Viúva Negra

O canibalismo é uma forma especial de predação em que o predador mata presas pertencentes à sua mesma espécie. Esse comportamento evoluiu para reduzir a competição entre os indivíduos da população por alimento, abrigo e locais de reprodução existentes em quantidade limitada no meio ambiente.

Observa-se canibalismo entre as larvas da lagarta-do-cartucho do milho, onde o desenvolvimento de vários indivíduos na mesma espiga ou no mesmo cartucho da planta é evitado com lagartas maiores ou mais fortes predando as menores. O canibalismo nessa espécie é observado mesmo em condições de laboratório, onde as lagartas são alimentadas com dieta artificial. As lagartas têm que ser criadas individualmente para reduzir a mortalidade devido ao canibalismo, já que o objetivo de uma criação é obter-se o maior número possível de insetos com qualidade compatível à encontrada na natureza. Imaturos de gafanhotos também praticam o canibalismo, de modo que apenas os mais fortes sobrevivam e cheguem à idade adulta para se reproduzir. As fêmeas de louva-a-deus apresentam o hábito de devorar os machos durante a cópula, onde os parceiros sexuais são decapitados. Mesmo assim, a inseminação da fêmea é conseguida com sucesso.

Canibalismo em aracnídeos

O canibalismo é particularmente freqüente entre os aracnídeos. As fêmeas predam uma boa proporção dos imaturos que emergem do saco de ovos. Com isso, há redução da competição pelo alimento. Os imaturos que sobrevivem são os mais espertos ou os mais ágeis e assim a seleção natural preserva indivíduos que têm melhores chances de se tornarem adultos mais férteis e capazes de conseguir com sucesso parceiras sexuais - e assim deixar descendentes. Com isso, os genes que condicionam esperteza ou agilidade em filhotes tendem a se espalhar na população dos aracnídeos.

Várias espécies de aranhas são conhecidas popularmente como viúvas negras, pois como no caso de louva-a-deus, possuem o hábito de devorar os machos após o acasalamento. Esse comportamento lhes garante uma fonte extra de proteínas para a maturação dos ovos.

O canibalismo praticado pelas fêmeas teria evoluído a partir da existência de uma população de fêmeas que predavam e de outra, em que os indivíduos não predavam os machos. As que predavam produziam descendentes mais vigorosos, por terem se alimentado com proteínas valiosas procedentes do organismo dos machos, foram preservadas durante a seleção natural; as fêmeas que não praticavam o canibalismo teriam deixado descendentes mais fracos que foram eliminados pela seleção natural.

O papel biológico do macho termina com a fecundação dos ovos e a partir disso o sucesso da reprodução depende exclusivamente da fêmea, a não ser no caso de machos que propiciam proteção dos ovos e da prole. Há espécies de aranhas cujos machos morrem após a primeira e única cópula e outras em que os machos copulam várias vezes. Descobriu-se que os machos que morrem após a única cópula não dispõem de energia suficiente para empreender um segundo ou terceiro encontro sexual, por isso não estão desperdiçando oportunidade de inseminar novas fêmeas e de deixar mais descendentes. O investimento sexual é aplicado integralmente na única cópula. As fêmeas devoram os machos após a cópula; se existiram, no passado evolutivo das aranhas, fêmeas que devoravam os machos antes da efetivação da cópula, essas fêmeas não teriam deixado descendentes por não terem sido fecundadas.

Fugindo da predação

Contudo, várias espécies de machos desenvolveram comportamentos especiais que lhes permitem escapar da predação após o acasalamento. O macho da aranha Xysticus cristatus amarra a fêmea com fios de seda antes de copulá-la e trata de fugir depressa após esse evento, antes que a parceira sexual se desembarace dos fios. O macho de outra espécie, Meta segmentata, oferece um inseto capturado envolto em seda como “presente” à sua pretendente. Enquanto a fêmea está entretida com o presente, copula rapidamente e trata de fugir antes que ela tome conhecimento do que está se passando. Nas aranhas dos gêneros Gasteracantha, Micratena e Eriophora, o macho constrói o “fio de acasalamento” ligado à teia da fêmea. Ele toca esse fio como se fosse um instrumento musical de corda para excitar a fêmea sexualmente e fazê-la tomar posição receptiva. Enquanto a fêmea está encantada com a corte, o macho copula rapidamente e trata de fugir antes que ela perceba que foi copulada.

As estratégias de escape do canibalismo praticado pelas fêmeas teriam evoluído em machos que copulam mais de uma vez, portanto com alta probabilidade de ter encontros sexuais com outras fêmeas. Sobrevivendo à primeira cópula e fecundando mais de uma fêmea, esses machos têm chances de passar seus genes para os corpos de um maior número de descendentes. Produzir o maior número possível de descendentes vigorosos e férteis é objetivo universal de todos os organismos vivos que se reproduzem, com exceção das operárias estéreis em insetos sociais e em operárias de espécies de roedores sociais que vivem no interior de galerias escavadas no solo.

O conhecimento dessas particularidades do comportamento das aranhas tem importantes implicações para o controle biológico, pois os aracnídeos são predadores de insetos. A exemplo do que se realiza em outras regiões do mundo, as aranhas poderiam ser criadas massalmente visando à liberação em campos infestados pelos insetos-praga. Para se conduzir uma criação de artrópodos em condições de laboratório é preciso propiciar condições favoráveis à ocorrência do acasalamento, pois se não houver a reprodução, a criação se extinguirá. É preciso proporcionar também espaço para a fuga e esconderijo aos machos após a cópula, a fim de que os mesmos sobrevivam e continuem disponíveis para fecundar novas fêmeas. Como a fêmea preda parte dos imaturos, os sacos de ovos devem ser separados das mães, para se garantir a sobrevivência integral da prole, pois em caso contrário, sobrevivendo poucos imaturos que escaparam do canibalismo exercido pelas fêmeas, a criação demorará a aumentar, não podendo fornecer aranhas em número suficiente para liberação em campo.

Maria Aico Watanabe
Embrapa Meio Ambiente

* Este artigo foi publicado na edição número 06 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de fevereiro/março de 2001. ver mais artigos
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