Como evitar o efeito carryover

  • Página 37 |
  • Dez 2019 |
  • Pedro Jacob Christoffoleti, Esalq/USP, Agrocon Assessoria Agronômica

A diversidade dos sistemas de produção na agricultura brasileira permite que mais de um cultivo possa ser praticado em um ano agrícola. No entanto, esta diversidade gera complexidade nas recomendações de herbicidas, pois há situações em que o efeito residual do produto aplicado no primeiro cultivo do ano agrícola pode proporcionar injúrias na cultura em sucessão, fenômeno na prática chamado de carryover. Da mesma forma, o herbicida aplicado no segundo cultivo pode resultar em carryover sobre o primeiro cultivo do próximo ano agrícola. Assim, é importante que no planejamento de recomendação seja considerado este fenômeno para a escolha segura do herbicida, sem colocar a produtividade das culturas em risco de redução da produtividade devido à fitotoxicidade do carryover.

No caso específico da sucessão de cultivos de soja e milho/algodão/feijão, extensivamente adotada no Brasil, o uso massivo do cultivo de variedades de soja e/ou milho e/ou algodão resistentes ao glifosato resultou em uma grande transformação no sistema de manejo de plantas daninhas, principalmente nos aspectos de maior seletividade para a cultura, e ausência de carryover. No entanto, a seleção de populações de plantas daninhas resistentes ao glifosato e a recomendação de prevenção e manejo desta resistência, pautada na diversidade de recomendação de mecanismos de ação de herbicidas, têm requerido defensivos residuais, ou mesmo pós-emergentes, com potencial de carryover para a cultura em sucessão.

 Neste sistema, como em qualquer outro discutido aqui neste artigo, o destino final do herbicida é o solo. Assim, a degradação deste herbicida é, principalmente, dependente da oferta de água neste solo, que serve de meio de sobrevivência e multiplicação dos micro-organismos decompositores do herbicida. Além da água no solo, podem interferir no efeito carryover de um herbicida a textura do solo, o teor de matéria orgânica, o pH do solo, a temperatura do solo após a aplicação do produto e a dose do herbicida. Assim, apesar de nesta publicação serem atribuídos tempos cronológicos para que possa ser semeado um cultivo sem efeito carryover, é importante destacar que pode haver variações deste tempo, em função dos fatores já mencionados.

Dentre os herbicidas inibidores da ALS utilizados na cultura da soja, que apresentam potencial de carryover em culturas em sucessão, está o imazethapyr, que em doses recomendadas de bula, necessita de pelo menos 90 dias de intervalo para a semeadura do milho; 120 dias para o trigo, e 90 dias para a cultura de feijão. Já para o diclosulan há necessidade de 90 dias de intervalo entre a dose recomendada e a semeadura das culturas de milho, trigo e feijão. O metsulfuron, que tem sido usado no período invernal, antes da semeadura de soja, principalmente para o controle da buva, também necessita de um período mínimo 60-70 dias para a semeadura da soja, ressaltando que deve ser considerado que neste período deve haver pelo menos 100mm de chuva, bem distribuída, para degradação do herbicida.

Apesar do uso pouco comum do herbicida imazaquin na cultura de soja, na atualidade é importante considerar que este herbicida, na dose de bula, exige pelo menos 300 dias para o cultivo de milho na área, 120 dias para trigo e 90 dias para feijão. Já para o chlorimuron, 60 dias são suficientes para o cultivo de milho, trigo e feijão. Porém, é importante considerar que em solos com pH mais elevado o período de carryover pode aumentar. Também é importante considerar o uso do iodosulfuron na cultura de trigo, que necessita de um período mínimo de 90 dias para a semeadura de milho, trigo e feijão.

Na cultura de algodão, apesar de que nos últimos anos seu uso tem reduzido bastante, os herbicidas inibidores da ALS trifloxisulfuron e pirithiobac podem resultar em carryover na cultura do milho. Para estes herbicidas é necessário um período de pelo menos 120 dias de intervalo entre a sua aplicação e o plantio da cultura de milho, principalmente nos sistemas de produção irrigados, em que a cultura de milho é plantada no inverno na região do Cerrado.

O herbicida sulfentrazone, nas doses de bula para a cultura da soja, destaca-se entre os herbicidas inibidores da Protox que necessitam de, no mínimo, 90 dias entre a aplicação e a semeadura das culturas de milho, trigo e feijão e 300 dias para o algodão. Da mesma forma o fomesafen, eventualmente utilizado como residual na cultura de algodão, e pós-emergente na cultura de soja, que em dose de bula exige no mínimo 150 dias entre sua aplicação e a semeadura do milho.

Na cultura do milho é comum a aplicação de herbicidas inibidores da biossíntese de carotenos, como mesotrione e tembotrione, para controle de plantas daninhas em pós-emergência, geralmente associados com atrazina. No entanto, é importante observar que estes herbicidas, em dose de bula, exigem um período mínimo de 90 dias para o mesotrione e 65 dias para o tembotrione e semeadura de trigo e feijão em sucessão, principalmente para produtores que fazem o cultivo irrigado destas culturas no inverno. Ainda dentro deste mecanismo de ação existe o herbicida clomazone, recomendado para a cultura de soja, que exige, no mínimo, 150 dias de intervalo para a semeadura das culturas de milho, trigo e feijão.

O uso de herbicidas inibidores do fotossistema II, principalmente as triazinas, a atrazina, e as ureias substituídas, diuron, pode gerar, em algumas situações, efeito de carryover em culturas em sucessão. Nas doses de bula, para a atrazina aplicada na cultura de milho, o período é de 90 dias, entre a aplicação e a semeadura de milho, trigo e feijão. No entanto, tem sido uma prática habitual, entre os produtos com problemas de buva resistente ao glifosato, aumentar a dose de atrazina ou mesmo fazer aplicações sequenciais, o que pode aumentar o risco de carryover. No caso específico do diuron, destaca-se seu uso na cultura de algodão como residual, em pré-emergência ou em jato dirigido, pois exige no mínimo 120 dias para o cultivo de milho, trigo e feijão.

Um sistema de produção que tem aumentado bastante, principalmente no estado de São Paulo, é a rotação da soja na reforma da cultura da cana-de-açúcar, quer no sistema normal de rotação ou no sistema chamado de meiosi (método intercalar de cultivo ocorrendo simultaneamente). Neste caso, alguns herbicidas aplicados na última soqueira de cana podem exercer efeito de carryover sobre a cultura da soja. Destacam-se os herbicidas tebuthiuron, picloran e indaziflan, recomendados para a cultura da cana, mas que exigem um período mínimo de 24 meses para a semeadura da soja. Também existe o herbicida amicarbazone, que em doses abaixo de 1kg/ha exige 12 meses de intervalo, porém em doses maiores demanda também 24 meses de intervalo para a semeadura da soja. Outros herbicidas que exigem 12 meses de intervalo e que são usados na cultura da cana são hexazinona, imazapic e imazapyr, quando aplicados nas doses de bula.

É comum também a expansão da cultura de soja e milho em áreas de pastagens, principalmente no Norte do Brasil. Assim, é importante conhecer o histórico das áreas, pois existem herbicidas de pastagens que exigem dois anos de intervalo entre a aplicação e a semeadura da soja. É o caso do herbicida picloran, presente em muitas formulações de herbicidas utilizados em pastagens. Eventualmente em pastagens pode ser empregado o tebuthiuron, que exige pelo menos dois anos de intervalo também.

Em situações onde não se conhece o histórico da área em relação aos herbicidas utilizados em anos anteriores, e suspeita-se de carryover na área, sendo intenção de plantio de uma cultura de grão, recomenda-se fazer um bioensaio. Para isso, basta simular no campo o que pode ocorrer com a lavoura em sucessão, utilizando a variedade que vai ser plantada e/ou culturas indicadoras. Assim, é semeada na área com suspeita de problema, uma quantidade definida e conhecida de sementes do próximo cultivo, que se pretende plantar, juntamente com uma cultura indicadora, alguns dias antes da colheita da cultura anterior. Na falta de umidade para germinar, recomenda-se irrigar a parcela e, também, plantar em um talhão vizinho, que não recebeu a aplicação do herbicida, servindo de testemunha. É importante que esse solo vizinho tenha características físicas e químicas semelhantes.

Planejamento é fundamental para o sucesso na agricultura. Assim, previsão de carryover é muito importante para que o potencial produtivo da cultura não seja afetado. A recomendação de herbicida deve estar pautada não somente na eficácia de uso no cultivo em que é recomendado, mas também no potencial de risco para culturas em sucessão.

Carryover sulfentrazone em planta de milho.
Carryover sulfentrazone em planta de milho.
Carryover de amicarbazone em soja.
Carryover de amicarbazone em soja.
Christoffoleti alestar para potenciais riscos de determinados herbicidas para culturas subsequentes.
Christoffoleti alestar para potenciais riscos de determinados herbicidas para culturas subsequentes.

Pedro Jacob Christoffoleti, Esalq/USP, Agrocon Assessoria Agronômica 

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