Auxílio da genética

  • Página 14 |
  • Jan 2019 |
  • Carlos A. Arrabal Arias, Clara B. Hoffmann-Campo, Beatriz S. Corrêa-Ferreira e Ivani de O. Negrão Lopes, Embrapa Soja

A cultura da soja na safra 2017/18 ultrapassou os 35 milhões de hectares cultivados no Brasil e precisa manter sua produtividade de grãos, mesmo sob ataque de doenças e insetos-praga. Dentre as principais pragas da soja, os percevejos se destacam pelos danos causados diretamente nas sementes ainda em fase de enchimento até sua maturação, quando inserem seu estilete na semente e secretam enzimas para facilitar sua alimentação. Além dos danos diretos, ocorrem os indiretos, causados por patógenos que colonizam as sementes nos pontos das picadas. Dentre as espécies de percevejos de maior importância para a soja, o percevejo-marrom Euschistus heros tem se destacado nas últimas safras com populações elevadas e pelo potencial de dano para a cultura, além de outras espécies como o percevejo-verde-pequeno Piezodorus guildinii, o percevejo-barriga-verde Dichelops melacanthus e o percevejo-verde, Nezara viridula, que compõem o complexo de insetos sugadores de grãos.

Em lavouras severamente atacadas por essas espécies, os danos diretos, dependendo do estádio de desenvolvimento das plantas, podem provocar o abortamento de vagens ou a formação de vagens com sementes menores e malformadas (enrugadas e chochas), reduzindo, consequentemente, a qualidade fisiológica das sementes produzidas (menor germinação e vigor), podendo, inclusive inviabilizar áreas para a produção de sementes. Somando esses danos diretos aos indiretos causados pela presença de patógenos, há ainda o apodrecimento de sementes e vagens, atraso na maturação e aumento na ocorrência de retenção foliar, provocando problemas para a colheita mecânica e reduzindo a produtividade e a qualidade de grãos.

ESTRATÉGIAS DE MANEJO E
A RESISTÊNCIA GENÉTICA

Dentre as estratégias de manejo do complexo de percevejos, o controle químico é o método usualmente utilizado pelos agricultores. Na maioria das vezes essa tática de controle é empregada sem o devido diagnóstico dos níveis populacionais desses insetos nas lavouras, antecipando sem necessidade e aumentando o número de aplicações de inseticidas e, consequentemente, os custos de produção. Além disso, o restrito número de moléculas eficientes para o controle de percevejos e a exposição contínua dessas populações aos mesmos inseticidas têm promovido a seleção de indivíduos resistentes principalmente para o percevejo-marrom, reduzindo a eficiência desta ferramenta para o manejo adequado das populações desses insetos.
Uma ferramenta extremamente útil para o manejo dos percevejos reside no uso de cultivares resistentes. A resistência genética é o método mais simples e barato para os agricultores, pois reduz os custos de produção, traz benefícios ambientais e interage positivamente com os demais métodos de controle. Infelizmente, o número de cultivares resistentes registradas no Brasil é pequeno e restrito a algumas regiões específicas (cultivares IAC-100, IAC-17, IAC-24 e BRS 391). Por ser uma característica com herança mais complexa (Godoi & Pinheiro, 2009, Gen Mol Biology; Souza & Toledo, 1995, Braz J Genet), o desenvolvimento de cultivares de soja resistentes e comercialmente competitivas tem exigido grande esforço das instituições de pesquisa. Considerando uma taxa anual de crescimento da produtividade de 32,7kg/ha no Brasil ou 1,42% ao ano (Balbinot Júnior et al, 2017, Boletim de P&D/Embrapa Soja) fica fácil perceber o desafio de inserir essa resistência com herança poligênica em cultivares competitivas. Felizmente, apesar dessas dificuldades técnicas, algumas instituições como a Embrapa têm conseguido dar sua contribuição, já com uma cultivar convencional registrada além de linhagens derivadas das diversas plataformas trabalhadas na Embrapa (Convencional, RR e Intacta) com alto potencial produtivo e diferentes níveis de resistência aos percevejos (em fase de registro e validação).

CONTRIBUIÇÕES DA RESISTÊNCIA GENÉTICA
A cultivar BRS 391 é um bom exemplo. Trata-se de material precoce (GM=6.4) com adaptação para o Oeste, o Norte e o Noroeste do Paraná, o Médio Paranapanema e o Sudoeste de São Paulo, e o Sul, o Centro-Sul e o Sudoeste do Mato Grosso do Sul (RECs 201, 202 e 204), com teores médios de 20,7% de óleo e 39,3% de proteína. É resistente às principais doenças da soja (mancha olho-de-rã, cancro da haste, pústula bacteriana e podridão radicular de fitóftora), nematoides de galhas (M. javanica e M. incognita) e percevejos. Ensaios de validação do tipo “lado a lado”, com parcelas de dois hectares de cada material, realizados em três áreas de produtores na safra 2014/15, apresentaram rendimentos entre 5% e 44% superiores aos da cultivar BRS 232, atingindo produtividade de 5.910kg/ha em Florínea, São Paulo (Tabela 1). Nessas localidades, as populações de percevejos foram monitoradas com o pano de batida e o controle químico realizado quando a densidade populacional de percevejos atingiu o nível de quatro percevejos por metro, portanto, o dobro do nível de ação para lavoura comercial. 
O primeiro impacto direto do uso da genética está na redução do número de aplicações de inseticidas. Em Cândido Mota foram realizadas duas aplicações na BRS 391 contra quatro aplicações na BRS 232 (Tabela 1 e Figura 1). Em Florínea e Andirá foram realizadas uma e duas aplicações, respectivamente, nas duas cultivares (Tabela 1). Entretanto, mesmo com aplicações no nível de quatro percevejos por metro, a BRS 391 apresentou maior rendimento e menor percentual de sementes picadas e inviáveis em relação à BRS 232 (Tabela 1), indicando que a cultivar suscetível precisaria de pelo menos uma aplicação adicional para evitar perdas. 

Figura 1 - Flutuação populacional de percevejos em cultivares de soja nos municípios de Florínea e Cândido Mota, São Paulo, na safra 2014/15. As setas indicam o momento das aplicações de inseticidas segundo o nível crítico (NC = 4 percevejos / m) para cada cultivar


O segundo impacto dessa genética superior está na melhoria da qualidade fisiológica das sementes produzidas. A BRS 391 apresentou vigor e viabilidade superior ou igual ao padrão BRS 232 em Andirá e Florínea, respectivamente, proporcionando menor índice de sementes picadas e inviabilizadas pelos percevejos (Tabela 1). Na área de Cândido Mota não houve diferença entre as cultivares pela análise do tetrazólio mesmo com duas aplicações a menos na BRS 391 (Tabela 1 e Figura 1).


A partir dessas validações realizadas em áreas comerciais, constata-se que a cultivar BRS 391 tolera o dobro do nível de ação preconizado pelo manejo integrado de pragas, requerendo menor uso de inseticidas.

Linhagens convencionais BRI 13-5301, BR12-10309, RR BRRI13-5533 e BRRI14-1417, em Londrina, PR, safra 2017/18


PERSPECTIVAS EM CURTO PRAZO
Tanto no programa convencional como nos programas RR e Intacta já existem linhagens com padrão de resistência/tolerância aos percevejos superior ou igual ao da cultivar BRS 391. Essas linhagens exibem características agronômicas de ciclo e potencial produtivo para atender outras regiões sojícolas, como as macrorregiões 1 e 3. Em ensaios de competição em rede, as novas linhagens já tiveram seu potencial produtivo comprovado e devem passar por um processo de validação em áreas comerciais para avaliação do impacto sobre o manejo de populações de percevejos. Dentre as convencionais destacam-se as linhagens BRI13-5301 e BR12-10309, a última também resistente à ferrugem. Para o programa RR, os destaques são BRRI13-1533 e BRRI14 1417 e para o Intacta, os genótipos BRB15-232859 e BRB14-210725. Dessa forma, independentemente da plataforma desejada pelo agricultor, pode-se afirmar que não faltarão boas opções de cultivares competitivas, mas com atributo adicional de oferecer aos agricultores uma ferramenta extra para o manejo de populações de percevejos no Brasil.

Carlos A. Arrabal Arias,
Clara B. Hoffmann-Campo,
Beatriz S. Corrêa-Ferreira e 
Ivani de O. Negrão Lopes,
Embrapa Soja 

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    Voltou para ficar

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