Vírus na semente

A agricultura no Brasil, de um modo geral, atravessa uma fase de intensas pressões geradas pela realidade desse terceiro milênio. Já não basta ao homem uma vida mais longa, ele quer que essa vida seja mais saudável e está certo de que isso só será possível se a saúde do planeta for preservada. O aumento de casos de intoxicações de origens diversas, da mortalidade pelo câncer e dos desastres ecológicos, tem chamado a atenção para o perigo iminente de o nosso planeta entrar em uma agonia irreversível. Aliada a essa tomada de consciência universal, surge a globalização, eliminando barreiras e unificando continentes, trazendo algumas conseqüências consideradas promissoras, como a abertura de novas oportunidades de mercado, e outras indesejáveis, como a pressão dos países economicamente mais poderosos, que tentam impor as suas regras nem sempre razoáveis e adequadas à nossa realidade ecológica e cultural.

No meio dessa incerteza uma coisa é indiscutível: a bataticultura, como todo o setor agrícola brasileiro, tem de se re-alinhar, num comportamento que tem sido denominado de mudança de paradigma. Como paradigma significa um modelo, ou um conjunto de normas ou de realizações de um sistema praticado por uma comunidade, percebe-se que uma mudança de paradigma não se trata de algo exatamente simples. Pelo contrário, implica na erradicação de atitudes e conceitos profundamente enraizados na agricultura brasileira, o que exige determinação e coragem para experimentar o novo. Portanto, a dúvida e a insegurança, acompanhadas de alguma divergência, serão fases inevitáveis nessa mudança. Porém, independentemente do incômodo que possa causar nos mais conservadores, a regra é clara: quem não se adaptar terá que abandonar o sistema ou será atropelado por ele.

A valorização das boas práticas culturais pelo agricultor, para garantir que o produto não contenha resíduos prejudiciais à saúde do consumidor, passa a ser fundamental, sob pena desse ser discriminado e excluído do mercado. Isso implica na adoção de uma série de medidas integradas, entretanto, uma das mais cruciais compreende a seleção e o uso de sementes com boa qualidade fitossanitária. Patógenos importantes para a cultura da batata, como fungos, nematóides, bactérias e vírus, são capazes de causar doenças que podem ser perpetuadas pelas sementes, provocando perdas significativas. Destaque especial precisa ser dado aos vírus que, depois de introduzidos numa cultura, não possuem controle curativo e se disseminam muito facilmente de uma planta para outra, reduzindo a qualidade e quantidade de produção.

Com a globalização, o livre trânsito de mercadoria entre países facilita a entrada de patógenos ou mesmo raças e/ou isolados ainda não existentes no Brasil. Acontecimentos recentes têm mostrado aos bataticultores a importância do controle da sanidade de sementes importadas. Até 1994, o único vírus importante para essa cultura no Brasil era o do enrolamento da folha da batata (Potato leafroll virus – PLRV), porém a introdução de um novo isolado da estirpe necrótica do vírus Y (Potato virus Y – PVY), denominada na ocasião de PVYNBr, através de sementes de Achat e Baraka importadas, mudaram bruscamente esse quadro. Incidências de PVY superiores a 60%, na primeira remultiplicação das sementes importadas em campo, passaram a ser detectadas simultaneamente em todos os campos dos Estados produtores de sementes do país, e estudos mostraram que as perdas apresentadas pela planta infectada eram da ordem de 50% (Figueira & Pinto, 1995 – Fitop. Bras.20:299; Figueira et al., 1996- Phytopathology, 86: S85). Para não haver a condenação de mais de 50% dos campos mineiros, a tolerância do índice de PVY nas sementes teve de ser aumentada para 12% no período de 1996 a 1998.

Em Minas Gerais, onde o PVYNBr foi primeiro detectado, devido ao intensivo monitoramento do índice de vírus nas sementes importadas, os produtores experimentaram um período de grande apreensão, pois foram alertados para o fato de que os países exportadores dessas cultivares poderiam não ter condições de atender à demanda brasileira, caso insistissem em receber material isento dessa virose. Entretanto, o que se observou foi o contrário, ou seja, os países exportadores se esforçaram por mandar sementes isentas de vírus e, em dois anos, foi possível abaixar novamente a tolerância de incidência de PVY nas sementes mineiras, de 12 para 4%, sem prejudicar o agricultor. Por outro lado, os produtores, que julgavam não serem capazes de sobreviver sem essas cultivares, diminuíram naturalmente a sua utilização. Em 1995 foram analisados no programa oficial de certificação de Minas Gerais 12.683 tubérculos da cultivar Achat e 9.078 da cultivar Baraka, em 1997 esse número caiu para 6.023 tubérculos da cultivar Achat e 630 da cultivar Baraka e em 2002 para apenas 233 tubérculos de Achat e 869 de Baraka. Desse modo, essas cultivares praticamente foram substituídas por outras, sem prejuízo para o mercado brasileiro de sementes.

Pode-se notar, portanto, que o mercado acaba se acomodando automaticamente às exigências vigentes, não devendo o agricultor brasileiro ser intimidado pelo receio de que não conseguiria encontrar fornecedor, para suprir a sua demanda de sementes de boa qualidade. Mesmo que isso seja verdade, novos fornecedores e cultivares despontam todos os dias no mercado internacional, podendo ocupar o lugar daquelas que às vezes parecem insubstituíveis. Porém, uma vez introduzido um novo patógeno no Brasil, esse sim será um fato irreversível. O impacto da introdução do isolado PVYNBr pode ser sentido ainda nos dias atuais, pois freqüentemente aparecem tubérculos semente com incidências desse isolado superiores a 50%. Todas as vezes que essa alta incidência de PVY é observada nas sementes mineiras, testes adicionais revelam que se trata do isolado PVYNBr, ao passo que os outros isolados do PVYN , e mesmo as outras estirpes de PVY, nunca ultrapassam os 10 a 15% de incidência nas sementes certificadas condenadas. Por causar um mosaico leve, o PVYNBr geralmente não é detectado nos testes visuais da pré-cultura, nas plantas recém-brotadas, enganando os sistemas de certificação que não utilizam a sorologia para a diagnose do PVY. Quando a planta infectada se torna adulta, apresenta diminuição e enrugamento da área foliar e estiolamento, que a leva a apresentar acamamento no campo, além de apresentar encurtamento dos estolões. A exemplo do que aconteceu com as cultivares Achat e Baraka, Souza Dias et al. (1997; Fitop. Bras., 20:320) têm alertado para a alta incidência de PVY nas sementes da cultivar Atlantic, importadas do Canadá. Segundo esses autores, estirpes como a PVYNTN, e mesmo outros vírus como o mop-top (Potato mop-top virus- PMTV), que provocam necroses e/ou deformações nos tubérculos e os inviabilizam para comercialização, poderiam ser introduzidas, onerando ainda mais o trabalho do bataticultor brasileiro.

Recentemente foi publicada a instrução normativa nº 18, que se encontra em vigor desde novembro de 2001, e estabelece índices para os vírus X (Potato virus X – PVX) e S (Potato virus S – PVS) que foram considerados muito baixos pelos países exportadores de sementes para o Brasil. Vale lembrar que esses vírus nunca apareceram em incidências detectáveis, nos campos brasileiros de produção de sementes, e só foram inseridos na tabela de pragas não quarentenárias regulamentadas porque alguns países, que passariam a exportar sementes para o Brasil, costumam trabalhar com altos índices de PVX e PVS em suas sementes. Sabe-se que esses vírus podem causar perdas significativas, principalmente se associados a outros vírus que estão presentes em nossas lavouras, como o PVY. Portanto, deve-se considerar se convém ao Brasil aumentar os índices de PVX e PVS em suas sementes, para aceitar sementes de má qualidade de outros países, ou se esses países devem se adequar para vender ao Brasil as sementes com a qualidade que o bataticultor precisa. O Canadá, que não foi capaz de exportar sementes para o Brasil no início de 2002, por não ter material compatível com os índices previstos na portaria nº18, já se adaptou e deverá enviar sementes para o Brasil nesse final de ano. Portanto, o produtor brasileiro não deve se intimidar com os “maus pressentimentos” dos comerciantes que afirmam que, caso o Brasil insista em adquirir material com baixo índice de patógenos, não encontrará fornecedor no mercado internacional. Aliás, na sua tão propalada mudança de paradigma, um importante componente que deve ser considerado pelos bataticultores é a coragem de fazer valer os seus direitos, eliminando a crença de que não interessa aos outros países vender para o Brasil, caso ele seja exigente, porque ele representa apenas uma pequena fatia do mercado internacional. Essa é uma das mais hábeis artimanhas do mais forte para garantir o mercado entre os mais fracos, ou seja, a imposição através do medo.

Outra medida fundamental que deve ser tomada pelo bataticultor é monitorar a qualidade das sementes que ele recebe do exterior. Investir nessa monitoração significa muito mais do que um gasto extra para o produtor: é a garantia de que ele não será enganado, conforme acontece freqüentemente. Se isso não puder ser feito da forma prevista na portaria nº 18, deve-se estudar urgentemente medidas alternativas, porém eficazes.

Um país como o Brasil, com o tamanho e os recursos que possui, e com a extrema capacidade adaptativa do seu povo, não precisa se submeter a determinados tipos de pressão. Pois com toda a certeza, para ser o país do futuro, primeiramente temos de ser o país do presente, que respeita e se faz respeitar.

Antonia dos Reis Figueira,
Univ. Federal de Lavras

* Este artigo foi publicado na edição número 17 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de dezembro/2002, janeiro/2003. ver mais artigos
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