Como interagem

  • Página 44 |
  • Jan 2019 |
  • Camila Ferreira de Pinho, Ana Claudia Langaro, Jéssica Ferreira Lourenço Leal, Amanda dos Santos Souza, Gabriella Francisco P. Borges de Oliveira, Gabriela de Souza da Silva e Rúbia de Moura Carneiro, UFRRJ

O capim-amargoso (Digitaria insularis) é uma gramínea perene, entouceirada e que se reproduz por rizomas e sementes. Essa espécie apresenta crescimento inicial lento. No entanto, dos 45 dias aos 105 dias após a emergência o seu crescimento é acelerado, apresentando aumento exponencial de matéria seca. Trata-se de uma planta de grande potencial infestante, devido ao desenvolvimento rápido e agressivo, seu tipo de reprodução e capacidade de formar touceiras.

O controle químico em pré-emergência do capim-amargoso apresenta alta eficiência. Contudo, em pós-emergência existem poucos herbicidas registrados para aplicações, dentre os quais os inibidores da EPSPs (glifosato) e os da ACCase (graminicidas) são os que apresentam capacidade de translocar até os rizomas, característica importante para um controle eficiente. 
Além das características desfavoráveis de controle desta planta daninha, atualmente ainda há registro de resistência de capim-amargoso ao herbicida glifosato na Argentina, no Paraguai e no Brasil (primeiros relatos no estado do Paraná em 2008). Em 2016 também foi relatado o primeiro caso de resistência cruzada do capim-amargoso aos herbicidas fenoxaprope e haloxifope-p-metílico, ambos pertencentes ao mecanismo de ação ACCase. No entanto, a resistência a graminicidas ainda é pontual e, nas áreas onde não ocorre, estes herbicidas são efetivos para o controle do capim-amargoso quando aplicados de forma correta. Portanto, a alternativa química mais eficaz para controle de capim-amargoso resistente ao glifosato é a utilização de herbicidas inibidores da enzima ACCase.

Área de produção de soja safra 2017/18 na região oeste do Paraná sob alta infestação de plantas daninhas no momento da colheita da soja


O problema se agrava quando há infestações de capim-amargoso em conjunto com plantas de folhas largas resistentes/tolerantes ao glifosato, como a buva, o caruru e a trapoeraba, na mesma área de produção. Estudo realizado pela Embrapa no último ano avaliou que em lavouras de soja com infestações de buva e capim-amargoso resistentes a herbicidas, os custos de produção podem sofrer um aumento médio de até 222%. Por se tratar de gramíneas e folhas largas, o controle químico deve ser específico para cada espécie, necessitando utilizar mistura ou sequencial de herbicidas para controle de ambas as plantas resistentes. No entanto, embora a mistura ou sequencial de herbicidas seja uma prática comum de manejo, diversos cuidados devem ser tomados para que não ocorram interações desfavoráveis entre os produtos utilizados, o que pode interferir negativamente no controle das plantas daninhas.


INTERAÇÕES ENTRE HERBICIDAS
A associação ou mistura de herbicidas baseia-se na utilização simultânea ou sequencial de dois ou mais produtos aplicados sobre a mesma área ou cultura. Atualmente, a mistura em tanque não é uma prática proibida, mas é de responsabilidade dos agricultores e não pode ser prescrita em receita agronômica pelo profissional habilitado. Contudo, a liberação da mistura em tanque está tramitando sob a portaria de número 148 no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o que, se aprovada, permitirá ao profissional recomendar este tipo de atividade. Além do uso de misturas em tanque, a aplicação de herbicidas na modalidade sequencial vem se mostrando uma alternativa interessante para o controle de plantas daninhas. Esta prática amplia a eficiência do controle, além de ser uma oportunidade de eliminar diversos fluxos de emergência, reduzindo a densidade das plantas daninhas.
Interações devido a misturas/sequencial de herbicidas podem ocorrer antes, durante ou após a aplicação. Os herbicidas têm capacidade de interagir física ou quimicamente na solução de pulverização (calda) ou biologicamente na planta. Estas interações podem gerar incompatibilidade na calda e/ou efeito sinérgico, aditivo ou antagônico na planta em relação ao efeito de cada herbicida utilizado isoladamente.

A) Vista frontal das plantas de capim-amargoso aos 35 dias após a aplicação dos herbicidas. Tratamentos da esquerda para direita: Testemunha; 2,4-D e haloxifope-p-metílico com intervalos de 3, 6 e 12 dias entre aplicação, respectivamente; B) Aos 35 dias após a aplicação dos herbicidas. Tratamentos da esquerda para direita: Testemunha; cloransulam e haloxifope-p-metílico com intervalos de 3, 6 e 12 dias entre aplicação, respectivamente; C) Aos 35 dias após a aplicação dos herbicidas. Tratamentos da esquerda para direita: Testemunha; haloxifope-p-metílico e 2,4-D com intervalos de 3, 6 e 12 dias entre aplicação, respectivamente; D) Aos 35 dias após a aplicação dos herbicidas. Tratamentos da esquerda para direita: Testemunha; haloxifope-p-metílico e cloransulam com intervalos de 3, 6 e 12 dias entre aplicação, respectivamente. Seropédica-RJ, 2018


Antes da aplicação, a interação física está associada aos ingredientes inertes presentes nos produtos comerciais, enquanto a interação química está associada à molécula do herbicida. As incompatibilidades físicas podem ocorrer nas misturas em tanque, mediante a formação de precipitados ou grumos, que podem levar ao entupimento das pontas e dos filtros. Já a incompatibilidade química ocorre quando a mistura em tanque altera a eficiência dos ingredientes ativos misturados, podendo gerar aumento da fitotoxicidade, causando danos à cultura de interesse econômico. Neste sentido, quando as informações sobre a mistura são desconhecidas, recomenda-se uma pré-mistura (teste de jarra) para verificar reações físico-químicas indesejáveis. Caso isso ocorra, devem-se buscar meios para substituir os produtos incompatíveis ou realizar a aplicação de forma isolada. No entanto, vale destacar que incompatibilidades biológicas não são reveladas por estes testes.
Após a aplicação, quando o efeito da mistura/sequencial nas plantas daninhas é maior que oefeito esperado para herbicidas utilizados separadamente, a mistura é sinérgica. Quando é menor que o esperado, é antagônica. Já os aditivos ocorrem quando o efeito dos herbicidas em mistura é igual à soma dos seus efeitos quando aplicados separados. 


ANTAGONISMO E SINERGISMO
Interações antagônicas entre herbicidas frequentemente causam ineficiência no controle de plantas daninhas. As interações negativas entre herbicidas em mistura/sequencial podem ser atribuídas a alterações na quantidade de um herbicida que atinge seu sítio de ação através de mudanças na absorção, na translocação ou no metabolismo, causadas pela presença do outro herbicida. A interação entre os herbicidas pode vir a afetar sua ligação no local de ação, reduzindo seu efeito. Aproximadamente 80% das interações antagônicas ocorrem em espécies da família Poaceae (gramíneas).
Em contrapartida, interações sinérgicas podem auxiliar o manejo de plantas daninhas, aumentando o espectro de controle e reduzindo custos. Na maioria das vezes, o sinergismo ocorre devido à ação dos constituintes da formulação de um herbicida sobre o outro, melhorando sua absorção e/ou translocação.
A associação entre herbicidas em mistura ou em sequencial é dependente das doses utilizadas, das espécies vegetais, da época de aplicação, do estádio de desenvolvimento da planta e da compatibilidade bioquímica entre os mecanismos de ação dos herbicidas (Tabelas 1 e 2).
Considerando que o capim-amargoso e a buva estão entre as daninhas de maior preocupação nas áreas de produção de grãos do Brasil, o Grupo de Pesquisa Plantas Daninhas e Pesticidas no Ambiente (PDPA/UFRRJ) vem realizando pesquisas que demonstram ter a mistura de graminicidas (ACCase) com latifolicidas (2,4-D ou ALS) efeito antagônico no controle do capim-amargoso e efeito aditivo no combate à buva. Porém, o intervalo entre aplicações pode anular o antagonismo entre herbicidas no controle de capim-amargoso. Nesses casos, a recomendação fica restrita em função do antagonismo para capim-amargoso. 
Quando o latifolicida (2,4-D ou cloransulam) foi aplicado no mesmo dia que o graminicida (haloxifope-p-metílico), ou quando o latifolicida foi aplicado antes do graminicida, independentemente do intervalo entre aplicações, a interação entre os herbicidas foi antagônica e não ocorreu controle eficiente das plantas (controle inferior a 80%). Contudo, a aplicação em sequencial de haloxifope-p-metílico seguida do latifolicida (2,4-D ou cloransulam), com intervalo mínimo de seis dias entre aplicações, apresentou interação aditiva no controle de capim-amargoso, anulando o efeito antagônico observado anteriormente. Em outro ensaio foi observado que em aplicação sequencial de glifosato + haloxifope-p-metílico (primeira e segunda aplicação com 21 dias de intervalo) o controle das plantas de capim-amargoso foi superior a 95%. Entretanto, quando foi adicionado 2,4-D na primeira aplicação, o controle passou a ser de aproximadamente 70%, evidenciando o antagonismo entre os herbicidas.
Portanto, em áreas infestadas com plantas de capim-amargoso e plantas de folha larga resistentes/tolerantes ao glifosato, a recomendação é aplicar o graminicida pelo menos seis dias antes do latifolicida. Deve-se preconizar o controle de ambas as plantas em estádio inicial de desenvolvimento, visto a dificuldade de controle em estádios avançados.

Avaliação de controle de capim-amargoso com mistura de herbicidas (A) Plantas antes da aplicação; (B) Plantas 14 dias após aplicação (glifosato+haloxifope+2,4-D) com sintomas características de graminicidas; (C) Plantas 21 dias após a aplicação do sequencial – controle aproximado de 70% (1ª aplicação: glifosato+haloxifope+2,4-D; 2ª aplicação: glifosato+haloxifope – 21 dias de intervalo entre as aplicações); (D) Detalhe do rebrote das plantas do tratamento anterior; (E) Plantas 21 dias após a aplicação do sequencial, sem latifolicida na mistura - controle aproximado de 95% (1ª aplicação: glifosato+haloxifope; 2ª aplicação: glifosato+haloxifope – 21 dias de intervalo entre as aplicações)


Recomendações práticas

• Utilizar herbicidas pré-emergentes, a fim de reduzir o banco de sementes e a competição inicial do capim-amargoso com a cultura de interesse.
• Realizar o controle do capim-amargoso nos estádios iniciais de desenvolvimento, evitando que as plantas formem touceiras.
• Quando presentes na mesma área, capim-amargoso e plantas de folha larga resistentes/tolerantes, realizar a aplicação em sequencial de graminicida + latifolicida, com intervalo mínimo de seis dias.
• Rotacionar os mecanismos de ação, a fim de evitar a seleção de biótipos de capim-amargoso resistentes a herbicidas.
• Manter boa cobertura do solo (incluindo o consórcio) nas áreas de produção, para suprimir a germinação de plantas daninhas.

Camila, Ana Cláudia, Jéssica, Amanda, Gabriella, Gabriela e Rúbia abordam a interação de herbicidas


Camila Ferreira de Pinho,

Ana Claudia Langaro,

Jéssica Ferreira Lourenço Leal,

Amanda dos Santos Souza,

Gabriella Francisco P. Borges de Oliveira,

Gabriela de Souza da Silva e

Rúbia de Moura Carneiro,

UFRRJ


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