Como realizar o manejo seguro de percevejos

  • Página 20 |
  • Dez 2019 |
  • Adeney de Freitas Bueno, Embrapa Soja; Emerson Crivelaro Gomes, Iapar

Manejar pragas com um uso racional de inseticidas é possível e traz economias para o bolso do sojicultor, além de grandes vantagens ecológicas a médio e longo prazo ao meio ambiente, deixando a produção de soja muito mais sustentável. Essa realidade vai além das pesquisas e já pode ser observada em campo, em áreas comerciais de produtores de soja do estado do Paraná, graças ao trabalho conjunto realizado pela Emater e pela Embrapa Soja. Nos resultados das primeiras cinco safras do projeto é possível observar uma economia no uso de inseticidas entre 43,2% (safra 2016/2017) e 55,9% (safra 2017/2018) quando comparadas as áreas de produtores participantes do programa MIP Soja assistidos pelas Emater em relação a agricultores não assistidos (Tabela 1).

Na safra 2018/19, os resultados foram separados em áreas cultivadas com soja Bt e áreas cultivadas com soja não Bt. Assim, é possível observar redução de 48,8% do uso de inseticidas em áreas de soja não Bt e 53,6% de diminuição do emprego de inseticidas em áreas de soja Bt graças à adoção do manejo integrado de pragas (Tabela 2). Essa redução no gasto com inseticidas propiciou uma economia de duas sacas/ha nessa safra.

A grande vantagem, é que esse menor uso de inseticida é possível sem qualquer perda de produtividade. Sendo assim, os produtores que adotaram essa tecnologia de manejo já economizaram entre 1,8 saca (safra 2016/2017) e três sacas (safra 2014/2015) por hectare/ano nos gastos com controle de pragas nesses seis anos de projeto. Isso é bom para o meio ambiente e principalmente para o bolso do produtor, que passa a ter maior lucratividade.

Mas como isso é possível?

Isso somente é possível porque a planta de soja tem tolerância natural ao ataque de pragas antes de ter sua produtividade reduzida. Apesar de todas as mudanças que a planta de soja sofreu ao longo dos anos (ciclo precoce, hábito indeterminado, plantas geneticamente modificadas como RR e Bt), o que é muitas vezes utilizado como argumento para tentar convencer o agricultor de que ele precisa controlar as pragas mais cedo do que fazia no passado, todos os resultados de pesquisa publicados comprovam o contrário. Assim, é cientificamente comprovado que existe a hora certa de controlar pragas. Portanto, a aplicação de inseticidas é apenas justificável quando a população de pragas for igual ou superior aos níveis de ação (NA).

Segurança do nível de ação de percevejos

Apesar de nos últimos anos alguns especialistas afirmarem que esses níveis de ação estariam desatualizados, os resultados obtidos na pesquisa e observados em campo mostram outra realidade. Para percevejos, por exemplo, as afirmações de que por muito tempo o seu controle teria supostamente sido realizado tardiamente (como sendo erros de recomendação da pesquisa científica) são negadas por observações de campo onde claramente se percebe que não há benefício da aplicação mais antecipada dos inseticidas (antes dos níveis de ação recomendados). Quando se compara a produtividade obtida em áreas onde o nível de ação de dois percevejos ≥ 0,5cm/metro foi adotado com áreas que tiveram aplicações antecipadas, é possível observar que mesmo em situações em que a produtividade total foi maior no tratamento com aplicação antecipada (66,5 sacas na safra 2010/11), quando o maior gasto com inseticida é descontado dessa produtividade, a lucratividade é sempre maior no tratamento que seguiu o nível de ação de dois percevejos estabelecido pela pesquisa (uma saca a mais no exemplo da safra 2010/11) (Tabela 3).

Fica claro que o argumento de que a menor aplicação de inseticidas para lagartas na soja Bt está aumentando a infestação de percevejos no campo também não parece estar ocorrendo na realidade. Quando o monitoramento é realizado e o nível de ação adotado, nas áreas de soja Bt a média de aplicação para percevejos (128 áreas) no Paraná foi de 1,1 aplicação/safra, enquanto a média de aplicações (113 áreas) de percevejos na soja não Bt foi de 1,2 aplicação/safra na safra 2018/19.

Controlar percevejo no início da infestação mesmo antes da formação das vagens?

É de certa forma comum ouvir no campo que se os percevejos não forem controlados no início da infestação, o controle fica muito difícil quando a população se estabelece na lavoura. Em experimento realizado no município de Iguaraçu, Paraná, é possível observar que a aplicação do inseticida no florescimento da soja até propiciou um atraso na infestação do percevejo, mas quando estava no período mais crítico para sua produtividade (R5), a população de pragas cresceu em ambos os tratamentos, precisando de controle com inseticida (Figura 1). Mesmo com o maior gasto com inseticidas no tratamento com controle no início da infestação dos percevejos, não houve diferença estatística na produtividade de ambos os tratamentos.

Além da produtividade semelhante, é importante considerar que aplicações no florescimento (R1 e R2) podem causar maior impacto às abelhas e a outros insetos benéficos como predadores e parasitoides que auxiliam no controle biológico natural das pragas. Por isso, os percevejos devem somente ser controlados a partir de R3 (formação das primeiras vagens), quando a população estiver igual ou maior que o nível de ação.

Controle de percevejos deve ocorrer no momento adequado
Controle de percevejos deve ocorrer no momento adequado.

Tolerância da planta de soja às injúrias de pragas

Os níveis de ação de pragas são bem seguros e devem ser respeitados porque a planta de soja é, em geral, bastante tolerante a diferentes tipos de injúrias. Em uma tese de doutorado em andamento na Embrapa Soja, a oleaginosa mesmo com 15% de suas vagens perfuradas completamente no estádio R4 (com a perda de um dos grãos em cada vagem furada) ou ainda com 100% das flores removidas no florescimento pleno (R2) foi capaz de produzir igual à testemunha sem qualquer injúria (Tabela 4).

Essa tolerância da soja ao ataque de pragas pode variar entre cultivares, mas o nível de ação considera essa variabilidade e por isso deve ser adotado para todas as cultivares existentes, como o momento ideal para iniciar o controle.

Se o sojicultor ainda quiser ter maior segurança em seu manejo, ele pode optar por usar cultivares mais tolerantes ao ataque das pragas. Para percevejos, a Embrapa recentemente lançou a tecnologia Block. Essa tecnologia identifica as cultivares de soja que apresentam características que permitem à planta sob ataque de altas infestações de percevejos terem menor perda de produção quando comparadas às cultivares sem a tecnologia. As cultivares com tecnologia Block proporcionam maior estabilidade de produção em situações de altas populações de percevejos e deve ser usada no contexto de um conjunto de tecnologias recomendadas pela pesquisa para o manejo integrado de pragas (MIP-Soja).

Por isso, faça o certo. Garanta sua produtividade gastando menos com a adoção do MIP-Soja e dos níveis de ação recomendados pela pesquisa e cultivares tolerantes/resistentes quando disponível. O ambiente e o seu bolso agradecem!

Figura 1 - População de percevejos comparativa no tratamento seguindo o nível de ação (MIP) e o tratamento com aplicação no início da infestação antes da formação de vagens (Crivelaro 2019, dissertação de mestrado)
Figura 1 - População de percevejos comparativa no tratamento seguindo o nível de ação (MIP) e o tratamento com aplicação no início da infestação antes da formação de vagens (Crivelaro 2019, dissertação de mestrado).
Bueno defende observância ao nível de ação preconizado
Bueno defende observância ao nível de ação preconizado.


Adeney de Freitas Bueno, Embrapa Soja; Emerson Crivelaro Gomes, Iapar

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