Tratamento de semente e inoculação em soja: Compatibilidade possível

Tratamento de semente e inoculação são duas ferramentas importantes para que se alcance bons resultados na cultura da soja. Tornar ambos compatíveis, com baixa toxicidade aos rizóbios e sem afetar a eficácia da fixação biológica de nitrogênio, é um grande desafio

A soja é a cultura anual, produtora de grãos, de maior relevância no agronegócio brasileiro. A maximização de rendimento requer considerável quantidade de nitrogênio, que se destaca como um dos componentes mais críticos do processo de produção desta cultura. A cada 1.000 kg/ha de grãos produzidos a soja demanda 80 kg/ha de nitrogênio.

Esta quantidade de nitrogênio pode ser suprida através de diferentes fontes. A principal e mais econômica é a fixação biológica de nitrogênio da atmosfera, que ocorre através de processo simbiótico que se estabelece entre a planta de soja e a bactéria do gênero Bradyrhizobium. Este fascinante processo simbiótico já provou ser capaz de oferecer nitrogênio à cultura de soja em suficiência para assegurar rendimento de grãos da ordem de 8.000 kg/ha. De outra forma, a simbiose que se estabelece entre a planta de soja e o Bradyrhizobium pode fixar 640 kg/ha de nitrogênio, o que equivale a 1.420 kg/ha de ureia.

Para suprir a demanda de nitrogênio da cultura de soja, na condição de solo deficiente em nitrogênio e sem comprometer o custo de produção, faz-se necessária a inoculação das sementes ou do solo com bactérias fixadoras de nitrogênio, ou seja, com estirpes específicas de Bradyrhizobium. O sucesso desta tecnologia depende da eficácia da simbiose estabelecida entre a planta de soja e a bactéria, que resulta, dentre outros fatores, de inoculantes de elevada qualidade e de precisão e de eficiência no processo de inoculação.

A pesquisa e a indústria, objetivando elevar o desempenho da cultura da soja mediante a eficácia da fixação biológica de nitrogênio, têm gerado e colocado no mercado tecnologias de produto que partem do melhoramento genético das plantas até a seleção de estirpes eficientes e competitivas, bem como, tecnologias de processo pertinentes aos procedimentos de inoculação. A ação conjugada destas tecnologias tem mostrado aumentos consideráveis no rendimento de grãos de soja, dispensando, completamente, o uso de adubos nitrogenados oriundos de qualquer outra fonte.

A partir da escolha da variedade de soja a ser cultivada, um complexo de medidas sistêmicas e sincronizadas são requeridas para que a cultura expresse todo o seu potencial genético. Entre estas medidas, a escolha do inoculante assume relevância, conjuntamente ao cuidado com a qualidade da semente, o manejo de solo, os tratos culturais, o manejo integrado de pragas etc.

Vários são os fatores que promovem estresse às células bacterianas inoculadas nas sementes ou no solo. Condições como o excesso de umidade e de acidez do solo, déficit hídrico, deficiência de nutrientes, teores elevados de nitrogênio no solo, estresse decorrente de fatores bióticos como, por exemplo, doenças incitadas por fungos, bactérias e vírus etc., inibem o processo de formação de nódulos e, consequentemente, a fixação biológica de nitrogênio.

Dentre as propriedades desejadas no inoculante, destaca-se a qualidade do suporte ou do substrato empregado para veicular as células de rizóbios, que influencia diretamente na qualidade técnica do inoculante. Esta propriedade é fundamental, pois é a responsável pela manutenção da concentração de células viáveis de rizóbio no inoculante ao longo do período de armazenamento e inclusive após a sua aplicação nas sementes ou no solo. Em adição, é imprescindível que o inoculante seja de fácil manipulação e aplicação às sementes ou ao solo, apresente preço acessível e detenha os padrões técnicos requeridos pela legislação vigente no país. Outra propriedade requerida nos inoculantes é que o suporte ou o substrato empregado proporcione proteção às células bacterianas quando colocadas em contato com produtos fitossanitário ou com outros produtos que possam afetar a sobrevivência dos rizóbios, por ocasião do tratamento de sementes.

Modernos conceitos de manejo e controle de pragas têm sido empregados no sentido de minimizar os efeitos deletérios dos produtos fitossanitários ao ambiente e principalmente ao homem. O tratamento de sementes com produtos fitossanitários como fungicidas, inseticidas e nematicidas, tanto de natureza química como biológica, constitui método eficiente para o controle de certas pragas. Contudo, a influência destes agroquímicos na sobrevivência dos rizóbios, quando se processa concomitantemente o tratamento fitossanitário das sementes e a inoculação das sementes, é muito variada. Especial atenção deve ser dada ao chamado “pré-tratamento de sementes” ou “tratamento industrial de sementes”, atualmente em uso, que envolve a inoculação de sementes associada ao tratamento fitossanitário das sementes com fungicidas, inseticidas, nematicidas, micronutrientes e protetores celulares, pois pode representar risco de morte dos rizóbios, inibindo ou reduzindo a nodulação e, em decorrência tornando ineficaz a fixação biológica de nitrogênio.

Há comprovações técnico-científicas de que o uso, isolado ou combinado, de alguns fungicidas, inseticidas e nematicidas no tratamento de sementes associado à inoculação, proporciona a morte de até 100% das células bacterianas, em apenas duas a três horas após a aplicação. Entretanto, outros produtos fitossanitários apresentam baixa toxicidade aos rizóbios, não afetando a eficácia da fixação biológica de nitrogênio.

Pesquisa recente demonstrou que os princípios ativos Fludioxonil 25 g/L + Metalaxil-M 10 g/L e Carboxamida 980 g/kg, de ação fungicida, Abamectina 500 g/L, de ação inseticida e nematicida, e Thiamethoxam 350 g/L, de ação inseticida, três horas após os tratamentos das sementes, associando-os à inoculação, não afetaram a sobrevivência dos rizóbios. Contudo, aos 15 dias após estes tratamentos de semente, todos estes princípios ativos mais o Carbendazim 150 g/L + Thiram 350 g/L, de ação fungicida, e o Fipronil 250 g/L, de ação inseticida, reduziram a concentração de células viáveis de rizóbios abaixo do padrão mínimo requerido pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa). Aos 35 dias após os tratamentos, os princípios ativos Carboxamida 980 g/kg, Carbendazim 150 g/L + Thiram 350 g/L e Fludioxonil 25 g/L + Metalaxil-M 10 g/L, de ação fungicida, e Abamectina 500 g/L, de ação inseticida e nematicida, eliminaram completamente as células viáveis de rizóbios sobre as sementes.

O cobalto (Co) e o molibdênio (Mo) são micronutrientes indispensáveis para a eficácia da fixação biológica de nitrogênio. Estes micronutrientes podem afetar expressivamente a formação de nódulos de Bradyrhizobium no sistema radicular da planta de soja.

Concluindo, ressalta-se que, grande parte da população de rizóbio sobrevivente de uma safra para outra no solo perde a capacidade de estabelecer simbiose com as plantas de soja e, em decorrência, de fixar eficientemente o nitrogênio atmosférico, fato que compromete o rendimento da cultura. As estirpes utilizadas nos inoculantes competem com aquelas “naturalizadas” no solo, pois, por estarem junto às sementes, no momento da emissão das primeiras raízes, multiplicam-se devido aos estímulos produzidos pelas raízes, elevando a produção de substâncias responsáveis pela efetivação da simbiose. Assim, a reinoculação com inoculante de qualidade se faz necessária, a cada safra, garantido eficiente nodulação e fixação biológica de nitrogênio.


Norimar D'Avila Denardin, Professora/pesquisadora da Faculdade de Agronomia e Medicina veterinária (FAMV), Universidade de Passo Fundo (UPF)


Artigo publicado em dezembro de 2014, na edição 187 da Cultivar Grandes Culturas. 

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