Caderno Técnico: Ação protetora

  • Página 57 |
  • Out 2019 |
  • Guilherme Huller, Fabricio Packer e Rogerio Rubin, Corteva

Os fungicidas podem ser classificados como sítio-específicos ou multissítios de acordo com o modo pelo qual interferem no metabolismo dos patógenos. Fungicidas que atuam em uma única enzima ou ponto específico da via metabólica dos patógenos são os denominados sítio-específicos. Estes, em sua grande maioria podem ser absorvidos pelas plantas e apresentam propriedades sistêmicas em diferentes níveis.

Por outro lado, fungicidas multissítios (também chamados de protetores) são inibidores inespecíficos de distintos processos vitais, interferindo em diversas reações bioquímicas no metabolismo do patógeno simultaneamente – o que reduz consideravelmente a probabilidade de desenvolvimento de resistência.

Para o controle de doenças da cultura da soja tem-se disponível no mercado e com nível aceitável de eficácia, fungicidas sítio-específicos com os seguintes mecanismos de ação: inibidores da desmetilação (DMIs), metil benzimidazol carbamatos (MBC), inibidores da quinona externa (QoIs) e inibidores da succinato desidrogenase (SDHIs). Independentemente da cultura hospedeira ou patógeno em questão, o uso frequente e em larga escala de fungicidas com um único mecanismo de ação acarreta em gradual ou abrupto desenvolvimento de patógenos resistentes, já que uma única mutação no patógeno ou mesmo uma simples adaptação metabólica pode resultar em queda severa na eficácia do fungicida.

Observando o histórico da ferrugem da soja (Phakopsora pachyrhizi) no Brasil, é possível facilmente notar uma mudança gradual nos mecanismos de ação adotados para seu controle devido ao desenvolvimento de resistência e queda no controle obtido com fungicidas: nas safras de 2003/2004 até 2006/2007 os produtos DMIs foram amplamente utilizados e poucas safras mais tarde apresentaram queda gradual de eficácia, reduzida para 52% em alguns casos.

Então foi adotada a utilização de misturas (DMIs) e (QoIs), onde com dois distintos mecanismos de ação foram obtidos excelentes resultados de controle nas safras seguintes. Com níveis de controle satisfatórios e ampla utilização, próximo grave problema de resistência veio para QoIs na safras de 2012/2013 e 2013/2014. Desta vez e por conta do tipo de resistência desenvolvido pelo fungo para este grupo químico (denominada disruptiva) o susto foi maior: em pouquíssimo tempo uma mutação do fungo na posição 129 do citocromo b (F129L) estava distribuída em todo território nacional e tão logo isto ocorreu, a frequência de indivíduos apresentando tal mutação atingiu praticamente 100% acarretando novamente em queda na eficácia dos fungicidas disponíveis.

Com a chegada das carboxamidas (SDHIs), já associadas à QoIs inicialmente e posteriormente associadas à QoIs + DMIs e na safra 2015/2016 novamente uma surpresa, outra mutação no sítio específico de atuação das SDHIs na subunidade c do citocromo na posição I86F foi detectada e nas safras seguintes aumentou em frequência nas populações de Phakopsora pachyrhizi do Brasil.

É importante ressaltar que espécies de fungos podem apresentar diferentes mutações que afetam a eficácia dos SDHIs, como relatado pelo FRAC em dezembro de 2018 alertando para mutações identificadas em Corynespora cassiicola, fungo causador da mancha-alvo tanto na cultura da soja como no algodão.

Desta vez, isolados de C. cassiicola  apresentarm mutações nos sítios-alvo B-H278Y e C-N75S ocasionando redução na sensibilidade do fungo aos SDHIs. Neste cenário dinâmico, fungicidas protetores associados a sítio-específicos ganham força dentro da estratégia de manejo no combate ao complexo de doenças da soja, principalmente pelos notáveis incrementos de controle obtidos em trabalhos de pesquisa conduzidos por todo o país.  

Fungicidas multissítio podem ser classificados como orgânicos ou inorgânicos de acordo com a composição química. Dentre os multissítios orgânicos há disponível no mercado principalmente os ditiocarbamatos (maneb, fluazinam, zineb, mancozeb), heterocíclicos nitrogenados (captan), nitrilas (clorotalonil) e ainda outros de menor oferta. Uma vez percebidos todos os benefícios desta associação, inúmeros experimentos foram desenhados e conduzidos a fim de caracterizar tais fungicidas e definir dentro de um programa de manejo, qual o posicionamento preferível para cada produto, assumindo que cada um destes têm uma eficácia maior para certos patógenos.

Dos multissítios disponíveis, aqueles à base de mancozebe tem sido os mais empregados principalmente quando associados à sítio-específicos pelos bons níveis de controle da ferrugem da soja, mancha-alvo, septoria e outras, apesar de isoladamente apresentar baixa efetividade para outros patógenos como o oídio (Microsphaera diffusa). Sobre os multissítios à base de mancozeb, um fator que reduzia inicialmente a aceitabilidade deste produto por parte de alguns era a formulação disponível, porém nos últimos anos as tecnologias de formulação evoluiram bastante facilitando o trabalho com estes ou ainda a efetividade no campo: formulações WG; formulações WP com propriedades adesivas às folhas superiores aos demais mancozebes como a tecnologia NT presente no Dithane e Controller; formulações líquidas OD (suspensão concentrada em óleo).

As nitrilas (clorotalonil) e dos inorgânicos os oxicloretos de cobre têm ganhado espaço e dado opções aos produtores nas últimas safras tendo apresentado também ótimos resultados de controle e formulações líquidas. Assim como todos os produtos disponíveis, apresentam fortalezas e fraquezas que quando trabalhadas adequadamente, seja por estádio da cultura, qualidade de aplicação e/ou parceiro, aumentam a efetividade no controle do complexo de doenças da cultura.

Recentemente produtos resultado de mistura de um ou mais multissítios (ex: oxicloreto de cobre + clorotalonil, mancozebe + oxicloreto de cobre) com tecnologia de formulação têm apresentado excelentes resultados de controle e aumentado o espectro de ação. Frente às opções de multissítio disponíveis no mercado, principalmente sendo diferentes formuladores, concentrações, misturas de ingredientes ativos, muitos estudos vêm sendo realizados tanto para monitoramento de resistência como para verificação da eficácia entre os multissítios similares.

Trabalhos de pesquisa conduzidos na última safra (2018/2019) com objetivo de avaliar clorotalonil, mancozebe e mistura de oxicloreto de cobre + mancozebe no controle de Phakopsora pachyrhizi revelaram sutil diferença quando substituído apenas o multissítio dentro de um programa de 4 aplicações contendo sítio-específicos + multissítio. 

Quando se trata separadamente a região sul do país (Rio Grande do Sul e Paraná) nota-se mais claramente o benefício da inclusão dos multissítios no manejo à medida que a pressão desta doença é maior que no cerrado. No cerrado, apesar de a ferrugem ser importante por se tratar de um patógeno extremamente agressivo, com ciclo curto e alta esporulação, o grande desafio são as manchas foliares (mancha-alvo, cercospora e septoria).

Neste cenário de manchas também, a adoção de multissítios tem aumentado (presente na média, em 2 aplicações) melhorando a eficácia no controle destas que recentemente têm apresentado redução na sensibilidade à alguns grupos de sítio-específicos. Outros estudos, com objetivo de monitoramento de resitência, têm chamado àtenção por revelar nas últimas duas safras que os produtos sítio-específicos (que isoladamente apresentam nível mais baixo de controle) são os mais responsivos quando da associação a multissítios, ressaltando a importância da utilização destes produtos para uma maior vida útil das ferramentas de controle químico atualmente disponíveis.

O histórico da ferrugem da soja (Phakopsora pachyrhizi) no Brasil demonstra uma mudança gradual nos mecanismos de ação adotados para o controle da doença
O histórico da ferrugem da soja (Phakopsora pachyrhizi) no Brasil demonstra uma mudança gradual nos mecanismos de ação adotados para o controle da doença.

Em resumo, a inclusão de multissítios no programa de manejo de doenças da cultura da soja sempre agrega (variando conforme a pressão de doenças) e é fundamental para que seja possível manter sob controle os principais inimigos da produtividade desta cultura tão importante para o Brasil.

Guilherme Huller, Fabricio Packer e Rogerio Rubin, Corteva

Matérias da Edição:
  1. Página 6

    Apetite gigante

  2. Página 10

    Presença crescente

  3. Página 14

    Manejo reforçado

  4. Página 20

    Vassoura daninha

  5. Página 23

    Mistura segura

  6. Página 26

    Soma de esforços

  7. Página 34

    Aplicado na folha

  8. Página 38

    Impacto nocivo

  9. Página 40

    Perigo extra

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