Umidade incorreta

Nesta safra são esperados mais de 90 milhões de toneladas de grãos. Todos eles, em alguma instância, da colheita ao processamento ou consumo, passarão por um processo de medição de umidade.

Erros ou fraudes na medição de umidade podem ser cometidos. No primeiro caso, involuntariamente ou por falta de informações e, no segundo caso, por má fé. Em ambos os casos irão representar prejuízos, se o erro for para mais, para quem está entregando o produto (geralmente o produtor) que sofrerá desconto maior e, caso for para menos, para quem está recebendo.

Imagine, numa hipótese muito otimista em que se incorra num erro aparentemente “insignificante” de 1%. Em 100 mil toneladas de grãos representariam 1 mil toneladas ou praticamente 16.6 mil sacas de 60 kg. Se considerarmos toda a produção anual, a diferença seria de 900 mil toneladas ou 15 milhões de sacas. Agora imagine se este erro ou a fraude for de 2%, 3% ou mais. Assim, o conhecimento das operações de medição de umidade, dos equipamentos utilizados, e das fontes de erros e fraudes irá promover uma comercialização mais justa.

TECNOLOGIA NO BRASIL

A tecnologia de Armazenagem de grãos no Brasil poderia ser considerada, de certa forma, muito recente, em comparação com as demais práticas e operações de produção agrícola. A matéria ou disciplina “Secagem e Armazenagem de Grãos” foi lecionada num curso de Agronomia, pela primeira vez no Brasil em 1967 na Universidade Federal de Viçosa. Nos cursos de Engenharia Agrícola, introduzidos no Brasil em 1972, este assunto faz parte do currículo mínimo dentro da matéria de Engenharia de Processamento ou Pré-processamento de produtos agrícolas.

Mesmo nos dias de hoje, em muitos dos cursos de Agronomia ainda não é lecionada a referida disciplina e, em muitos outros são assuntos ou tópicos abordados em outras disciplinas, como, em ”Tecnologia de Alimento”, “Construções Rurais”, “Mecanização Agrícola”, “Economia Rural”, “Comercialização Agrícola” dentre outras. Isso significa que muitos dos profissionais que atuam no setor, não tiveram a oportunidade de receber treinamento formal sobre o assunto. Muitos aprenderam freqüentando cursos de extensão e outros, na prática, com autodidatismo.

Isso explica a razão dos contrastes tecnológicos existentes no setor. Existem unidades armazenadoras que convivem com sistemas informatizados de última geração de controle de Secagem e Aeração convivendo com secadores que utilizam a queima de lenha como fonte de calor (por culpa do Governo Federal, através do antigo Conselho Nacional do Petróleo), medidores de umidade obsoletos como o do tipo UNIVERSAL convivendo com equipamentos de última geração do primeiro mundo.

Atualmente, no caso específico de medidores de umidade, no segmento de unidades armazenadoras de grande porte, além do tipo UNIVERSAL, basicamente, três equipamentos mais modernos, disputam o mercado brasileiro (Modelo G800 da GEHAKA; Modelo GAC 2100 da DICKEY JOHN e o modelo 919 da MOTOMCO, o primeiro de fabricação brasileira e os outros fabricados nos EUA).

MEDIDOR UNIVERSAL

O medidor de umidade do tipo “Universal”, de origem norte americana, foi muito utilizado na década de 1950 nos EUA e aposentado no início da década de 1960. No entanto, no Brasil seu uso ainda é muito comum e de “preferência” de muitos técnicos tanto de órgãos oficiais e de privados. Em alguns casos, considera-se o Medidor “Universal” como o equipamento referencial.

Seu funcionamento baseia-se na condutividade elétrica, propriedade física que correlaciona a passagem de corrente elétrica com o teor de água dos grãos. Em outras palavras, quanto mais água tiver o grão, mais corrente elétrica passará através dele.

É um aparelho, indubitavelmente bem robusto, em que uma amostra de grãos, farelo ou farinha, é colocada entre dois eletrodos e comprimida. Uma corrente elétrica é gerada, girando-se a manivela de um magneto, que atravessa a amostra. Assim, quanto mais úmida for a amostra, maior a passagem de corrente elétrica e, obviamente, quanto mais seca, menor a passagem. A leitura da passagem de corrente elétrica é indicada por um ponteiro no corpo do magneto.

Como a passagem de corrente elétrica através da amostra, depende também da temperatura da mesma, é feita a correção da temperatura lida no termômetro do aparelho. Lembrando-se de que a temperatura é da amostra e não do ambiente. A leitura do teor de água é transcrita para um documento ou tabela, da qual se calcula o devido desconto.

FONTES DE ERROS

• Aparelho descalibrado. Poderá indicar valores acima ou abaixo do real, dependendo de o quanto está descalibrado. A diferença poderá chegar para mais ou para menos de 4%;

• Compressão da amostra. Se o operador comprimir a mais, indicará teor de água maior. Muitos operadores e empresas recebedores de grãos inescrupulosos ajustam o disco indicador de compressão para comprimir além do indicado para promover desconto maior do fornecedor.

• Manipulando-se o disco graduado e ajustando-se o ponteiro com a temperatura, não a da amostra, mas do ambiente, como é comum, o resultado será distorcido.

• Amostras retiradas de um secador tende a apresentar um percentual de umidade abaixo da real porque a medição é feita por contato e as camadas mais superficiais dos grãos, recém saídos do secador, estão mais secas que no interior dos grãos. Assim, se for medida a umidade no dia seguinte, esta mesma amostra, estará com 1% ou mais de umidade.

• Adicione-se às fontes de erros mencionadas, o ato de transcrever o valor indicado erroneamente para um documento ou tabela devido à distração e/ou lapsos de memória do operador. Também, quando manuscrito, os “garranchos” que podem confundir, por exemplo, o número 1 por 7 ou mesmo até por 4 e vice-versa.

• O aparelho mostra o resultado mas não registra. Os resultados são passíveis de manipulação.

MEDIDORES ELETRÔNICOS AUTOMÁTICOS

Neste grupo pertencem, dentre outros, os principais comercializados no Brasil, os modelos: G800 da GEHAKA; GAC 2100 da Dickey John e 919E da MOTOMCO. Todos os três modelos utilizam a capacitância elétrica como propriedade física para correlacionar com o teor de água do produto.

As principais características comuns dos medidores:

• A confiabilidade dos resultados de todos eles dependerá, primordialmente da calibração feita com o produto específico. Assim, se a calibração foi feita para milho mole e se utilizarmos para milho duro, haverá diferença nos resultados.

• A operação de determinação de umidade é automática em todos os três modelos e não há possibilidade de manipulação do operador no resultado durante a operação

• A temperatura da amostra é tomada automaticamente;

• O resultado é mostrado no visor digital e todos eles possuem uma saída serial que pode ser conectado a uma impressora ou ao computador, eliminando-se a transcrição manual do resultado.

• Cada determinação é realizada em menos de 20 segundos e a operação não destrói a amostra testada (No UNIVERSAL a amostra é esmagada).

• Todos os três têm o procedimento de auto-calibração antes de se iniciar a medição

Todos os três foram testados comparativamente nos Laboratórios do CENTREINAR – Centro Nacional de Treinamento em Armazenagem

Modelo G800 da GEHAKA

As principais características deste medidor são:
• Fabricação brasileira.
• Para operar o aparelho, estabelece-se através do menu o produto a ser medido. A alimentação da amostra no aparelho é feita com um copo próprio, de volume conhecido de grãos, que é derramada na câmara de medição. Automaticamente, determina-se a temperatura, o peso e a umidade da amostra cujo resultado aparece no visor digital. Fornecem o percentual de água do grão, a temperatura, o peso da amostra e o peso por hectolitro.

Modelo GAC 2100 da Dickey John

Este medidor de umidade é, hoje, o medidor de umidade oficial para efeito de Classificação Oficial de Grãos nos EUA.

Para a operar o medidor, do mesmo modo que os outros, ao ligar o medidor, há o procedimento de auto-ajuste e através do menu, estabelece-se o produto a ser medido.

Coloca-se uma quantidade de amostra acima da necessária na moega. Acionando-se o botão “carregar”, automaticamente a amostra cai na câmara de medição, ocorre o corte do excedente e procede-se a leitura da temperatura, da umidade e do peso da amostra. No visor aparecem a umidade, temperatura e o peso por hectolitro.

Modelo 919E da MOTOMCO

Até recentemente, este modelo foi o medidor de umidade oficial para efeito de Classificação Oficial de Grãos nos EUA por um período de mais de 30 anos. Depois de estabelecido o produto a ser medido, a alimentação da amostra é feito derramando-se os grãos, cuidadosamente, na moega, até a quantidade indicada no visor com um sinal sonoro. Automaticamente o equipamento determina a temperatura e a umidade.

No caso específico do milho, o equipamento obriga a repetir a medição por três vezes antes de fornecer a leitura da umidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É extremamente importante lembrar que, mesmo utilizando-se do melhor medidor de umidade, se não forem tomados os devidos cuidados na coleta das amostras, de nada valerão os investimentos, a precisão e a exatidão dos aparelhos.

As amostras devem ser tomadas de tal forma que elas representem o lote como um todo. É imperativo que se passe por um Homogeneizador e Divisor de amostras (tipo Boerner) ou por um Quarteador.

Além das recomendações das técnicas de amostragem, o manuseio da amostra com mãos molhadas de suor, em vasilhames inadequados, colocadas em ambientes excessivamente quentes, frios, úmidos ou secos pode alterar a característica dos grãos quanto ao seu teor de água.

É também recomendável que se tenha no laboratório, um medidor de umidade de método direto, como por exemplo, o de destilação com óleo vegetal (fornece resultado em torno de 20 minutos) para, em caso de dúvida, poder verificar, periodicamente se os resultados dos medidores de umidade automáticos estão de acordo. Esta é uma prática adotada por muitas cooperativas, estatais e multinacionais. Imagine o prejuízo se um medidor estiver descalibrado em mais ou menos, por exemplo, 3%.

Ficou demonstrado de que com o uso do obsoleto medidor de umidade do tipo Universal é possível fraudar dados, de modo geral com prejuízos, principalmente do produtor.

Após estas considerações, esperamos ter contribuído de alguma forma para que o produtor tenha uma remuneração justa sem sofrer desfalques do sistema.

Tetuo Hara
UFV

* Este artigo foi publicado na edição número 02 da revista Cultivar Máquinas, de março/abril de 2001. ver mais artigos
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