Caderno Técnico: Desafios no Cerrado

  • Página 54 |
  • Out 2019 |
  • Nédio Tormen, Diretor Técnico Centro-Norte, Instituto Phytus

A ferrugem-asiática (Phakopsora pachyrhizi) é a principal doença da soja, amplamente distribuída no Brasil. Em cenários favoráveis à doença, como cultivar altamente suscetível, semeadura tardia e ciclo mais longo, a doença tem causado sérios prejuízos e exposto a fragilidade do sistema quando este se baseia apenas na proteção com fungicidas.

Além da ferrugem-asiática, diversas outras doenças de parte aérea podem ocorrer e contribuir para maiores perdas em produtividade. Se destacam a cercosporiose (Cercospora kikuchii), a mancha-parda (Septoria glycines), a mancha-alvo (Corynespora cassiicola), a antracnose (Colletotrichum sp.) e também os surtos de mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum) e oídio (Microsphaera diffusa) em algumas regiões. É comum a ocorrência de duas ou mais dessas doenças de forma concomitante ao longo do ciclo da soja, independentemente da região. Essa condição acaba evidenciando outra fragilidade do sistema, pois quando o manejo é focado apenas na ferrugem-asiática, acaba deixando espaço para que outras doenças cresçam em importância.

Uma grande preocupação no manejo tem sido o momento de início dessas doenças no campo e sua relação com o planejamento dos programas de controle. O início dessas doenças tem sido bastante precoce no ciclo da cultura, especialmente no caso de manchas e antracnose. É muito comum a presença de sintomas de antracnose desde a fase cotiledonar da soja, mancha-parda e cercosporiose já nos primeiros trifólios e mancha-alvo a partir do fechamento das entre linhas (Figura 2). Contrastante a isso, o início das aplicações de fungicidas, comumente focado na ferrugem, é feito de maneira atrasada em relação ao início dessas doenças. Nesse sentido, ao longo das últimas safras estudos conduzidos no Instituto Phytus em Planaltina, Distrito Federal, têm mostrado os benefícios da proteção iniciada no vegetativo da soja, especialmente quando sintomas dessas doenças são detectados precocemente (Figura 3). Aplicações antecipadas de fungicida, comumente chamadas de aplicações no vegetativo, podem resultar em incremento de produtividade, que variam conforme o momento da aplicação e o fungicida utilizado. Em relação ao momento, incrementos crescentes de produtividade ocorreram quanto mais antecipada foi a aplicação de 30 dias para 15 dias após a emergência (DAE), devido especialmente à presença de septoriose, cercosporiose e antracnose no ensaio. No que tange aos fungicidas, incrementos médios variando de 2,5 sacos/hectare até 7,5 sacos/hectare foram obtidos dependendo do fungicida aplicado.

Após conhecer os alvos que se quer controlar e definir os momentos adequados para aplicação, a escolha dos fungicidas também é um passo importante. Nos últimos anos são frequentes os relatos de redução da eficiência de fungicidas no controle da ferrugem-asiática e recentemente também para manchas foliares. Atualmente, há relatos de resistência de Phakopsora pachyrhizi a triazóis, estrobilurinas e carboxamidas, de Corynespora cassiicola a benzimidazois e carboxamidas, e de Cercospora sp. a estrobilurinas. Seja para o manejo da resistência ou buscando aumentar a eficácia de controle das doenças e proporcionar ganhos produtivos, o reforço das aplicações com fungicidas multissítios ou com diferentes mecanismos de ação se tornou estratégia fundamental. Diversos trabalhos conduzidos no Instituto Phytus demonstram que os resultados dessa associação, em termos de controle e produtividade, são claros e consistentes (Figura 4). Os resultados mais expressivos têm sido obtidos quando todas as aplicações são reforçadas. Quando isso não ocorre, são necessários ajustes conforme os alvos e a época de semeadura, para definição do melhor momento de posicionar os reforços. No caso dos multissítios, é importante salientar que, por se tratar de produtos protetores, são muito dependentes de aplicações preventivas para expressarem seu potencial de controle.

O comportamento das cultivares de soja frente às diferentes doenças é um fator importantíssimo a ser conhecido. Devido à grande quantidade de cultivares comerciais e aos lançamentos a cada ano, pouco se conhece sobre sua reação às doenças e resposta à aplicação dos fungicidas em escala regional e microrregional. Se há diferenças claras na severidade de doenças nas diferentes cultivares, os programas fungicidas deveriam ser definidos por cultivar. Apesar de haver exceções, de modo geral, é definido um programa padrão de fungicidas com base no ciclo e na época de semeadura das cultivares, raramente levando em consideração a suscetibilidade desse material às doenças. A interação entre cultivares e fungicidas em cada região poderia ser uma ferramenta poderosa para auxiliar no planejamento da safra.

Apesar de toda a pesquisa e informações geradas a cada safra, tem sido observado que boa parte dos equívocos no controle de doenças está relacionada às falhas no posicionamento e escolha dos fungicidas. Obviamente que ser assertivo apenas nesses quesitos não é suficiente, sendo necessário também um trabalho de base bem construída, levando em conta qualidade de sementes, equilíbrio nutricional, qualidade do solo, intervalo entre aplicações, tecnologia de aplicação, dentre outros, que conjuntamente são responsáveis pelo sucesso no controle de doenças. 

Figura 1 - Sintomas de manchas (septoriose e cercosporiose), mancha-alvo (à direita) em soja. Instituto Phytus, Planaltina/DF
Figura 1 - Sintomas de manchas (septoriose e cercosporiose), mancha-alvo (à direita) em soja. Instituto Phytus, Planaltina/DF.
Figura 2 - Sintomas de antracnose nos cotilédones (esquerda) e manchas foliares nas folhas unifolioladas em soja (direita). Planaltina/DF
Figura 2 - Sintomas de antracnose nos cotilédones (esquerda) e manchas foliares nas folhas unifolioladas em soja (direita). Planaltina/DF.
Figura 3 - Incremento produtivo por aplicações no vegetativo, em diferentes momentos (A, média de quatro ensaios conduzidos em Planaltina/DF, Ipium/TO e Bom Jesus/PI) e incremento produtivo em função de diferentes fungicidas utilizados no vegetativo (B, média de seis ensaios conduzidos em Planaltina/DF). Instituto Phytus, Planaltina/DF, 2019. (St - Estrobilurina; Tz - Triazol; Mz - Mancozebe)
Figura 3 - Incremento produtivo por aplicações no vegetativo, em diferentes momentos (A, média de quatro ensaios conduzidos em Planaltina/DF, Ipium/TO e Bom Jesus/PI) e incremento produtivo em função de diferentes fungicidas utilizados no vegetativo (B, média de seis ensaios conduzidos em Planaltina/DF). Instituto Phytus, Planaltina/DF, 2019. (St - Estrobilurina; Tz - Triazol; Mz - Mancozebe).
Figura 4 - Incremento produtivo em função do reforço das aplicações com multissítio. Instituto Phytus, Planaltina/DF, 2018. St – Estrobilurina; Cx – Carboxamida; Tz – Triazol/Triazolintione; Mz – Mancozebe
Figura 4 - Incremento produtivo em função do reforço das aplicações com multissítio. Instituto Phytus, Planaltina/DF, 2018. St – Estrobilurina; Cx – Carboxamida; Tz – Triazol/Triazolintione; Mz – Mancozebe.
Figura 5 - Incremento em produtividade (%) em cultivares de soja em resposta à aplicação de um programa fungicida padrão, com cinco aplicações de fungicidas sistêmicos associados a fungicidas multissítios. Planaltina/DF, 2019
Figura 5 - Incremento em produtividade (%) em cultivares de soja em resposta à aplicação de um programa fungicida padrão, com cinco aplicações de fungicidas sistêmicos associados a fungicidas multissítios. Planaltina/DF, 2019.
 Tormen alerta para o correto posicionamento de fungicidas
Tormen alerta para o correto posicionamento de fungicidas.

Nédio Tormen, Diretor Técnico Centro-Norte, Instituto Phytus

Matérias da Edição:
  1. Página 6

    Apetite gigante

  2. Página 10

    Presença crescente

  3. Página 14

    Manejo reforçado

  4. Página 20

    Vassoura daninha

  5. Página 23

    Mistura segura

  6. Página 26

    Soma de esforços

  7. Página 34

    Aplicado na folha

  8. Página 38

    Impacto nocivo

  9. Página 40

    Perigo extra

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