Tratores na produção de uvas para vinhos finos

A produção de vinhos finos de alto padrão exige cuidados rigorosos desde a escolha da terra até o armazenamento final do produto. Neste contexto, avaliamos como a mecanização e os tratores estão inseridos neste cenário dentro da Vinícola Miolo, uma das mais conceituadas e premiadas do Brasil

Como tem sido comum nas últimas edições, as Revistas Cultivar Máquinas e Cultivar Hortaliças e Frutas apresentam mais um teste de campo com uma máquina agrícola, inserida em um sistema de produção. E não é qualquer sistema, trata-se da viticultura de alto padrão, para produção de uvas para vinhos finos de uma das vinícolas mais conceituadas e premiadas do Brasil, a Vinícola Miolo.

Para conhecer a aplicação dos tratores LS no sistema de produção de uva vinífera, a equipe deslocou-se para a região da Campanha gaúcha ou Pampa gaúcho, no Sudeste rio-grandense, especificamente para a cidade de Candiota, próxima a Bagé. 

A cidade é tradicionalmente conhecida por ser o berço da Batalha do Seival, em que estiveram envolvidos o exército farroupilha e o exército imperial, em 1836, decorrendo desta a proclamação da República Farroupilha.

A região é referência regional na produção de energia à base do carvão e da produção de cimento. No entanto, as atividades agrícolas, entre elas a viticultura, passaram a ter importância, pela presença na região de diversas empresas e produção de uvas finas e de vinho.

Especificamente a empresa visitada e na qual apreciamos o trabalho do trator LS R60 cabinado foi a Miolo Seival, tradicional produtora de vinhos finos, que encontram-se entre os melhores do país.

Sistema de Produção

O sistema de produção de uvas na empresa e na região é o plantio em espaldeira. Neste sistema, diferente do sistema de latada, utilizado tradicionalmente na região da Serra gaúcha, o dossel de plantas se estabelece e se desenvolve verticalmente, sustentado e conduzido por meio de um alambrado formado por postes e fios de arame. As grandes vantagens do sistema são a qualidade da aeração, insolação e a possibilidade de mecanização de quase todas as etapas do desenvolvimento. Na Vinícola Miolo Seival, o espaçamento tradicional utilizado é de 3m entre linhas e 1,2m entre plantas, com palanques de sustentação a cada seis metros. 

Os mais de 200 hectares da região da Campanha são completamente mecanizados

No entanto, nos últimos anos as novas áreas passaram a utilizar o espaçamento de 2,2m x 1,20m, possibilitando melhor aproveitamento da área, com o que se passou de 3.300 metros lineares de plantas para 4.700 metros lineares nas novas implantações. Os palanques têm 1,80m acima do solo e quatro arames com diferentes alturas para a condução das parreiras de acordo com a necessidade de cada variedade. Com a redução do espaço entre filas de plantas e a crescente mecanização, obriga-se o uso de tratores especiais, com reduzidas bitolas dos rodados.

No momento em que estivemos realizando o teste, a empresa estava na época de mais intenso trabalho, o que se prolonga até a colheita. Os picos de trabalho se estabelecem em extremos, pois na dormência, quando há menos intensidade de trabalho, são consumidos apenas os trabalhos de quatro ou cinco tratores e não há necessidade de contratar-se mão de obra suplementar. No entanto, na fase vegetativa, o ciclo consome o trabalho de 13 tratores, e além da mão de obra permanente necessita-se contratar pessoal da região, para auxiliar no intenso trabalho.

As principais e mais frequentes operações mecanizadas para a produção são as roçadas, a aplicação de herbicidas e a de produtos de proteção às plantas. A roçada é feita na entre linha e depois complementada com a aplicação de herbicida na região da linha, com o que o solo fica coberto por material orgânico, mas bastante limpo. Como é de amplo conhecimento, na videira os fungicidas são vitais para evitar a proliferação de fungos que reduzem a produção e depreciam os frutos. Os fungos são específicos para cada época e, no momento da nossa visita, a preocupação era a antracnose e na primavera/verão o problema é o míldio.

Outra atividade importante é a poda, que é realizada no outono, iniciando em maio e o restante do inverno, com o objetivo de deixar de dois a três ramos por planta, consumindo até 15 pessoas só para esta etapa.

Uma das principais atividades com o uso de tratores é a aplicação de defensivos que ocorre semanalmente

A colheita se inicia na segunda semana de janeiro com as variedades mais precoces, principalmente destinadas aos vinhos espumantes. As variedades mais tardias são colhidas a partir de 15 de março, destinadas aos vinhos de guarda. A operação de colheita é feita de forma mecanizada desde 2014, quando foi adquirida uma máquina importada da Europa. Atualmente, representa entre 60% e 85% de toda a produção, enquanto que a colheita manual representa entre 15% e 40%. Estas variações de porcentagem resultam da análise feita antes da safra e das exigências de vinificação, pois o resultado do tipo de colheita sobre o material é totalmente diferente. Na colheita manual, o produto vai da caixa para o reboque transportador, em grãos com os cachos, enquanto que na mecanizada, a máquina colhe diretamente os grãos. O reboque, também denominado gôndola, é um depósito de aço inoxidável sobre rodas que foi projetado pela própria empresa e leva o produto da área de produção até o pavilhão da fase industrial.

A produção de uvas neste sistema exige equipamentos específicos, tradicionalmente comercializados por empresas especializadas, em geral do exterior. Mas também é comum ter a necessidade de se fazer adaptações sobre equipamentos comerciais nacionais. Um exemplo de equipamento adquirido do exterior é o pulverizador agrícola turbo-atomizador, marca Rocha, modelo Mittos RB Interfilar, fabricado em Portugal. É um pulverizador que faz aplicação direcionada, atingindo ao mesmo tempo quatro faces da espaldeira, com um depósito de produto de dois mil litros e uma turbina para transportar as gotas. Necessita de um trator de no mínimo 75cv de potência no motor para o transporte e acionamento.

Uma das operações que mais demandam potência no sistema adotado é a despontadeira, que consiste em cortar o ápice dos galhos que sobressaem da espaldeira, a 2,10m. Esta operação é a que exige a maior potência de trator e também considerada a mais perigosa, necessitando proteção e cuidados especiais.

Atividades em que o R60 está envolvido

O trator LS R60 foi adquirido pela Miolo no ano de 2016, após um período de três meses de demonstração. Tanto os técnicos da Miolo como da concessionária da LS na região consideram o sistema de aquisição da Vinícola bem complexo e criterioso. Não é muito fácil a aquisição, pois vários fatores são levados em conta. 

A manutenção nos parreirais é feita constantemente, mesmo no período de dormência das videiras

Em geral, o sistema adotado pela vinícola é bastante exigente em potência, sendo a maioria das operações desenvolvida com equipamentos grandes, que exigem bastante potência de motor. Como há uma alternância entre operadores, nas diferentes máquinas e atividades, é importante que o trator tenha comandos simples e de fácil operação.

Por isso, o LS R60 encontrou seu espaço entre as operações de baixa e média potência, para trabalhar com os implementos menores, como a aplicação com o pulverizador atomizador, que é um Arbus, da Jacto, adaptado, a adubação a lanço, o transporte de insumos, a roçada e a tração da gôndola. Vários implementos utilizados exigem potência acima dos 75cv a 80cv de motor, como o pulverizador agrícola turbo-atomizador, enquanto que outros demandam mais de 100cv, como os tanques grandes e a despontadeira.

No teste que fizemos, o LS foi colocado no pulverizador atomizador de 400 litros e na roçadeira MEC-RUL RDMR 18E60. O pulverizador atomizador da Jacto, modelo Arbus, é muito eficiente e trabalha com facilidade, manobrando o equipamento entre as fileiras e aplicando os produtos eficazmente. Na roçadeira MEC-RUL, que tem 1,98m de largura total e 1,80m de largura útil, com aproximadamente 490kg de massa, o consumo de potência estava no limite, pois o fabricante estima um requerimento entre 60cv e 80cv de motor do trator. Mesmo assim, tanto os técnicos como o operador estão bastante satisfeitos com o trabalho do R60 nestas condições limites.

A manutenção nos parreirais é feita constantemente, mesmo no período de dormência das videiras

Como a empresa faz controle operacional, o consumo de combustível é medido constantemente, tendo resultado em valores que vão de 3,5 litros por hora para aquelas operações leves, como as aplicações de produtos químicos com o pulverizador, até sete litros por hora para as operações pesadas, como a roçada.

O ponto alto na avaliação da empresa é com respeito à ergonomia do trator, com elogios para a cabine e o conforto do posto do condutor e também para a estrutura do trator e suas dimensões, que são adequadas para facilitar as manobras e a operação. Quanto ao nível de manutenção e conservação, a empresa avalia como positivo e ressalta que os operadores são orientados a tomar cuidados especiais, principalmente para evitar situações de utilização no limite da capacidade.

O operador de máquinas Marcos Azambuja, que trabalha há 17 anos na empresa, já atuou com diversos tratores de diferentes marcas. Na sua opinião, o trator é muito bom, ressaltando que, naquelas ocasiões em que é utilizado em condições mais exigentes, o motor não apanha. No mais, elogiou o conforto do trator e que tem o hábito de trabalhar com o rádio e o condicionador de ar ligados e que o ambiente da cabine é muito agradável. Os acessos de entrada e saída do trator, a seu ver, também são muito bem projetados. Elogiou o espaço interno da cabine e a distância entre eixos, pois sendo curto, ele é muito bom para as manobras. 

R60 para R65

O trator R60 cabinado que está trabalhando na Vinícola Miolo foi substituído na linha de produtos da LS em 2019, pelo modelo R65 cabinado. As diferenças entre o modelo R60 que chegou ao Brasil e iniciou a comercialização com este que está sendo oferecido pela marca atualmente são relacionadas substancialmente à motorização. O modelo anterior utilizava um motor LS, modelo S4QT de quatro cilindros e 2.505cm3, que proporcionava 57cv a 2.600rpm de potência e 170Nm de torque a 1.500rpm. O novo motor LS, modelo L4AL-T1 turbo, igualmente de quatro cilindros, 2.621cm3 e 16 válvulas, proporciona potência de 65cv (Norma ISO) a 2.600rpm e 203Nm de torque a 1.600rpm, com tecnologia de controle de emissões que atende a norma Tier 3. 

O raio de giro é uma característica importante para agilizar as entradas e saídas das linhas

A transmissão de potência continua a mesma, com até 32 marchas à frente usando creeper e o reversor Sinchro Shuttle, que possibilita a inversão do movimento para frente e para trás apenas com um movimento nesta alavanca e com o auxílio da embreagem. 

Para o controle da direção do trator, o fabricante equipou o trator com um sistema hidrostático, que proporciona bastante suavidade neste comando. O eixo dianteiro motriz tem acionamento mecânico e bloqueio do diferencial dianteiro automático do tipo autoblocante. 

A tomada de potência (TDP) é do tipo independente, oferecendo três velocidades angulares, 540, 750 e 1.000 rpm, que se pode trocar de forma eletro-hidráulica. O caráter inovador é que a velocidade de 750rpm, que não é comum aos modelos de outras marcas, pode servir como TDP econômica, naqueles casos em que é possível trabalhar com 540rpm e regime de rotação reduzida no motor do trator, economizando combustível quando se está trabalhando com pouca exigência de potência, como é o caso dos pulverizadores agrícolas, por exemplo.

O sistema hidráulico foi melhorado e passou da categoria I para a II, com aumento da vazão de 31 para 62 litros por minuto e a pressão máxima continua em 167kPa. A capacidade de levantamento no sistema de três pontos pode chegar opcionalmente até 2.100kgf na rótula. O controle remoto é independente, com duas válvulas de controle remoto na versão standard e três como opcional, com vazão máxima de 31,2 litros/minuto.

O conforto na operação é garantido pela cabine montada pelo próprio fabricante e que em uma avaliação visual mostra uma grande área envidraçada e um condicionador de ar bastante efetivo. Também são características positivas o projeto das entradas e saídas da cabine nos dois lados, as escadas de acesso bem dimensionadas e um arco de proteção contra o capotamento, inserido dentro da estrutura da cabine. 

Ainda que o fabricante ofereça outras opções de rodados, o modelo que testamos na Vinícola Miolo estava equipado com uma combinação das medidas de pneus 380/85R24 no eixo traseiro e 250/80-18 no eixo dianteiro.

O R65, assim como outros modelos das séries R e U, tem sido muito bem aceito pelo mercado de pequenos produtores, de horticultura e fruticultura, por suas características de versatilidade. Em geral, estes produtores necessitam de tratores com boa especificação tecnológica, que sejam adequados a várias operações, mas devido à redução de espaço, ofereçam facilidade nas manobras e pelo uso diário intenso, ofereçam conforto e segurança. A distância entre eixos deste trator é de apenas 1.858mm.

Ainda que o trator que testamos e verificamos o seu funcionamento e aplicação na viticultura não estivesse munido com os equipamentos de Tecnologia LS Tech, composto por um sistema de telemetria e outro de proteção do motor, é importante mencionar esses itens pelo seu crescente interesse e estão à disposição dos clientes da marca. 

Para a realização da reportagem, tivemos apoio da concessionária LS Casa do Produtor e equipe da Vinícola Miolo

Vinícola Miolo Seival

A Miolo Wine Group tem no total quase mil hectares de uva plantada para a produção de vinhos, sendo a unidade da Vinícola Almadén, em Santana do Livramento, a maior do Brasil, com aproximadamente 450 hectares. A unidade da Vinícola Miolo, no Vale dos Vinhedos, na Serra gaúcha, é principalmente uma unidade de enoturismo. A Vinícola Terranova, em Casanova, no Vale do São Francisco, na Bahia, possui aproximadamente 150 hectares e a unidade que visitamos a Miolo Seival, por volta de 200 hectares. Na região da Campanha do RS estão se desenvolvendo pelo menos cinco outras grandes vinícolas, reforçando uma nova aptidão, que pode ser decisiva economicamente para esta região do estado do Rio Grande do Sul.

No dia do nosso teste, fomos recebidos pelo engenheiro agrônomo Alécio Demori, ex-aluno do curso de Agronomia da Universidade Federal de Santa Maria, que é o supervisor geral de Viticultura da unidade de Candiota e responsável por todo o processo de produção da uva processada na unidade e também a que segue para vinificação na unidade da Serra gaúcha. 

ambém esteve conosco no roteiro que fizemos para acompanhar a atividade, o técnico Vitor Trindade, que é líder de campo e profissional importante na interface entre a equipe de gerência e o restante dos trabalhadores da empresa.

Verificamos a organização da atividade e todas as operações manuais e mecanizadas que compõem este processo tão criterioso e complexo que é a produção de uva para vinhos finos. Nos contaram que desde 2000 iniciaram-se as atividades no local e que a partir de 2007 a empresa começou a produzir vinho na unidade. 

O processo de mecanização é intenso, com equipamentos que atendem aos processos desde a fase vegetativa até a fase de colheita e transporte. Seguidamente a empresa analisa a possibilidade de aquisição de novas máquinas, as mais especializadas em geral do exterior. Eles consideram o processo de mecanização uma das bases para o controle das operações e muito importante para favorecer o processo de produção de vinhos de características especiais. Contaram-nos que a colheita mecanizada proporcionou que a operação seja feita à noite, com o que, pela fisiologia da variedade, se viabiliza a produção de um vinho especial.

Atualmente com 45 funcionários, a maioria moradora da região de Seival e do município de Candiota, a Miolo produz as variedades de uva para vinho tinto: Alicante Bouschet, Aspirante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Merlot, Petit Verdot, Pinot Noir, Pinotage, Tannat, Tempranillo Gourmet e Touriga Nacional. De uvas para vinhos brancos e espumantes são produzidas as variedades Alvarinho, Chardonnay, Pinot Gridio, Sauvignon Blanc e Viognier.

LS Tractor e Casa do Produtor

A LS Tractor é uma empresa de origem sul-coreana, originária do Grupo LG, que iniciou suas atividades em 1976. No ano 2005 ocorreu a fundação do Grupo LS e iniciou-se a produção dos tratores da série R, que testamos e relatamos nesta edição.

A partir de 2008, ocorreu a fundação da LS Mtron, e em 2012 os tratores começam a chegar ao Brasil, primeiramente importados da Coreia do Sul e depois nacionalizados a partir da inauguração da fábrica no Brasil, em 2013, após apenas um ano de construção. Além da fábrica brasileira em Garuva, Santa Catarina, a LS Tractor possui mais duas unidades, a tradicional de Jeonju-si, na Coreia do Sul, e uma instalação na China.

Em 2016, já como produto nacional, foi lançado o modelo R60 cabinado, adquirido pela Miolo Seival, e em 2019 o modelo R65 o substituiu nas versões cabinado e plataformado. Atualmente, a marca oferece um portfólio de tratores organizado em cinco séries de tratores, Série Plus, Série U, Série R, Série G, Série H e o trator MT1.25.

A Casa do Produtor é o concessionário LS Tractor para a extensa região do RS, que vai desde Pinheiro Machado até Uruguaiana, com loja matriz em Dom Pedrito. Em atividade desde 1990, a loja é comandada pelo sócio Cleo Falcão, que nos explicava que o trator LS é muito bem aceito pelos produtores da região, mas as atividades relacionadas à lavoura arrozeira exigem tratores de alta potência, acima de 180cv. Esteve conosco durante o teste o Rodrigo Falcão, que é vendedor externo.


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