Avaliação de semeadoras em operações de culturas de inverno

  • Página 36 |
  • Jun 2020 |
  • Ruy Casão Junior, Hevandro Colonhese Delalibera , Alexandre Leôncio da Silva , Audilei de Souza Ladeira e André Luiz Johann

As semeadoras em fluxo contínuo, por trabalharem com espaçamentos estreitos, não possuem todos os componentes para a realização de todas as funções no solo, como ocorre nas semeadoras de precisão. Assim, um disco duplo desencontrado ou defasado executa o corte da palha e abre o sulco para a deposição de fertilizante e sementes conjuntamente. Os componentes de aterramento e compactação são conjugados, mesmo porque não há muito espaço entre eles. A dosagem de sementes pode variar entre dez e 200 sementes por metro linear, dependendo da espécie e da recomendação agronômica, e o fertilizante cai no sulco praticamente junto às sementes (Casão Junior, 2016).

As sementes das espécies de plantas alimentícias e plantas de cobertura de inverno variam quanto ao formato, à uniformidade, à rugosidade e à dimensão. São encontrados mais frequentemente o trigo e a aveia, mas também ocorre nessas regiões o centeio, triticale, cevada, nabo, entre outras. Essas máquinas também são apropriadas para semear a cultura de arroz e algumas plantas de cobertura típicas de verão como a moha e o milheto, e quando acopladas com distribuidores específicos, semeiam também braquiárias, as quais estão em expansão nas regiões Sul e mais ao Norte do Brasil, na integração lavoura/pecuária ou simplesmente como planta de cobertura.

No estudo conduzido pelo pesquisador voluntário do Iapar, Ruy Casão Junior, juntamente com outros pesquisadores da instituição, em 2018, foram avaliados 38 modelos de semeadoras em propriedades agrícolas, correspondendo a modelos de dez fabricantes diferentes, estudando as variáreis de qualidade da semeadura a campo.

No campo, as semeadoras em fluxo contínuo foram estudadas com 43 variáveis que possam caracterizar seu desempenho na implantação das culturas, assim como suas características construtivas e as de manejo da propriedade.

Das semeadoras de fluxo contínuo estudadas, a média do número de linhas foi de 23,9, sendo que a maior possuía 65 linhas e a menor, 13. O espaçamento variou bastante, apresentando média de 17,6cm e coeficiente de variação (CV%) de 15,3%. O menor espaçamento usado foi de 15,5cm e o maior, de 30cm. Este em função de que o produtor semeava aveia sobre densa cobertura vegetal de milheto, o qual optou retirar as linhas intermediárias da máquina.

O trigo esteve presente em 27 casos, o triticale em três, a cevada em quatro e a aveia preta ou branca em quatro casos. O tempo médio de uso do sistema plantio direto (SPD) dos produtores entrevistados foi de 21 anos, sendo que o mais antigo usava o SPD há 31 anos e o mais recente com 2,5 anos. Dos 38 produtores, 30 somente usavam o SPD, mas mobilizavam o solo nas áreas de manobra e onde há compactação pelo tráfego de pulverizadores. Os oito demais preparavam o solo periodicamente em média de 4,2 anos, predominantemente com escarificadores. Quanto ao manejo da vegetação, 33 produtores não efetuavam essa prática, ou seja, a própria colhedora fazia essa operação, três usavam a roçadora no milho e dois usavam rolo faca.

Das máquinas estudadas, 18 podiam ser consideradas com menos de dez anos de uso, 13 com idade média entre dez a 20 anos e sete constituindo-se de máquinas velhas com mais de 20 anos. Quanto à topografia do terreno em que as máquinas trabalharam, constatou-se que 12 áreas eram planas, 17 suavemente onduladas e nove áreas eram onduladas.

No momento da semeadura, 13 máquinas trabalharam sobre o solo seco, pois no mês de abril e parte de maio não choveu no Paraná. Três produtores semearam no início de maio e aguardaram duas semanas pelas primeiras chuvas, oito aguardaram uma semana e dois semearam um dia antes da chuva. As máquinas que semearam a partir do dia 16 de maio, o fizeram com o solo na consistência friável.

Quanto ao tratamento de sementes, 26 produtores semearam com sementes tratadas e 12 com sementes sem tratamento. Três das quatro semeaduras de aveia não trataram suas sementes. A porcentagem média de germinação das sementes foi de 91,2%, considerando que foi constatado um caso com somente 53% de germinação. No caso do vigor das sementes, a média foi de 85%, considerando que o menor caso citado apresentou 28% de vigor. Essa amostra foi descartada para efeito de análise da emergência das plântulas.

ANÁLISE DOS ERROS DE REGULAGEM DE SEMENTES E FERTILIZANTE

Durante as avaliações foi perguntado aos produtores qual a regulagem efetuada em suas semeadoras quanto à dosagem usada para sementes e fertilizante. Esse parâmetro foi conferido com a amostragem efetuada em três linhas num percurso de 25m. Pôde-se constatar que a dosagem de sementes e fertilizante nem sempre se aproximava do desejado.

Os modelos avaliados tinham entre 13 e 65 linhas de plantio de culturas de inverno
Os modelos avaliados tinham entre 13 e 65 linhas de plantio de culturas de inverno


A dosagem média desejada de sementes para as 38 máquinas foi de 77,5 sem/m linear. A população média determinada de sementes (sementes/m) para 38 máquinas foi bem próxima desse valor (76 sem/m). No entanto, a diferença entre a população desejada com a determinada de cada máquina variou de 0,73% a 30,9%, com uma média de 10,7% e Coeficiente de Variação (CV%) de 71,6%. Pôde-se constatar com isso que dos 38 produtores, 29% estão errando de 10% a 20% na regulagem de sementes e 15,8% erraram mais do que 20%; 55,2% dos produtores erraram menos que 10% na regulagem. A Figura 1 mostra como foram os erros médios na regulagem de sementes das semeadoras a campo.

Figura 1 - Porcentagem de erros na regulagem de sementes nas semeadoras de fluxo contínuo
Figura 1 - Porcentagem de erros na regulagem de sementes nas semeadoras de fluxo contínuo


Pode-se dizer que em média os produtores estão regulando medianamente suas semeadoras de fluxo contínuo, mas ainda há produtores errando muito, pois foram 44,8% os que erraram mais do que 10% do desejado na regulagem de sementes.

O mesmo foi observado para a regulagem de fertilizante, no qual a dosagem de fertilizante média desejada para 27 máquinas que usaram esse insumo foi de 255,8kg/ha. A dosagem média de fertilizante determinada para essas máquinas, também foi bem próxima desse valor (246,6kg/ha). No entanto, a diferença entre a dosagem desejada com a determinada de cada máquina variou de 0,31% a 52,3%, com uma média de 18,2% e CV% de 75,2%. Pôde-se constatar com isso que dos 27 produtores avaliados, 33,3% estão errando de 10% a 20% na regulagem de sementes e 37% erraram mais do que 20%. Foram somente 29,7% de produtores que erraram menos que 10% na regulagem. A Figura 2 mostra como foram os erros médios na regulagem de fertilizante das semeadoras a campo.

Figura 2 - Porcentagem de erros na regulagem de fertilizante nas semeadoras de fluxo contínuo
Figura 2 - Porcentagem de erros na regulagem de fertilizante nas semeadoras de fluxo contínuo


Pode-se dizer que em média os produtores pesquisados não estão regulando adequadamente suas semeadoras de fluxo contínuo, pois ainda há produtores errando muito na dosagem de fertilizante, sendo que foram 70,3% os que erraram mais do que 10% do desejado na regulagem.

EMERGÊNCIA DE PLANTAS E DESEMPENHO DAS SEMEADORAS

A dosagem de sementes esperada pelos 26 produtores analisados foi em média 155,5kg/há, que resultaria em uma população de 82,4 sementes/m. A quantidade média de sementes determinada chegou próximo a isso, com 80,1 sementes/m. No entanto, quando se analisou isoladamente cada semeadora, obteve-se um erro médio nas 26 máquinas de 10,7%. Esse fato já havia sido constatado quando da análise de todas as máquinas. Mostrando que os produtores devem melhorar na regulagem de suas máquinas.

O estande inicial médio obtido foi de 62,3 plântulas/m, o que resultou em 77,8% de emergência. Destaca-se que 11 máquinas semearam com o solo seco e as sementes ficaram no sulco de uma a duas semanas aguardando chuva e 15 máquinas semearam com solo friável, ou choveu logo em seguida. No entanto, não há nenhuma evidência de melhor emergência entre os dois grupos. Quem semeou no seco obteve em média 77,7% de emergência e quem semeou com o solo friável obteve 76,8% de emergência.

As máquinas foram avaliadas em diferentes condições de terreno e cobertura de solo
As máquinas foram avaliadas em diferentes condições de terreno e cobertura de solo


Considera-se que 76,9% das sementes eram tratadas, o peso médio de mil sementes foi de 33,6g. A porcentagem média de germinação das sementes foi de 94,7% e o vigor de 90,8%. Podendo-se considerar boa a qualidade das sementes de trigo e triticale, pois a pior amostra obteve 87% de germinação e 82% de vigor.

A porcentagem de cobertura do solo com palha foi determinada antes e após a passagem da semeadora. Havia em média 88% de cobertura antes e 74,8% depois. Analisando-se isoladamente a porcentagem de redução de palha de cada máquina, observou-se que na média geral a redução foi de 15,2%. Mostrando bom desempenho das máquinas brasileiras.

Constatou-se que duas das semeadoras não possuíam componentes para aterramento e compactação do solo sobre as sementes. Tratavam-se de modelos bem antigos e, em uma terceira máquina, também antiga, foram incrementadas uma corrente e viga de madeira para aterramento.

Observou-se que 84,4% das semeadoras apresentaram sulcos bem aterrados. Destaca-se que as duas semeadoras que não possuíam componentes aterradores/compactadores, apresentaram somente 8,3% e 30% de sulcos bem aterrados e a máquina que adicionou uma viga atrás, obteve 78,3% de sulcos bem aterrados, mostrando que ajudou na cobertura do sulco.

Das 26 semeadoras estudadas 53,8% apresentaram sementes expostas, mas em pequena quantidade, ou seja, a média foi de 0,55% de sementes expostas. As semeadoras que não possuíam aterradores/compactadores, não apresentaram sementes expostas, e a que tinha uma viga atrás apresentou 1,2% de sementes expostas. Destaca-se que a semeadora que apresentou maior porcentagem de sementes expostas obteve valor de somente 2,3%.

A velocidade média de trabalho das 26 máquinas foi de 8,94km/h. A média da temperatura do solo foi de 22,70C e a do ambiente de 240C.

A profundidade média das sementes foi de 3,67cm com CV% de 21,3%. Como essa profundidade foi determinada com oito repetições, calculou-se em cada caso o CV% dessa profundidade. Assim, o CV% médio das profundidades de sementes foi de 15,7%. Esse valor é importante, pois mostra como as sementes variaram sua profundidade dentro do sulco de semeadura. Destaca-se que o maior CV% foi de 33,7%. Considerando que a profundidade média dessa máquina foi rasa, de 2,44cm, e sabe-se que 95% das sementes permaneceram numa profundidade que variou de 1,62cm a 3,26cm. Assim, várias sementes ficaram muito rasas. Mesmo assim, não foram constatados sementes expostas e sulcos mal aterrados. O erro, nesse caso, parece ter sido de regulagem pelo produtor.

O mesmo foi feito para a profundidade do sulco, que apresentou média de 5,06cm (CV% = 10,1%) e CV% médio das profundidades dos sulcos de 15,1%. Destaca-se que o maior CV% foi de 48,2% (na mesma máquina anteriormente citada). Considerando que a profundidade média do sulco dessa máquina foi rasa, de 4,2cm, e sabe-se que 95% permaneceram numa profundidade que variou de 2,34cm a 6,21cm.

Foi possível identificar que a medida que houve aumento da velocidade de trabalho ocorreu tendência de redução da profundidade do sulco (R= -0,49). Fato bem conhecido na literatura e da experiência prática. A Figura 3 mostra a dispersão dos dados, justificada, principalmente pelo fato de que cada produtor regulou sua semeadora de forma personalizada.

Figura 3 - Profundidade média do sulco (cm) em função da velocidade de trabalho (km/h)
Figura 3 - Profundidade média do sulco (cm) em função da velocidade de trabalho (km/h)


Esses dados também foram analisados com o objetivo de encontrar grupos de produtores com certa similaridade. Desta forma, como conclusão final, dizer algumas coisas. A velocidade de trabalho é elevada, principalmente nos produtores muito experientes no sistema de plantio direto (25,6 anos), prejudicando a implantação da cultura, apesar de serem os que melhor regulam as máquinas. Os produtores menos experientes no sistema de plantio direto (14,6 anos) foram os que mais apresentaram erros na regulagem das semeadoras, quase que de forma generalizada. Assim, conclui-se que, embora o grande avanço das máquinas e dos produtores na implantação das culturas de inverno, há espaço para melhorar, e se houver maior preocupação com os cuidados na regulagem, a produtividade irá melhorar.

Ruy Casão Junior,

Hevandro Colonhese Delalibera ,

Alexandre Leôncio da Silva ,

Audilei de Souza Ladeira e

André Luiz Johann,

Iapar

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