Caderno Técnico: Bem posicionados

  • Página 51 |
  • Out 2019 |
  • ​Mônica Debortoli, Diretora Técnica Sul, Instituto Phytus

Ao longo dos últimos 20 anos é evidente o crescimento do potencial produtivo das cultivares de soja. Concomitantemente a isso, algumas características importantes também têm sido notadas nesses materiais, como precocidade, arquitetura de plantas que permite maior penetração de luz, Índice de Área Foliar (IAF) reduzido, hábito de crescimento indeterminado e menor rusticidade. A combinação dessas características tem tornado as cultivares cada vez mais exigentes em manejo e mais sensíveis a estresses. Pegando como exemplo o ciclo, uma cultivar superprecoce tem menos tempo para reverter um dano comparada às de ciclo médio.  Além disso, com a redução do IAF em alguns materiais, cada folha se torna ainda mais importante em termos produtivos. Tais exemplos ajudam a explicar o motivo pelo qual patógenos antes considerados secundários na cultura, têm atualmente impactado significativamente na produtividade da soja.

O hábito de crescimento das cultivares é outro fator que pode influenciar no dano causado por patógenos, especialmente os necrotróficos causadores de manchas foliares. Em cultivares indeterminadas, comumente a quantidade de grãos no dossel inferior é maior, e por consequência, existe uma maior demanda das folhas inferiores para enchimento desses grãos (Figura 1). Assim, a incidência de manchas foliares nas folhas inferiores pode causar desfolha precoce e permitir a multiplicação de inóculo para que a doença evolua na planta. Isso pode trazer prejuízo considerável na produtividade nessas cultivares modernas.

Analisados os dados do concurso de produtividade do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb), é possível verificar que a produtividade das cultivares modernas têm alcançado patamares acima de 6t/ha (Cesb, 2018). Entretanto, a média obtida no Brasil está longe desses patamares. Nessas áreas de elevada produtividade, algumas práticas de manejo adotadas proporcionam melhorias no sistema, que contribuem para um melhor controle de doenças. Um exemplo é a rotação de culturas, que proporciona a quebra do ciclo de importantes doenças, especialmente aquelas causadas por fungos necrotróficos como as manchas foliares, que possuem capacidade de sobreviver na área em restos culturais. Na ausência de rotação de culturas e outras práticas de manejo integrado, nota-se um aumento na severidade dessas doenças e maior dificuldade de controle, que fica limitado ao uso de fungicidas, tanto via tratamento de sementes como em aplicações de parte aérea.

Nos últimos anos tem sido frequentes os problemas com reduções de eficácia dos fungicidas. Muito desses problemas partem da deficiência do sistema em depositar toda a responsabilidade de controle exclusivamente sobre os fungicidas, além, claro, de aspectos ligados ao mau posicionamento e à aplicação. É necessário cada vez mais responsabilidade no uso de fungicidas, de forma a manter a eficácia das moléculas e evitar a seleção de populações resistentes. Não há previsão, a curto prazo, para introdução de novos mecanismos de ação de fungicidas no mercado, ou seja, o manejo nas próximas safras continuará sendo feito com os mesmos mecanismos atualmente em uso.

Mas não é apenas os problemas de resistência que impõem dificuldades no controle das doenças. Muitos dos entraves advém de erros de posicionamento e escolha equivocada de produtos. Para uma correta escolha e posicionamento é fundamental considerar os fatores relacionados à planta. O conhecimento da resposta da cultivar aos diferentes alvos pode imprimir significativas variações quanto à resposta aos fungicidas. Dentre as inúmeras cultivares disponíveis no mercado há uma nítida variação na suscetibilidade às diferentes doenças (Figura 2) e, por conseguinte, essa informação pode ser usada em prol de otimizar a escolha e o posicionamento do programa fungicida.

Ensaios foram conduzidos no Instituto Phytus com o objetivo de observar a resposta do posicionamento de fungicidas em duas cultivares de soja, com diferentes níveis de suscetibilidade às doenças. A cultivar BMX Ativa RR com maior suscetibilidade à ferrugem-asiática (Phakopsora pachyrhizi) e a DM 5958 Ipro com maior suscetibilidade a manchas foliares. De acordo com os dados de produtividade, nota-se que a cultivar DM 5958 Ipro teve uma perda produtiva maior em função do atraso da primeira aplicação, evidenciando o impacto negativo das manchas foliares que se estabelecem na fase inicial de desenvolvimento da planta (Figura 3). Considerando o posicionamento de quatro aplicações em ambas as cultivares, quando o programa fungicida é iniciado em estádio vegetativo, a proteção do potencial produtivo é maior que nos casos em que o programa se inicia em estádio reprodutivo. Esses resultados evidenciam que atrasar o início do programa fungicida pode comprometer a sua resposta, e que a realização de uma aplicação adicional no final do ciclo pode resultar em uma resposta produtiva muito limitada e por vezes sem retorno financeiro. Em muitos dos casos, por ocasião da antecipação da época de semeadura e o manejo focado apenas na ferrugem-asiática, os produtores atrasam o início das aplicações de fungicidas. Entretanto, é importante observar que as manchas foliares estão presentes nas sementes e nos restos culturais, e muitas vezes pela falta de proteção antes do fechamento das entre linhas da soja essas doenças podem ocorrer, causando desfolha precoce do dossel inferior e reduzindo a massa de grãos dessa porção da planta.

Para o incremento de controle dos fungicidas sistêmicos têm sido fundamental o uso de fungicidas de reforço, como multissítios, triazóis ou morfolina. Essa associação tem gerado resultados bastante consistentes, com resposta em produtividade e na proteção da eficácia dos fungicidas sistêmicos. Ensaios conduzidos no Instituto Phytus, região Sul, evidencia incrementos produtivos variando de 7,2sc/ha a 12,3sc/ha na cultivar BMX Ativa RR e de 9,3sc/ha a 14,2sc/ha na cultivar DM 5958 Ipro, em função do uso de reforços junto aos fungicidas sistêmicos em todas as aplicações. Quanto ao posicionamento dos reforços, os fungicidas multissítios, por atuarem na epiderme da folha, devem ser aplicados preventivamente, e os triazóis ou morfolina, por atuarem em micélio primário e secundário do fungo, dentro do tecido foliar, têm apresentado melhores resultados quando posicionados nas últimas aplicações.

Manchas foliares são um dos grandes desafios enfrentados pelos produtores de soja
Manchas foliares são um dos grandes desafios enfrentados pelos produtores de soja.

Com base no exposto, cabe reforçar que o bom funcionamento dos fungicidas irá depender do correto posicionamento, levando em consideração a suscetibilidade da cultivar, a época de semeadura e de uma adequada absorção pela planta de uma concentração letal ao fungo. Boas práticas de manejo para reduzir a pressão de doenças, bem como o reforço das aplicações, são fundamentais para a melhoria da performance dos fungicidas e a redução do risco de resistência. 

 

Figura 1 - Distribuição da massa de grãos por terço da planta entre cultivares determinadas e indeterminadas. Itaara, RS
Figura 1 - Distribuição da massa de grãos por terço da planta entre cultivares determinadas e indeterminadas. Itaara, RS.
Figura 2 - Sensibilidade de 90 cultivares de soja a DFCs (A), o Oídio (B) e a Ferrugem-asiática (C, D). Itaara, RS. Dados disponíveis em: https://elevagro.com
Figura 2 - Sensibilidade de 90 cultivares de soja a DFCs (A), o Oídio (B) e a Ferrugem-asiática (C, D). Itaara, RS. Dados disponíveis em: https://elevagro.com
Figura 3 - Produtividade de duas cultivares de soja com diferentes níveis de suscetibilidade a doenças semeadas em duas épocas de semeadura e submetidas a três, quatro ou cinco aplicações de fungicidas. Itaara, RS. *Programa fungicida utilizado: V6/V7 - Piraclostrobina + Fluxapiroxade + Clorotalonil; R1 - Trifloxistrobina + Protioconazole + Mancozebe; 15d - Picoxistrobina + Benzovindiflupir + Mancozebe; 15d - Picoxistrobina + Ciproconazole + Fenpropimorfe; 12d - Trifloxistrobina + Ciproconazole + Difenoconazole + Ciproconazole
Figura 3 - Produtividade de duas cultivares de soja com diferentes níveis de suscetibilidade a doenças semeadas em duas épocas de semeadura e submetidas a três, quatro ou cinco aplicações de fungicidas. Itaara, RS. *Programa fungicida utilizado: V6/V7 - Piraclostrobina + Fluxapiroxade + Clorotalonil; R1 - Trifloxistrobina + Protioconazole + Mancozebe; 15d - Picoxistrobina + Benzovindiflupir + Mancozebe; 15d - Picoxistrobina + Ciproconazole + Fenpropimorfe; 12d - Trifloxistrobina + Ciproconazole + Difenoconazole + Ciproconazole.
Figura 4 - Produtividade de duas cultivares com diferentes níveis de sensibilidade a doenças semeadas em 13/11/18 e submetidas a um programa fungicida sistêmico associado a diferentes reforços. Itaara, RS. *Programa fungicida utilizado: Sist. 1 - Azoxistrobina + Benzovindiflupir; Sist. 2 - Trifloxistrobina + Protioconazole; Sist. 3 - Picoxistrobina + Ciproconazole. Reforços: Mz – Mancozebe; Clt – Clorotalonil; Ox.Cu – Oxicloreto de Cobre; Fpm – Fenpropimorfe; Dif.+Cip. – Difenoconazole + Ciproconazole
Figura 4 - Produtividade de duas cultivares com diferentes níveis de sensibilidade a doenças semeadas em 13/11/18 e submetidas a um programa fungicida sistêmico associado a diferentes reforços. Itaara, RS. *Programa fungicida utilizado: Sist. 1 - Azoxistrobina + Benzovindiflupir; Sist. 2 - Trifloxistrobina + Protioconazole; Sist. 3 - Picoxistrobina + Ciproconazole. Reforços: Mz – Mancozebe; Clt – Clorotalonil; Ox.Cu – Oxicloreto de Cobre; Fpm – Fenpropimorfe; Dif.+Cip. – Difenoconazole + Ciproconazole.
Mônica aborda aspectos que precisam ser observados no manejo de doenças
Mônica aborda aspectos que precisam ser observados no manejo de doenças.

Mônica Debortoli, Diretora Técnica Sul, Instituto Phytus

Matérias da Edição:
  1. Página 6

    Apetite gigante

  2. Página 10

    Presença crescente

  3. Página 14

    Manejo reforçado

  4. Página 20

    Vassoura daninha

  5. Página 23

    Mistura segura

  6. Página 26

    Soma de esforços

  7. Página 34

    Aplicado na folha

  8. Página 38

    Impacto nocivo

  9. Página 40

    Perigo extra

Edição Anterior
Próxima Edição
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura