Tratamento de sementes para combater o nematoide na cultura da soja

A soja é a mais importante oleaginosa cultivada no mundo. No entanto, para atingir altos índices produtivos é necessário o manejo correto de uma série de pragas e doenças que afetam a cultura. Dentre as doenças, os nematoides têm sido considerados grandes vilões na redução de produtividade da soja, nas áreas onde estão presentes.

Mais de 100 espécies de nematoides envolvendo aproximadamente 50 gêneros estão associadas à cultura da soja. No Brasil, os nematoides que causam maiores danos à cultura são: o nematoide das galhas (Meloidogyne javanica e Meloidogyne incognita), o nematoide de cisto da soja (Heterodera glycines), o nematoide das lesões radiculares (Pratylenchus brachyurus) e o nematoide reniforme (Rotylenchulus reniformis).

Os sintomas relacionados ao ataque desses fitoparasitas se assemelham muito. Em áreas com a presença do nematoide é comum encontrar reboleiras, com plantas atrofiadas e cloróticas, e a redução da produtividade da cultura é inevitável, já que eles parasitam o sistema radicular da soja, dificultando a absorção de água e nutrientes. Em casos de populações muito elevadas pode ocorrer a morte das plantas.

Dependendo da espécie presente na área, alguns sintomas adicionais podem ser observados. Para as espécies do gênero Meloidogyne, é comum a presença de galhas no sistema radicular da soja. Em áreas com a presença de nematoide de cisto, o sistema radicular e a nodulação são reduzidos e é possível observar a presença de fêmeas, de coloração amarelada, nas raízes. As plantas parasitadas pelo nematoide das lesões radiculares possuem lesões escuras em suas raízes, sendo comum a associação desse nematoide com fungos de solo, como os do gênero Fusarium. Já em áreas com a presença do nematoide reniforme, os sintomas diferem um pouco dos já apontados, não havendo a presença de reboleiras e sendo possível observar uma camada de terra aderida às massas de ovos do nematoide, que são produzidas externamente, nas raízes.

O primeiro passo para manejar essa doença é a correta identificação da espécie de nematoide presente na área. De posse dessa informação, várias táticas de manejo devem ser empregadas com o intuito de manter os níveis populacionais dos nematoides o mais baixo possíveis. Dentre as alternativas de manejo, a rotação/sucessão de culturas, o manejo de solo, a adubação verde e a resistência genética têm sido as técnicas mais difundidas e empregadas pelos agricultores.

Cada espécie exige uma atenção diferenciada no tocante às técnicas de manejo empregadas. A rotação/sucessão com culturas não hospedeiras deve ser adotada no manejo de todas as espécies de nematoide e para algumas espécies (H. glycines, M. incognita, M. javanica e R. reniformis) existem cultivares de soja resistentes. No entanto, o uso da resistência genética nunca deve ser empregado de forma isolada para evitar-se a seleção de indivíduos capazes de parasitar as cultivares resistentes. Esse fato é muito comum para o nematoide de cisto da soja que, por possuir uma grande variabilidade genética, o surgimento de novas raças pode ocorrer em função do mau manejo decultivares resistentes.

Com o objetivo de aumentar a eficiência do controle dos nematoides em áreas infestadas e diminuir a pressão de seleção tem-se buscado medidas alternativas de controle. A utilização de nematicidas aplicados no solo na cultura da soja mostra-se bastante limitada devido a problemas toxicológicos de contaminação do ambiente e ao alto custo do tratamento.

Na busca por diminuir os impactos ambientais inerentes à aplicação de agroquímicos e o custo do tratamento tem-se utilizado o tratamento de sementes como alternativa adicional ao manejo de nematoides na cultura da soja. Com isso, reduzem-se os custos e o impacto ambiental, já que a quantidade de produto utilizado é reduzida e o tratamento de sementes permite uma aplicação mais segura do produto químico.

O tratamento de sementes tem o objetivo de suprimir os nematoides durante as primeiras semanas após a semeadura, diminuindo a penetração, protegendo as plântulas e permitindo um desenvolvimento adequado do sistema radicular. As plantas que conseguem ter um desenvolvimento inicial vigoroso de suas raízes têm a capacidade de resistir melhor ao ataque dos nematoides.

Dentre os princípios ativos empregados no manejo de nematoides, via tratamento de sementes, destacam-se os à base de abamectina e de tiodicarbe. Esses produtos têm sido empregados em várias dosagens e geralmente associados ao tratamento com fungicidas e/ou inseticidas (Tabela 1).

Tabela 1 - Produtos químicos registrados para o manejo de nematoides na cultura da soja via tratamento de sementes

Ingrediente Ativo

Produto Comercial

Dose recomendada

(mL/100kg sementes)

Nematoides controlados

Abamectina

100 a 125

P. brachyurus

M. incognita

Imidacloprido + Tiodicarbe

500 a 700

P. brachyurus

M. javanica

Fonte: http://agrofit.agricultura.gov.br/

Esses produtos químicos têm como principal objetivo a redução da penetração do nematoide nas raízes da soja e consequentemente a redução do parasitismo. Em pesquisas conduzidas a campo e em casa de vegetação, pelo Laboratório de Nematologia do IF Goiano, Campus Urutaí, foram observadas reduções na penetração e no parasitismo dos nematoides M. incognita, P. brachyurus e H. glycines, quando as sementes de soja foram tratadas com produtos químicos à base de abamectina e imidacloprido + tiodicarbe. Esses resultados são mais visíveis até os primeiros 30 dias de vida da cultura, coincidindo com o período residual dos produtos. À medida que as plantas se desenvolvem, as diferenças no parasitismo se tornam imperceptíveis.

A proteção inicial conferida pelos nematicidas, aplicados via tratamento de sementes, muitas vezes pode ser percebida na produtividade da cultura da soja. Isso se deve ao fato das plantas apresentarem bom estabelecimento inicial, sistemas radiculares mais vigorosos e, consequentemente, uma maior tolerância ao ataque dos nematoides. No entanto, é importante salientar que como o efeito residual do produto é de aproximadamente 30 dias, o tratamento de sementes nunca deve ser utilizado de forma isolada no manejo de nematoides, uma vez que superado esse período, os níveis populacionais do nematoide retomam o seu crescimento, chegando a atingir valores superiores aos encontrados antes do plantio.

Na tentativa de aumentar a eficiência no manejo de nematoides, via tratamento de sementes, tem-se buscado a associação de produtos químicos com agentes de controle biológicos. Destacam-se os fungos do gêneros Paecilomyces e Arthrobotrys e algumas bactérias. Os dois fungos são bastante difundidos e atuam sobre juvenis e ovos dos nematoides, respectivamente. Já a utilização das bactérias tem como base a modificação da rizosfera, o que afeta direta ou indiretamente estes parasitas. A relevância dessas bactérias para o controle de nematoides é maior quando possuem a capacidade de colonizar o interior das plantas, podendo agir sobre os nematoides antes e depois da penetração dos vegetais.

No Brasil, já é possível encontrar produtos à base do fungo Paecilomyces lilacinus, registrados para outras culturas, e que tem sido testado, juntamente com produtos à base das bactérias do gênero Pasteuria e Bacillus, para a cultura da soja. É interessante ressaltar que esses testes têm sido feitos com os agentes de controle biológico isolados e em mistura com os produtos químicos já registrados para tratamento de sementes no manejo de nematoides.

A utilização conjunta dos produtos químicos e dos agentes de controle biológico é bastante interessante por possibilitar o aumento da eficiência no controle dos nematoides. Os produtos químicos reduziriam principalmente a penetração dos nematoides e os agentes de controle biológico atuariam no parasitismo de ovos, juvenis ou mesmo de adultos. Porém, fica o alerta que como essas pesquisas ainda estão em fases iniciais e o tratamento de semente somente com produtos químicos não tem um longo período residual, essas formas de manejo nunca devem ser a única opção para o controle de nematoides na cultura da soja.


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Fernando Godinho de Araújo

IF Goiano – Campus Urutaí

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