Choque orgânico

  • Página 46 |
  • Mar 2019 |
  • Gabriela Matos Cambrussi, Airton dos Santos Alonço, Gessieli Possebom

As ervas daninhas representam um grande desafio para os agricultores. Em uma pesquisa realizada pela GeoAgri em 2018, existem cerca de 20 milhões de hectares de solo na produção da soja com a presença de ervas daninhas. Estas, quando não manejadas de forma correta, podem ser responsáveis por até 80% de perdas na produção, se tornando um desafio de controle ainda maior, à medida que se adaptam ao solo e criam resistência a aplicações de herbicidas. Nesse último caso, por necessitar de maiores intervenções, eleva o custo médio de produção, reduzindo os lucros na lavoura.

Nesse sentido, além da prática de manejo do solo e controle químico através de herbicidas, uma solução disponível para manter um controle viável das ervas daninhas é a capina elétrica, a fim de uso ecológico. A tecnologia de capina elétrica baseia-se no uso e aplicação de descargas elétricas e/ou eletrochoques por equipamento específico. As taxas de repetição dos eletrochoques variam em função do tamanho e da capacidade do gerador, assim como da superfície de descarga.

Por causa de manobras malfeitas, diversos componentes da esteira podem sofrer desgaste prematuro
O tamanho ideal das plantas daninhas deve estar entre 20 e 40 centímetros de altura, entretanto, as descargas elétricas não necessitam tocar a superfície-alvo, pois o ar também pode ser um condutor elétrico

A máquina dessecadora utilizada para esse uso, principalmente pelos produtores de soja orgânica, é a Eletroherb, patenteada e lançada pela Sayyou Brasil, empresa do mercado de equipamentos industriais agrícolas com sede em São Bernardo do Campo (SP).

COMO FUNCIONA?

A Eletroherb é um implemento agrícola utilizado acoplado à tomada de potência do trator e com a principal característica de possuir dois mecanismos distintos de aplicadores de choques elétricos. Com diferentes tamanhos e potência do gerador, consegue se adaptar aos distintos objetivos dos usuários.

Primeiramente, a energia mecânica promovida pelo acionamento do motor do trator é convertida em energia elétrica, no implemento, criando alta voltagem e alta frequência. Essa energia é então transmitida para os aplicadores de forma que a parte negativa é transmitida para os rolos localizados à frente do implemento e que estarão em contato direto com o solo com transferência de fluxo de elétrons.

Já a parte positiva é transmitida para as placas localizadas mais próximas ao trator, e que estarão em contato direto com as ervas daninhas. Esse aplicador direciona a alta voltagem através das plantas até suas raízes e consequentemente ao solo. Nesse ciclo composto por polo positivo (planta) e polo negativo (solo), o circuito elétrico é fechado, de forma a tornar-se seguro e sem agredir o meio ambiente.

Na extremidade desses aplicadores há uma série de eletrodos, os quais são responsáveis pelos choques elétricos, que podem variar de cinco mil volts a até 15 mil volts, dependendo do porte da máquina dessecadora.

Importante ressaltar que para o funcionamento mais eficiente da capina elétrica, o tamanho ideal das plantas daninhas deve estar entre 20 e 40 centímetros de altura, entretanto, as descargas elétricas não necessitam tocar a superfície-alvo, uma vez que o ar também pode ser um condutor elétrico. Além disso, esse método não depende da hora nem do dia para aplicação, além de possuir controle de altura, através de um sistema hidráulico, permitindo a regulagem de acordo com a planta-alvo.

 ALTERAÇÃO OCASIONADA PELO CHOQUE

Os choques de alta voltagem atingem inicialmente as folhas, porém as consequências logo se alastram pela planta, alterando sua estrutura de forma irreversível. A clorofila das folhas é imediatamente atingida, o transporte de seiva é interrompido e o processo de fotossíntese é prejudicado. Como consequência desses distúrbios, o sistema radicular é alterado e compromete a absorção de água e nutrientes essenciais disponíveis no solo, matando a erva daninha em poucos dias.

Relações entre vantagens e desvantagens

A grande vantagem do equipamento sobre as formas convencionais de controle das invasoras é a preservação integral do meio ambiente: o método por eletrocussão do Eletroherb é uma solução ecologicamente correta na medida em que elimina o uso de produtos químicos, entre outros. Por outro lado, existem desvantagens, ou seja, fatores que podem ser aprimorados para melhorar o desempenho. As principais vantagens e desvantagens do sistema podem ser conferidas no box a seguir.

Dentre os fatores de aprimoramento, a não seleção entre os tipos de plantas se mostra como um déficit muito acentuado nesse implemento. Para tanto, a agricultura de precisão se insere como importante recurso, e os sistemas agrícolas com sensores e câmeras são capazes de diferenciar lavouras de ervas daninhas, aumentando a precisão na execução da tarefa.

De toda forma, o uso da capina elétrica oferece uma importante contribuição ao setor de mecanização e de pragas, uma vez que auxilia na remoção de plantas daninhas dos cultivos, abstendo-se do uso de herbicidas. A técnica, produzida e comercializada em território brasileiro, é, sem dúvida, um importante aliado ao desenvolvimento de sistemas de produção agrícola, como, por exemplo, sistema de produção orgânica e integrada devido ao seu potencial de uso em diversas cadeias produtivas e em diferentes partes do mundo.

  

Os choques de alta voltagem atingem inicialmente as folhas, porém as consequências logo se alastram pela planta, alterando sua estrutura de forma irreversível

Vantagens e desvantagens do eletroherb

Vantagens

- Em longo prazo, mais economicamente viável se comparado a outras alternativas.

- Socialmente responsável, uma vez que não oferece risco à saúde dos trabalhadores e consumidores.

- Não sofre deriva, ou seja, não há risco de atingir outros cultivos.

- Pode ser utilizado a qualquer horário do dia, pois não sofre influência, por exemplo, do orvalho.

- Não deixa resíduo algum no solo e não polui os mananciais de água.

- Mantém a cobertura orgânica sobre o solo.

- É eficiente no combate a plantas daninhas resistentes a herbicidas.

- Os choques elétricos não matam minhocas e formigas.

Desvantagens

- Eficiência reduzida na remoção de plantas daninhas perenes, velhas e lignificadas.

- Não é um processo muito rápido (cerca de 0,7ha/h).

- Há risco de incendiar plantas já secas e palhas que encontram-se na região a ser controlada.

- Elevado investimento inicial com a compra do equipamento.

- Pode destruir plantas do cultivo, uma vez que o método não faz seleção entre os tipos de plantas a serem atingidas.

- Requer múltiplsa aplicações para que seja efetivo.

- Necessidade de corredores relativamente largos para o tráfego.

O sistema mantém a cobertura orgânica sobre o solo
A longo prazo, o sistema é economicamente mais viável se comparado a outras alternativas


Matérias da Edição:
  1. Página 10

    MF9330

  2. Página 16

    Pressão líquida

  3. Página 20

    Zelo na colheita

  4. Página 24

    Teste de velocidade

  5. Página 42

    Solos manchados

  6. Página 49

    Terminologia

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