Velha mas inteira

Desde a construção das primeiras colhedoras combinadas de grãos (que realizam o corte, alimentação, trilha, separação e limpeza) até os tempos de hoje, ocorreu um grande avanço tecnológico destas máquinas, para melhorar o desempenho durante a colheita das culturas, principalmente a da soja e a do milho, que apresentam grande destaque entre os produtos agrícolas brasileiros e são de considerável importância na alimentação humana e animal.

A colheita constitui uma importante etapa no processo produtivo da soja e do milho, principalmente pelos riscos de perdas de grãos que está sujeita a lavoura destinada ao consumo ou à produção de sementes (CARDOSO, 2001 b).

A colheita deve ser iniciada tão logo a cultura atinja a umidade adequada, a fim de evitar perdas na qualidade do produto (MESQUITA et al., 1999 a). Para tanto, o agricultor deve preparar suas máquinas e armazéns com antecedência, pois uma vez atingida a maturação da colheita, a tendência é a deterioração dos grãos e a debulha em intensidade proporcional ao tempo em que a cultura permanecer no campo (EMBRAPA, 1999).

Durante a colheita é normal que ocorram algumas perdas. Segundo IAPAR (2001), a colheita mal feita é responsável por 2 tipos de prejuízos, os diretos e os indiretos. Os prejuízos diretos estão relacionados às regulagens mal feitas das colhedoras, promovendo maiores perdas. Os indiretos estão ligados às dificuldades para a realização do plantio direto, devido à má distribuição das palhas, e à necessidade de dessecação das plantas provenientes dos grãos perdidos.

Para COSTA & TAVAREZ (1995), as perdas de grãos nos últimos anos estão alcançando níveis preocupantes. Relatam que as perdas ocorrem devido ao manejo inadequado da cultura como, por exemplo, solos mal preparados, atraso na colheita, contribuindo para as perdas naturais, presença de plantas daninhas e falta de manutenção e regulagens das colhedoras, dificultando a operação de seus mecanismos.

Com relação às colhedoras, para CAIXETA & SILVA (1998) as perdas ocorrem devido à má conservação das mesmas e à falta de treinamento dos operadores, que muitas vezes são desprovidos de recursos técnicos, e desconhecem as regulagens e cuidados que deve-se ter com as colhedoras.

MESQUITA et al. (1998 a) estudaram durante 20 safras agrícolas a redução das perdas na colheita de soja e o respectivo retorno econômico, resultantes de programa de capacitação de mão-de-obra para monitoração das perdas, operação e regulagens das colhedoras. Amostras de mais de 10 mil lavouras, tomadas ao acaso, foram coletadas pela Embrapa Soja e Emater - PR de 1978/79 a 1997/98. O retorno proporcionado pelo programa de capacitação foi a redução de perdas em 3,2 sacos/ha, no Paraná, e de 1,2 sacos/ha nos demais Estados, em 20 anos.

E para que se consiga efetuar essas regulagens é necessário realizar revisões nas colhedoras antes de se iniciar o processo da colheita. A falta de manutenção provoca desgastes nas colhedoras, com isso, ao passar dos anos, ocorreram dificuldades para realizar uma regulagem adequada, aumentando as perdas na colheita ano a ano (CARDOSO, 2001 a).

MESQUITA et al. (1999 a) estudaram a colheita mecânica da soja no Paraná, nas safras de 95/96, 96/97 e 97/98, comparando-se perdas de grãos e danos mecânicos de acordo com a marca e a idade de colhedoras. Não houve diferenças significativas entre os níveis de perdas e de danos mecânicos com as quatro marcas de colhedoras encontradas no Estado, bem como entre as colhedoras agrupadas em quatro faixas de idade. Apenas as colhedoras acima de 15 anos de utilização diferiram das outras. De acordo com MESQUITA et al (2001), dentre a frota de colhedoras amostradas no Paraná, tem-se 20% com mais de 15 anos e aproximadamente 67% com mais de 11 anos de idade.

Como pôde ser verificado anteriormente, o parque de máquinas do Estado do Paraná já tem vários anos de utilização e, muitas vezes, se faz necessário escolher entre continuar utilizando a colhedora e fazendo sua manutenção ou substitui-la por uma nova, as quais atualmente estão cada vez mais desenvolvidas tecnologicamente. Para realizar tal escolha, faz-se necessário analisar alguns fatores, como o custo horário, as perdas alcançadas pelas máquinas antigas etc.

Em vista do exposto, o presente trabalho teve como objetivo avaliar as perdas quantitativas de três colhedoras com diferentes anos de utilização, nas culturas de soja (Glicyne max (L.) Merrill) e milho (Zea mays L.).

ESTUDO DE CASO

No ano de 2001 foi conduzido um trabalho no município de Tupãssi – PR, com as culturas de soja e milho, utilizando-se o delineamento estatístico de blocos casualizados com 3 colhedoras e 4 repetições. Na cultura da soja, as parcelas apresentavam 8,10 m de largura por 50 m de comprimento, utilizando-se para as avaliações apenas uma passagem útil da colhedora, restando duas bordaduras laterais de cada parcela. No milho, as parcelas apresentavam 7,20 m de largura por 50 m de comprimento. Na cultura do milho também utilizou-se apenas uma passagem útil da colhedora, mas nesse caso não era centralizada. Esse procedimento foi utilizado para que não ocorresse contaminação entre as parcelas avaliadas. Os dados foram submetidos à analise de variância e às médias comparadas pelo teste de Tukey, considerando-se 5 % de probabilidade em todos os testes.

Características e regulagem das colhedoras

• NH 8040 (1988): marca New Holland, modelo 8040, ano 1988, potência de 125 cv (92 kW) a 2100 min, plataforma de corte do tipo flexível de 13 pés (3, 9 m). A plataforma espigadora possuía 4 linhas, com espaçamento de 0,90 m entre linhas.
• NH 8055 (93): marca New Holland, modelo 8055, ano 1993, potência de 150 cv (103 kW) a 2100 min, plataforma de corte do tipo flexível de 15 pés (4,5 m). A plataforma espigadora possui 4 linhas, com espaçamento de 0,90 m entre linhas.
• TC 57 (98): marca New Holland, modelo TC57, ano 1998, potência de 170 cv (125 kW) a 2100 min, plataforma de corte do tipo flexível de 15 pés (4,5 m), barra de corte flexível com ajuste de pressão sobre o solo. A plataforma espigadora possui 4 linhas, com espaçamento de 0,90 m entre linhas.

Regulagens

A rotação do molinete era de 1,33; 1,25 e 1,29 vezes a velocidade de deslocamento das colhedoras NH 8040 (88), NH 8055 (93) e TC 57 (98), respectivamente. A velocidade de deslocamento foi de 4,93 km/h, 5,14 km/h e 5,08 km/h para as colhedoras NH 8040, NH 8055 e NH TC57, respectivamente.

A coleta do material perdido na cultura da soja e do milho foi feita utilizando uma armação com 2 m2, sendo uma medida a largura da plataforma e a outra medida (Y), Figura 1 (veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF), a necessária para completar a área de 2 m2 (MESQUITA et al, 1998 c); e uma lona de 4 m x 6 m, para determinação e coleta das perdas referentes aos mecanismos de limpeza das colhedoras. Avaliou-se as perdas nos diferentes componentes das máquinas (plataforma, peneiras, saca-palha, perdas totais e perdas naturais).

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Cultura da Soja

A soja apresentou uma população de 374.074 plantas/ha, altura média das plantas e inserção da primeira vagem de 85,32 e 12,85 cm, respectivamente. O rendimento de grãos foi de 3815 kg/ha ,corrigido a 13 % de umidade. Não foram verificadas perdas naturais.

As perdas totais das colhedoras ficaram acima do nível aceitável de perdas (60 kg/ha) proposto por MESQUITA et al. (1979). Porém, não foram observadas diferenças significativas entre as colhedoras, como pode ser verificado na Figura 2.

Com relação às porcentagens de perdas dos mecanismos em relação às perdas totais, as colhedoras 1, 2 e 3 apresentaram 85,95, 89,95 e 87,94 % de perdas na plataforma; 4,21, 3,36 e 3,37 % de perdas na peneira e 6,84, 6,72 e 8,67 % perdas no saca-palha, respectivamente. Resultados similares também foram obtidos por PEREIRA et al. (1993) na colheita de trigo e por MESQUITA et al. (1979) na avaliação de perdas na colheita da soja.

Cultura do Milho

O milho apresentava uma população de 58.148 plantas/ha, altura média das plantas e inserção da espiga de 233,52 e 97,68 cm, respectivamente. O rendimento de grãos foi de 6694,4 kg/ha corrigido para 13 % de umidade. Não foram observadas perdas naturais, porém devido a fortes ventos que ocorreram dias antes da colheita, ocorreu o tombamento das plantas, mas não a ponto de ocorrerem perdas naturais.

Como pôde ser observado, as perdas nas plataformas foram excessivas. Isto ocorreu devido ao tombamento que estas plantas sofreram, o que dificultou o recolhimento de todas as espigas dos pés e favoreceu para que ocorresse a debulha das espigas nos rolos puxadores.

Pelo fato de não ter ocorrido diferença significativa de perdas nos mecanismos das colhedoras, estas também não foram verificadas nas perdas totais, como mostra a Figura 3.

Com os dados das perdas totais pode-se efetuar o cálculo da percentagem de perdas em cada um dos mecanismos avaliados. As colhedoras NH 8040, NH 8055 e NH TC57 apresentaram 86,69, 84,90 e 82,25 % de perdas na plataforma; 2,81, 3,31 e 3,36 % de perdas na peneira e 10,50, 11,79 e 14,37 % de perdas nos saca-palhas.

A não diferenciação estatística dos resultados obtidos tanto na cultura da soja quanto na do milho, ocorreram devido às colhedoras estarem basicamente com as mesmas regulagens, velocidade do molinete, rotação do cilindro e abertura deste em relação ao côncavo, rotação do ventilador, abertura das peneiras e velocidade de deslocamento das colhedoras além da realização das manutenções necessárias igualmente em todas as colhedoras, para que estas permanecessem em condições de trabalho, uma vez que a falta de manutenção das colhedoras provoca desgastes, dificultando as regulagens necessárias para realização de uma colheita adequada.

Estes resultados estão de acordo com os obtidos por MESQUITA et al. (1999 a), na avaliação de perdas com colhedoras de diferentes faixas de idade, sendo que apenas colhedoras acima de 15 anos tiveram resultados diferentes.

CONCLUSÕES

Com relação aos mecanismos das colhedoras avaliadas, pôde-se observar que a plataforma foi a que proporcionou maior perda, tanto na cultura da soja quanto na do milho, sendo que na cultura do milho esta se elevou devido às adversidades climáticas.

Com relação à avaliação dos diferentes anos das colhedoras, pôde-se observar que estas não apresentaram diferença significativa em nenhum dos mecanismos analisados.

Portanto, pode-se dizer que as colhedoras avaliadas apresentavam-se com seus mecanismos em ótimo estado, assegurado pelas manutenções realizadas nas entressafras, que garantiram as regulagens necessárias para efetuar a colheita.

Emerson Fey, Antonio Gabriel Filho,Mauro Luciano Manica e Leandro Dadalt,
UNIOESTE

* Este artigo foi publicado na edição número 14 da revista Cultivar Máquinas, de setembro/outubro de 2002.

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