Trigo sem perdas

A qualidade genética e industrial da cultura de trigo tem sido prejudicada em decorrência do processo de colheita e da época de colheita. No Sul do país, onde a primavera tende a ser chuvosa, a estação de colheita estende-se além da maturação plena do grão. Atrasando a colheita, a probabilidade de o grão ser atacado por doenças aumenta consideravelmente. Do mesmo modo, as perdas físicas também tendem a ser mais elevadas. Na colheita de grãos podem ocorrer perdas quantitativas expressivas. Portella (1981) mostrou que existe correlação entre teor de umidade, regulagem de mecanismos e índice de perdas. Perdas médias de 4,7%, sem regulagem, passaram para 3,0% com algumas regulagens básicas. Com 16% de umidade nos grãos a percentagem de perdas foi de 5,2%, baixando para 1,8% quando a umidade foi de 12 % por ocasião da colheita.

Verificaram que o ajuste de parâmetros da colhedora, tais como velocidade, rotação do cilindro, abertura do côncavo e fluxo de ar, apresentou resultados significativamente positivos. Desde os trabalhos de Reed et al. (1974) e de Vas & Harrison (1969), ficou claramente demonstrada a influência do teor de umidade nas perdas de qualidade dos produtos colhidos. Portella (1997) apresentou resultados de perdas e danos físicos em grãos de trigo durante a colheita mecanizada, em vários teores de umidade do grão, comprovando estes argumentos.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi instalado em uma lavoura de trigo, cultivar BRS 49, com produtividade média de 1.920 kg/ha. Adotou-se o método descrito por Portella (1981), para avaliação de perdas de grãos. Todos os testes foram realizados com colhedora MF-3640, ano 1989, com aproximadamente 2.500 horas/máquina de uso. As perdas quantitativas, de plataforma, de trilha e de separação, e as perdas qualitativas, representadas por grãos amassados e grãos quebrados, foram avaliadas. Foram considerados nove tratamentos, resultantes da combinação de três teores de umidade do grão (29 %, 16 % e 13 %) e três combinações de regulagem da folga entre cilindro/côncavo e rotação do cilindro, com três repetições.

Para cada teor de umidade do grão existe uma regulagem recomendada pelo fabricante (2, 5 e 8); além desta, uma regulagem inferior (1, 4 e 7) e outra regulagem superior (3, 6 e 9) foram empregadas, procurando-se encontrar o ponto ótimo de regulagem. A percentagem de grãos quebrados e de grãos amassados foi obtida pela análise de Dano Visual realizada no Laboratório de Qualidade da Embrapa Trigo.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na Figura 1 são apresentados os resultados do dano visual (percentagem de grãos amassados e de grãos quebrados) causado em grãos de trigo para diferentes níveis de umidade do grão durante a colheita. (Veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF). Observa-se que tanto um quanto outro apresentaram o mesmo comportamento, ou seja, quanto mais úmido o grão, maior o dano. Esse dano visual representou 2,25% para 29% de umidade, 0,14% para 16% de umidade e 0,21% para 13% de umidade. A inflexão da curva mostra que os melhores resultados foram obtidos na colheita com 16% de umidade.

Na Figura 2 são apresentados os resultados de perdas ocorridas na plataforma da colhedora (barra de corte e molinete) e perdas nos mecanismos internos (trilha e separação), decorrentes das umidades de colheita. Com relação às perdas na plataforma, verifica-se que à medida que os grãos de trigo foram secando menores foram as perdas. Isso pode ser explicado pela maior facilidade de ação das navalhas da barra de corte sobre colmos de plantas mais secos, e o molinete tende a enrolar menos plantas quando estas estão mais secas.

As perdas nos mecanismos internos (trilha e separação), pela ação de regulagens que foram realizadas, apresentaram uma inflexão próxima a 16% de umidade, com resultados altamente significativos. Na Tabela 1 observa-se que a regulagem ideal proposta pelo fabricante em nenhuma das épocas de colheita foi a melhor. Para elevado teor de umidade (29%), aumentar a folga cilindro/côncavo e reduzir a rotação do cilindro produziu redução de 6,5% nas perdas em relação à regulagem básica. Para médio teor de umidade (16%), reduzir a folga e aumentar a rotação produziu redução de 26% nas perdas. Para baixo teor de umidade (13%), aumentar a folga e reduzir a rotação produziu redução de 32% nas perdas.

PERDAS E UMIDADE

Observou-se haver interação acentuada entre nível de perda de grãos na colheita e teor de umidade no grão. Para diferentes teores de umidade, alguns ajustes devem ser efetuados na “regulagem básica” de uma colhedora. Os mais importantes são a abertura (folga) do cilindro/côncavo e a rotação do cilindro, responsáveis pela perda qualitativa do grão colhido.

Em decorrência das regulagens efetuadas na colhedora, os resultados obtidos permitem concluir que:

a) a medida que o teor de umidade do grão decresce, menores são as perdas de plataforma (barra de corte e molinete);

b) a perda nos mecanismos internos tem o ponto de inflexão próximo a 16% de umidade. Colheitas com elevado teor de umidade no grão (29% de umidade) apresentaram altos valores de perda;

c) na média, os menores índices de danos físicos, resultantes das regulagens usadas na folga entre cilindro e côncavo e na rotação do cilindro, foram obtidos na colheita com 16% de umidade;

d) desse modo, pode-se afirmar que perdas qualitativas e quantitativas para a cultura de trigo, em colheitas próximas a 16 % de umidade do grão, podem ser minoradas pela regulagem adequada da colhedora.

José Antonio Portella,
Embrapa Trigo

* Este artigo foi publicado na edição número 32 da revista Cultivar Grandes Culturas, de setembro de 2001.

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