evoluem para manchas grandes, marrons, corticosas e com as bordas elevadas, em forma de crateras.

As perdas causadas pela mancha-bacteriana em tomateiro podem ser resultado direto ou indireto dos sintomas provocados. No primeiro caso, a produção é afetada pela redução da área foliar fotossintetizante, pela queda prematura de flores e frutos, e pela redução da qualidade dos frutos que apresentem sintomas. No segundo caso, a eliminação parcial, ou total da folhagem podem expor os frutos à queima pelo sol, com depreciação de sua qualidade.

Outras conseqüências da doença são relacionadas a fatores que podem afetar o custo da produção, tais como: 1. custo de reposição de sementes e mudas infectadas, 2. custos de agrotóxicos e de sua aplicação visando conter a doença, 3. redução da área plantada em virtude de insucessos de controle em anos anteriores, 4. escolha de cultivares menos produtivas ou de menor valor comercial em favor de cultivares mais resistentes, 5. plantio de espécies menos compensadoras comercialmente em rotação com o tomateiro visando à redução/eliminação da bactéria presente em restos culturais e 6. eliminação de plantas voluntárias.

A mancha-bacteriana do tomateiro foi por muito tempo considerada uma doença causada pela bactéria Xanthomonas campestris pv. vesicatoria (Xcv), que podia atacar tomateiro e/ou pimentão e pimentas do gênero Capsicum. Entretanto, sua grande variabilidade fenotípica e genotípica permitiu a distinção de grupos, hoje denominados A, B, C e D. Evidências genéticas levaram à reclassificação taxonômica de várias espécies do gênero Xanthomonas, incluindo a subdivisão de Xcv nas espécies X. axonopodis pv. vesicatoria (grupos A e C) e X. vesicatoria (grupo B). O grupo D, por sua vez, consiste de uma terceira espécie, X. gardneri, identificada inicialmente na antiga Iugoslávia em 1957 e cuja taxonomia se encontra em estudo. A “mancha-bacteriana” é, portanto, um exemplo raro de uma doença de plantas causada por três patógenos, cuja identificação correta requer testes laboratoriais sofisticados. Deste modo, para fins de simplificação, o patógeno causador da mancha-bacteriana será referido, neste artigo como Xanthomonas campestris pv. vesicatoria (Xcv).

Desenvolvimento da doença

A bactéria Xcv não sobrevive por muito tempo em solo, permanecendo viável somente enquanto restos de cultura misturados a ele (folhas, caule, frutos) não são decompostos. Importante papel na sobrevivência da bactéria dentro do campo é atribuído às plantas voluntárias (resteva ou tigüera) infectadas, que podem servir como fonte de inóculo para lavoura do ano seguinte, caso não sejam realizadas operações de limpeza entre os cultivos. Sementes e mudas de tomate contaminadas representam um importante meio de introdução do patógeno em novas áreas de cultivo, bem como para o aumento da diversidade genética da bactéria no local.

A bactéria penetra na planta através de aberturas naturais, principalmente estômatos, e de ferimentos mecânicos ou provocados por insetos e por abrasão provocada por contato entre órgãos das plantas ou por partículas de solo movimentadas pelo vento, que quebram os pêlos das folhas e frutos. A doença se manifesta aproximadamente uma semana após a infecção e se desenvolve mais rapidamente em temperaturas altas, acima de 25 °C, espalhando-se rapidamente em chuvas ou irrigação por aspersão que ocorrem em dias quentes ou em períodos de alta umidade do ar.

Controle do patógeno

Para a mancha-bacteriana, bem como para outras bacterioses do tomateiro, o controle é muito difícil e requer uma rigorosa observância de práticas culturais e medidas de sanitação que evitem a infecção e a posterior colonização dos tecidos da planta. Essas medidas são importantes porque a população bacteriana atinge altos valores antes da manifestação dos sintomas, situação em que a eficiência do controle passa a ser incerta, principalmente pelo uso de produtos químicos. Neste caso, o melhor que se pode conseguir é reduzir a velocidade da epidemia, e não paralisá-la.

Dentre as medidas culturais a serem observadas, destacam-se:

1. Eliminar os restos culturais imediatamente após a colheita, incorporando-os com aração profunda para acelerar sua decomposição;

2. Fazer rotação de culturas por dois anos com espécies não hospedeiras, de preferência com gramíneas. É importante que não sejam deixadas plantas voluntárias no campo ou em sua vizinhança durante o período de rotação, pois estas manteriam o patógeno viável para o início de novas epidemias;

3. A irrigação por gotejamento ou por sulcos é recomendada porque não provoca molhamento das folhas, condição essencial para o estabelecimento da infecção bacteriana. No caso de a irrigação ser por aspersão, esta deve ser feita no período da manhã, sem excesso de água, para permitir que as folhas sequem antes do anoitecer, que é o período em que a umidade é mais alta;

4. Para conter a transmissão do patógeno entre plantas, práticas culturais tais como desbastes, desbrotas e amarrios devem ser feitos quando a superfície da planta estiver bem seca. Práticas que causarem ferimentos às plantas devem ser seguidas de pulverização à base de cobre, que tem a finalidade de proteger os ferimentos;

5. Em cultivos protegidos, a estufa deve ser bem ventilada e o plantio pouco adensado, de modo a facilitar o secamento das folhas por correntes de ar;

6. Sementes e mudas devem ser adquiridos de firmas idôneas. Lotes com suspeita de contaminação podem ser submetidos à termoterapia (50 oC por 20 min.), mas a eficiência do tratamento é variável. A produção de mudas deve ser feita em local distante de plantios comerciais, protegido de insetos, em substrato estéril e água não contaminada. Bandejas, principalmente aquelas que são transportadas para o campo, devem ser esterilizadas com hipoclorito de sódio (água sanitária) e substituídas quando muito sujas ou quebradas;

7. Lavouras conduzidas em regiões propensas ao ataque da mancha-bacteriana, como as de locais quentes e sujeitos à formação de orvalho, devem ser pulverizadas preventivamente com fungicidas cúpricos ou com antibióticos. No caso de fungicidas cúpricos, o cobre que ficará disponível na solução pode ser aumentado quando se faz a mistura em partes iguais com fungicidas à base de maneb ou mancozeb. Já os antibióticos (os registrados são à base de estreptomicina e/ou tetraciclina) não devem ser usados com muita freqüência ou em infecções já estabelecidas, pois isto facilitaria a seleção de populações bacterianas resistentes a esses produtos, para as quais as aplicações subseqüentes seriam ineficientes. A eficiência do controle químico é variável, sendo baixa sob condições favoráveis ao desenvolvimento da doença. Embora alto nível de resistência não esteja disponível em cultivares e híbridos comerciais, existem genótipos com boa resistência de campo, tais como ‘Agrocica 30’ e ‘Agrocica 45’.

Carlos A. Lopes e Alice M. Quezado-Duval
Embrapa Hortaliças

* Este artigo foi publicado na edição número 9 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de agosto-setembro de 2001. ver mais artigos
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