Volume correto de aplicações em pulverização

A redução do volume de aplicação atende aos anseios do setor agrícola por maior rendimento operacional de pulverizadores com eficiência na aplicação de produtos fitossanitários, economia e sustentabilidade, mas exige maior entendimento e uso dos princípios da Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários para garantir a eficiência da operação.

As regiões produtoras de grãos no Brasil mantêm 56% de suas áreas cultivadas sob Plantio Direto (PD). Este sistema preconiza o cultivo mínimo do solo associado à formação de palhada por plantas de cobertura. Portanto, antes da implantação e o estabelecimento da cultura subsequente faz-se importante a dessecação eficiente das plantas de cobertura ou da vegetação espontânea para que esta não se torne um problema no estabelecimento ou durante o ciclo da cultura sucessora. Neste contexto, o glifosato tem sido o herbicida mais utilizado nas aplicações.

O sucesso da dessecação está relacionado não só com pulverizadoresde alto nível tecnológico, mas também com a recomendação apropriada de pontas de pulverização, volume de aplicação e conhecimento das características do herbicida e da cobertura vegetal a ser controlada. No entanto, justificado pela pressão mercadológica exercida na cadeia produtiva agrícola, constata-se em campo práticas na aplicação de herbicidas que não são embasadas nos princípios da Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários.

O sucesso da dessecação está relacionado não só com pulverizadores de alto nível tecnológico, mas também com a recomendação apropriada de pontas de pulverização.
O sucesso da dessecação está relacionado não só com pulverizadores de alto nível tecnológico, mas também com a recomendação apropriada de pontas de pulverização.

Atualmente, devido ao déficit de máquinas em relação ao tamanho das áreas cultivadas no Brasil e de mão de obra capacitada, a redução do volume de aplicação é uma das alternativas encontradas pelos produtores de grãos para maximizarem o uso de pulverizadores, principalmente de autopropelidos que possuem alto custo de aquisição. Assim, ao aumentarem a capacidade operacional (ha/h) com a redução do volume de aplicação (L/ha), diminuem o custo operacional. Entretanto, volumes de aplicação e tamanhos de gotas podem influenciar na eficiência da aplicação e na eficácia de controle das coberturas vegetais.

Pesquisas recentes com herbicida sistêmico (glifosato) no sudoeste do estado de Goiás (UFG-Regional Jataí) constataram que o volume de calda reduzido (50L/ha) com uso de gotas muito grossas com indução de ar foi eficiente no controle de braquiária. Já com o uso de gotas finas, ao reduzir o volume de aplicação pode incorrer em perda de eficiência no depósito do ativo e, consequentemente, redução no controle da cobertura vegetal (Almeida, 2014).

A associação dos herbicidas glifosato (sistêmico) e saflufenacil (de translocação restrita) com o volume de calda de 50L/ha controlou eficientemente plantas de buva com até 40 centímetros de altura. Embora, volumes de 150L/ha e 200L/ha proporcionaram menores porcentagens de plantas com rebrote com ambos os tamanhos de gotas (fina e extremamente grossa) em plantas com altura acima 40 centímetros. Neste caso vale salientar que o saflufenacil é recomendado para plantas com até 40cm. No entanto, lembra-se que muitas das espécies de plantas daninhas possuem germinação escalonada. Assim, o volume calda, ao pulverizar herbicidas com translocação restrita, poderá ser o viés da eficiência da aplicação e controle das plantas (eficácia) em momentos emergenciais que se precisa dessecar para realizar a semeadura da cultura (Almeida, 2014).

Ao se tratar de dessecação de áreas com vegetação espontânea (plantas-daninhas) com diferentes arquiteturas, ao reduzir o volume de aplicação implicará redução da cobertura por gotas nos terços inferiores. Assim, ao aplicar herbicidas de translocação restrita (herbicida de contato) ou de translocação apoplástica/acropetal (via xilema) pode-se lançar mão do uso de barras de pulverização com assistência de ar ou pontas de jato plano duplo objetivando incrementos de cobertura nos terços inferiores. Portanto, ao manter uma cobertura suficiente evita-se a incidência de plantas com rebrote (Almeida, 2014).

Em aplicações via líquida, quando há condições favoráveis de umidade, temperatura e ventos, gotas menores proporcionarão maior cobertura do alvo. Por outro lado, em condições adversas, tais gotas finas ou mesmo gotas médias estarão sujeitas à deriva e à evaporação, culminando em perdas da calda aplicada e redução de eficiência da aplicação. Além disto, podem expor os operadores à calda e aos riscos de intoxicação e agravar o problema da poluição ambiental (Ferreira, 2009). De acordo com organizações internacionais como a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), as condições meteorológicas limites para uma pulverização são umidade relativa do ar mínima de 55%, velocidade do vento de 3,2km/h a 9,6km/h e temperatura abaixo de 30ºC (Ferreira, 2009). Porém, em regiões como no Centro-Oeste do Brasil (Bioma Cerrado) as condições meteorológicas encontradas durante períodos diurnos (manhã e tarde) normalmente estarão fora dos limites sugeridos pela FAO para uma aplicação com menores riscos de perdas (Almeida et al, 2014).

Caracterização do depósito insuficiente de glyphosate em Brachiaria ruziziensis constadada pela falha no controle aos 10 dias após a aplicação (DAA) com o volume de calda de 50 L ha-¹ e classe de gotas fina. Jataí-GO, outubro, 2013
Caracterização do depósito insuficiente de glyphosate em Brachiaria ruziziensis constadada pela falha no controle aos 10 dias após a aplicação (DAA) com o volume de calda de 50 L ha-¹ e classe de gotas fina. Jataí-GO, outubro, 2013
Caracterização de desuniformidade de distribuição volumétrica de calda na barra de pulverização equipada com pontas de cone vazio ao aplicar glyphosate + saflufenacil em Canyzas sp. com o volume de calda de 50 L ha-¹ e classe de gotas fina. Jataí-GO, outubro, 2013
Caracterização de desuniformidade de distribuição volumétrica de calda na barra de pulverização equipada com pontas de cone vazio ao aplicar glyphosate + saflufenacil em Canyzas sp. com o volume de calda de 50 L ha-¹ e classe de gotas fina. Jataí-GO, outubro, 2013

Ao lançar mão de volumes de calda reduzidos aumentam-se as preocupações com as condições atmosféricas desfavoráveis, pois perdas mínimas por deriva nesta situação podem resultar em deposição insuficiente do ingrediente ativo nas plantas a serem dessecadas.

No entanto, pode-se aplicar o glifosato em períodos alternativos (madrugada e noite) sem radiação solar, pois nestes períodos normalmente predominam condições atmosféricas favoráveis à aplicação (temperatura, umidade relativa e velocidade do vento), com perdas possivelmente menores do potencial de ação do herbicida (Almeida, 2014). Vale salientar que moléculas que inibem a ação da Protox ou PPO, mesmo ao serem aplicadas eficientemente em períodos noturnos têm sua eficácia de controle reduzida. Isso ocorre provavelmente devido à redução da quantidade de radicais livres produzidos no citoplasma das células, no período sem radiação solar. Tal hipótese é evidenciada ao comparar aplicações diurnas (matutino e vespertino) e noturnas de saflufenacil em plantas de buva (Ferro, 2015).

Em aplicações noturnas, além de possível redução da eficácia por possível metabolização da molécula pela planta a ser dessecada, há outro fator a ser considerado, o molhamento das plantas. Este fenômeno ocorre pela condensação de água nas folhas (orvalho). Por fim, o molhamento das plantas por orvalho poderá resultar em duas formas de perda do produto, uma por diluição, a ponto de atrapalhar penetração na folha e consequentemente a sua absorção, e outra por escorrimento. Neste caso, lançar mão de volumes de caldas reduzidos poderá diminuir o potencial de ocorrência de tais perdas em aplicações noturnas, devido ao aumento da concentração de produto na calda ao reduzir o volume de aplicação para uma mesma dosagem do produto.

A redução do volume de aplicação atende aos anseios do setor agrícola por maior rendimento operacional de pulverizadores com eficiência na aplicação de produtos fitossanitários, economia e sustentabilidade. Entretanto, ressalta-se a importância do entendimento e uso dos princípios da Tecnologia de Aplicação de Produtos Fitossanitários e avançar nos quesitos básicos como manutenção, regulagem e calibração de pulverizadores. Portanto, para que haja e mantenham-se o progresso e a sustentabilidade da produção agrícola, é fundamental a transferência de informações por meio de treinamentos frequentes de recursos humanos.

Figura 1 - Condições climáticas no decorrer de um dia em Jataí (GO), no Centro-Oeste do Brasil (Bioma Cerrado). 6A. Caso realizar aplicações somente em períodos que haja irradiância totalizariam quatro horas e 20 minutos de trabalho em condições preconizadas pela FAO. 6B. Ao aplicar em períodos com e sem irradiância, totalizariam 16 horas de trabalho em condições preconizadas pela FAO. (Esquema: Dieimisson Paulo Almeida)
Figura 1 - Condições climáticas no decorrer de um dia em Jataí (GO), no Centro-Oeste do Brasil (Bioma Cerrado). 6A. Caso realizar aplicações somente em períodos que haja irradiância totalizariam quatro horas e 20 minutos de trabalho em condições preconizadas pela FAO. 6B. Ao aplicar em períodos com e sem irradiância, totalizariam 16 horas de trabalho em condições preconizadas pela FAO. (Esquema: Dieimisson Paulo Almeida)

Tecnologia de aplicação 

No dia a dia do campo pode-se lembrar e aplicar o conceito da Tecnologia de Aplicação no tratamento fitossanitário por meio de quatro questionamentos:

1. Quem se quer controlar (- alvo, - biologia)?

2. Onde ele está (- organografia da planta, - comportamento)?

3. O que aplicar (produto possui eficácia comprovada)?

4. Como aplicar eficientemente (Aplicação Via líquida: - características físico-químicas dos produtos e das caldas; - morfologia e anatomia da superfície onde se pretende depositar as gotas, - com gota fina ou grossa, - qual o volume de calda)?

Assim, fica evidente que antes de realizar a aplicação de produtos fitossanitários há uma demanda de conhecimento da conjuntura do sistema de produção como um todo.

Volume de aplicação ideal

No que se refere a questionamentos sobre o volume de aplicação (L/ha) ideal, enaltece-se, não há uma exata recomendação sobre qual empregar e, fica a sugestão, antes da escolha, responder a quatro perguntas básicas:

1. Qual o tamanho da superfície a cobrir?

2. Qual é o volume máximo que a planta pode reter?

3. Qual o volume necessário para o controle do problema fitossanitário?

4. Como deve ser a distribuição das gotas nas áreas para que o alvo receba o depósito suficiente em quantidade e qualidade (uniformidade da cobertura) do produto fitossanitário? (Ferreira 2014).

 

Dieimisson Paulo Almeida, Marcelo da Costa Ferreira, Nedta/Unesp; Paulo César Timossi, LPD/UFG; Henrique Borges Neves Campos, Lapda/Unesp


Artigo publicado na edição 167 da Cultivar Máquinas.


ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura