Uso de tratores no cultivo de arroz

Amostragem realizada entre produtores de arroz irrigado no Rio Grande do Sul revela que a maioria dos tratores utilizados na cultura encontra-se em bom ou ótimo estado de conservação.

O Rio Grande do Sul se destaca como maior produtor nacional de arroz irrigado, sendo responsável por mais de 60% do total produzido no Brasil, com uma área superior a um milhão de hectares (ha) cultivados. A região da Fronteira Oeste destaca-se por ser a maior região produtora do estado, responsável por mais de 300 mil hectares (Sosbai, 2012). Nesta região o arroz irrigado é cultivado em superfície com desnível controlado, e quase que a totalidade das áreas utiliza o sistema de cultivo convencional, o qual exige um grande número de operações desde o preparo do solo até a colheita.

Em função de intempéries climáticas e do cultivo em áreas arrendadas, onde a pecuária de corte ocupa os talhões até os meses próximos à semeadura, a janela de tempo para realizar as operações é reduzida. Neste contexto, a principal alternativa é elevar a capacidade operacional para que diversas operações possam ser realizadas simultaneamente. Assim, é necessário que as máquinas agrícolas estejam em boas condições operacionais quando solicitadas, para não gerar atrasos nos tempos de execução das operações. De acordo com Khodabakhshian (2013), somente através do monitoramento das condições do equipamento é possível estabelecer um plano de gerenciamento com vistas à otimização da frota. Neste contexto, objetivou-se realizar a caracterização dos tratores e índice de mecanização (IM) utilizados no cultivo do arroz irrigado na região da Fronteira Oeste do estado do Rio Grande do Sul.

A pesquisa foi realizada em 11 propriedades agrícolas distribuídas na região da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, nos municípios de Alegrete, Quaraí e Uruguaiana, totalizando uma área produtiva de 4.144ha. A metodologia baseou-se na identificação e coleta de informações de 71 tratores agrícolas, obtendo dados quanto à marca, ao modelo, ao sistema de tração, à presença de cabine ou estrutura de proteção na capotagem (EPC) e ao estado de conservação externo, sendo este avaliado como bom/ótimo, quando encontrava-se sem arranhões ou amassados, regular, quando apresentava arranhões ou perda do brilho natural e em estado ruim de conservação quando encontrava-se com arranhões, amassados ou ausência de peças originais. As áreas cultivadas nas propriedades foram conhecidas através de um questionário aplicado aos proprietários, e as informações referentes aos tratores foram adquiridas pelo meio de catálogos disponíveis eletronicamente consultando a marca e o modelo do trator. Para demonstração do índice de mecanização, realizou-se a separação em três faixas, (< 200ha; 200ha a 600ha; > 600ha), de forma que cada faixa contemplasse um número de propriedades adequado para realização das médias de área e potência. Os resultados foram analisados com auxílio do aplicativo Microsoft Office Excel e o tamanho de amostra, expresso em número mínimo de tratores, foi definido pelo método bootstrap adaptado (Dias et al, 2014), que considerou a estabilização das variáveis em função de aumentos significativos do tamanho amostral.

Com relação às marcas, pôde-se observar a predominância de Massey Ferguson, New Holland, John Deere e Valtra, respectivamente (Figura 1). As demais marcas encontradas, com menor representatividade, foram CBT, Muller, Agrale, Engesa e Case IH, respectivamente, cuja soma dos percentuais representou 18% do total avaliado. 

Figura 1 – Principais marcas de tratores agrícolas encontradas
Figura 1 – Principais marcas de tratores agrícolas encontradas

Quanto ao sistema de tração (Figura 2), a utilização de tratores 4x2 TDA é predominante entre as demais categorias (70,4%). Isto está correlacionado às atividades da lavoura orizícola, que geralmente necessitam de grande capacidade em exercer tração, mas, por vezes, com implementos de dimensões reduzidas, devido às condições de relevo e operações que não podem ser realizadas com tratores de maior porte como no caso da construção de taipas. Os tratores 4x4 representaram 8,5% e foram encontrados em poucas propriedades, sendo utilizados principalmente para a realização do preparo do solo. Já os tratores 4x2 somaram 21,1%, e têm limitações dentro das principais operações, sendo assim utilizados para atividades secundárias como transporte, acionamento de equipamentos estáticos via tomada de potência e outras atividades onde não se justifica a utilização de um trator com maior capacidade de exercer tração. 

Figura 2 – Sistema de tração encontrado nos tratores agrícolas amostrados
Figura 2 – Sistema de tração encontrado nos tratores agrícolas amostrados

Quanto à potência média dos tratores (kW trator-1) observou-se que esta cresceu ao longo das últimas décadas (Figura 3), à exceção dos tratores com  faixa de 15 a 25 anos de uso. Nesta faixa, estão compreendidos modelos articulados com tração integral (4x4), os quais eram os tratores de maior potência fabricados na época. Dos tratores com mais de 25 anos até os tratores com até cinco anos, a potência média apresentou um aumento de 20%. 

Figura 3 – Potência média (kW/trator) ao longo dos anos
Figura 3 – Potência média (kW/trator) ao longo dos anos

O índice de mecanização apresentou média de 1,70kW/ha, sendo maior para as menores áreas e menor para as maiores propriedades (Figura 4). Para as propriedades menores de 200ha o IM foi de 2,09kW/ha. Propriedades entre 200 e 600 hectares resultaram em um IM de 1,57kW/ha e propriedades maiores que 600ha resultando em um IM de 1,46kW/ha. Schlosser et al (2004) verificaram resultados semelhantes no diagnóstico realizado nas lavouras orizícolas da região central do estado, relacionando o maior índice de mecanização nas pequenas propriedades com a maior capacidade de trabalho e permitindo realizar as tarefas em menor intervalo de tempo e com maior cuidado. O fato de as grandes propriedades possuírem menor índice de mecanização implica em um maior planejamento das atividades devido às grandes áreas a serem preparadas. Muitas vezes estas utilizam o período noturno e possuem um maior índice de tecnologia embarcada, possibilitando uma maior capacidade operacional.

Figura 4 – Índice de mecanização nas propriedades amostradas
Figura 4 – Índice de mecanização nas propriedades amostradas

Quanto ao posto de operação, pode-se observar a predominância dos tratores com EPC (45%), sendo seguidos pelos cabinados (38%) e por último os sem EPC (17%). Schlosser et al (2002), relatam que 51,7% dos acidentes mais graves com tratores agrícolas são ocasionados pelo capotamento, neste caso, os tratores sem EPC apresentam risco iminente ao operador. A cabine oferece maior conforto e segurança no momento das operações, possibilitando ao operador um menor desgaste físico. 

Figura 5 - Tratores cabinados, com EPC e sem EPC na Fronteira Oeste do RS
Figura 5 - Tratores cabinados, com EPC e sem EPC na Fronteira Oeste do RS

Observando a Figura 6, pode-se verificar que a maioria dos tratores se encontrava em bom estado de conservação externa (49,3%). Apesar de terem sido avaliados tratores de diversas épocas, alguns destes receberam reformas na funilaria, estando em estado regular (30,9%) e em estado ruim (19,7%).

Figura 6 – Conservação da pintura dos tratores
Figura 6 – Conservação da pintura dos tratores

Concluindo, pode-se verificar que a potência média foi de 90kW por trator, com uma tendência de crescimento nos tratores mais novos. O sistema de tração 4x2 TDA é o mais encontrado, devido às características das operações da cultura do arroz irrigado. Quatro marcas de tratores predominam nas propriedades e 50% dos tratores encontram-se em bom estado de conservação externa, muito em função das condições extremas de operação a que são submetidos. Demais dados referentes a todos os sistemas dos tratores estão sendo tratados para futura apresentação, ampliando a caracterização dos tratores desta região de agricultura forte do Sul do País.


Vilnei de Oliveira Dias, Bruno Pilecco Bisognin, Bruna Flores Batistella, Camila Dalcin, Tiago Gonçalves Lopes, Lamap/Unipampa Alegrete


Artigo publicado na edição 161 da Cultivar Máquinas. 

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