Uso de adjuvantes na aplicação de defensivos agrícolas

Apesar de alguns adjuvantes prometerem diversas soluções na aplicação de defensivos, há uma considerável distância entre as promessas e suas reais funções. 

A história dos adjuvantes agrícolas tem início no século 18, quando resinas de pinheiro, farinha de trigo, melaço e açúcar foram utilizadas para promover modificações físicas e químicas nas caldas de pulverização, que nesta época eram à base de cal, enxofre, cobre e arseniatos, e assim melhorar o controle de pragas.

Desde então, os adjuvantes têm feito parte da rotina das pulverizações. Dados do relatório “Mercado Mundial de Adjuvantes Agrícolas” apontam a América do Norte como controladora de 40% do mercado de adjuvantes. O Brasil, junto a toda América Latina e à Ásia, é considerado mercado “inexplorado” e com um enorme potencial para crescer.

Os adjuvantes agrícolas são ferramentas poderosas que estão à disposição dos agricultores, estes produtos permitem driblar os fatores que prejudicam a aplicação de defensivos. O processo de aplicação é bastante complexo e diversos fatores interferem positiva ou negativamente.

Adjuvantes são quaisquer substâncias ou compostos sem função fitossanitária, ou seja, sem função de controle de pragas ou doenças. Portanto, não devem ser aplicados sozinhos. Os adjuvantes devem ser acrescidos na calda de pulverização com objetivo de facilitar a aplicação, aumentar a eficácia ou diminuir riscos de contaminação humana e ambiental por deriva.

Estes produtos podem ser considerados como ativadores e têm como objetivo melhorar diretamente a atividade do defensivo, principalmente pelo aumento da taxa de absorção. Os adjuvantes ativadores incluem os surfatantes, óleos vegetais, óleos de sementes metilados, óleos minerais, derivados de silicones, bem como fertilizantes nitrogenados.

Os adjuvantes também podem ser denominados como úteis. Estes atuam como facilitadores do processo de pulverização por meio da redução dos efeitos negativos da pulverização e não influenciam diretamente na eficiência do defensivo. São considerados adjuvantes úteis os agentes compatibilizantes, depositantes, dispersantes, controladores de deriva, espumantes, condicionadores da água, acidificantes, tamponantes, umectantes, protetores de raios ultravioletas e corantes.

Muitas vezes nem os próprios fabricantes têm noção da funcionalidade de seus adjuvantes, podendo haver equívocos na informação contida na bula ou no rótulo dos produtos. Sabendo disto, algumas instituições públicas de pesquisa e ensino (IAC, Unesp Botucatu e Jaboticabal, Uenp, UFU, entre outras) junto à iniciativa privada (Sabri Sabedoria Agrícola, Forplant, entre outras) têm sido pioneiras no desenvolvimento de métodos para avaliar adjuvantes. Pois, apesar de amplamente usados, os adjuvantes não possuem uma legislação específica, não existindo uma metodologia particular para sua avaliação.

Devido ao número de variáveis envolvidas em estudos de campo, torna-se difícil a interpretação de resultados. Logo, vários pesquisadores têm defendido estudos em laboratório. Por exemplo, a produção de gotas suscetíveis à deriva durante uma pulverização pode passar despercebida em análises no campo, mas não sob condições controladas em laboratório. Estes estudos em laboratório são de grande importância, pois tais gotas suscetíveis à deriva no campo podem até não fazer diferença no controle de doenças, pragas ou plantas daninhas, mas podem ser fatais para insetos polinizadores como as abelhas, além de também contaminar cursos d’água e áreas urbanas.

 

Área experimental cultivada com milho.
Área experimental cultivada com milho.

TESTANDO OS ADJUVANTES

Isto posto, pesquisadores da Faculdade de Ciências Agrárias de Botucatu (Unesp) realizaram um estudo detalhado com 18 adjuvantes comumente utilizados em misturas com defensivos em pulverizações agrícolas. Este estudo teve como principal objetivo facilitar na escolha de um adjuvante, na sua classificação e até mesmo no registro de adjuvantes.

Neste estudo foi avaliado o efeito que os adjuvantes provocam na tensão superficial das gotas, ou seja, no espalhamento das gotas sobre o alvo; a alteração feita pelos adjuvantes no tamanho das gotas pulverizadas, bem como o potencial de risco de deriva que os adjuvantes proporcionam.

A tensão superficial foi determinada por método gravimétrico, através da medição das massas de conjuntos de gotas em balança analítica de precisão. Já para as análises do tamanho das gotas, utilizou-se um analisador de gotas em tempo real (Spraytec – Malvern Spraytec Real Time Droplet Sizing System), com base na técnica da difração de raios laser. Este analisador de gotas verifica o DMV (Diâmetro Médio Volumétrico), ou seja, a média do tamanho das gotas produzidas por um bico de pulverização. Por fim, para analisar o potencial de risco de deriva dos adjuvantes utilizou-se um túnel de vento, feito em madeira e produzindo o vento necessário aos ensaios por um ventilador. O sistema foi dimensionado para fornecer um fluxo de vento de 7km/h.

Para melhor entendimento deste estudo, os pesquisadores optaram em apresentar os dados em tabelas com o nome dos adjuvantes, a sua composição, a função descrita no rótulo do produto pelo fabricante, o tipo da formulação e os efeitos provocados pelos adjuvantes na tensão superficial, no tamanho das gotas e no potencial de deriva.

Com base neste estudo, pode-se concluir que os adjuvantes avaliados reduziram a tensão superficial em relação à água, ou seja, todos os produtos promovem o espalhamento das gotas pulverizadas sobre a superfície depositada. Isto significa que é possível cobrir uma mesma área foliar aplicando-se menos água por hectare, consequentemente aumentando o rendimento da aplicação, tratando mais hectares por hora, o que tem uma série de vantagens.

Também foi possível observar neste estudo que alguns adjuvantes aumentam o tamanho das gotas. O aumento do tamanho das gotas tem como lado positivo reduzir o arraste de gotas pelo vento, o que aumenta as chances de que o defensivo aplicado atinja o alvo. Por outo lado, o aumento do tamanho das gotas pode ser uma desvantagem, pois prejudica a penetração do defensivo nas partes inferiores no dossel das plantas ou baixeiro, uma vez que gotas maiores, ao atingirem o topo das plantas, sofrem o efeito guarda-chuva, havendo o escorrimento.

DERIVA

Com relação à deriva, para muitos dos adjuvantes existe uma considerável distância entre o que é prometido pelos fabricantes e as suas reais funções. Alguns adjuvantes que prometem diminuir a deriva, na verdade aumentaram o potencial de deriva da aplicação, ou seja, a aplicação de água pura produz menos deriva do que a aplicação de água com estes adjuvantes.

Contudo, o que o agricultor, agrônomo ou representante comercial deve compreender é que todo adjuvante tem seus pontos fortes e seus pontos fracos. Dessa forma, quando se conhecem os pontos fortes de um adjuvante é possível explorá-los ao seu favor. Da mesma forma, é indispensável conhecer os pontos fracos de um adjuvante para se precaver dos possíveis efeitos prejudiciais que podem ocorrer no momento da aplicação.

A sustentabilidade econômica, ambiental e social no uso de defensivos na agricultura depende de pesquisas, da transferência de informações e do treinamento dos indivíduos envolvidos no processo de pulverização, pois não há aplicação 100% se o profissional responsável não é capacitado.

Pulverizador com bicos de mesma vazão produzindo tamanhos distintos de gotas em três seções da barras de pulverização.
Pulverizador com bicos de mesma vazão produzindo tamanhos distintos de gotas em três seções da barras de pulverização.


Henrique Borges Neves Campos, Sabri – Sabedoria Agrícola


Artigo publicado na edição 164 da Cultivar Máquinas.

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