Controle de fitonematoides no meloeiro

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  • Jun 2020 |
  • Mário Inomoto, Victor Hugo Moura de Souza e Tiarla Graciane Souto

O meloeiro e os fitonematoides são velhos conhecidos no Brasil. São de 1955 as primeiras observações de perdas causadas por Meloidogyne incognita na cultura do melão, em Campinas, São Paulo (Normanha, 1958). Os sintomas foram visíveis 38 dias após a semeadura: retardamento do crescimento; redução do tamanho e amarelecimento das folhas, sintoma esse que progrediu para secamento; formação de galhas tanto na raiz principal como nas secundárias/terciárias. Essas plantas não produziram frutos. Verificou-se distribuição muito irregular de M. incognita nessa plantação em particular: os sintomas descritos foram observados em 106 plantas dentre as três mil da área. Por vezes, uma planta estava sadia e outra severamente infestada na mesma cova de semeadura.

Atualmente, outro nematoide causador de galhas também representa ameaça à cultura do melão: M. javanica. Por apreciarem temperaturas elevadas, M. incognita e M. javanica ocorrem em todo o Brasil. Mesmo em estados do Sul do País, ambas as espécies são muito comuns, ficam inativas nos meses frios, mas apresentam grande atividade nos meses quentes. Em temperaturas favoráveis, seu ciclo se completa em um mês. Outra característica de ambos os fitonematoides é a capacidade de parasitar muitas plantas de valor econômico. São mais de duas mil plantas hospedeiras conhecidas, entre culturas anuais e perenes, além de plantas invasoras. São os nematoides mais conhecidos pelos agricultores, devido às tão características galhas radiculares, que geralmente são muito conspícuas em raízes de meloeiro.

Quando a densidade inicial do nematoide não é muito elevada, os nematoides-das-galhas não causam redução das ramas e dos frutos ou ausência de frutificação. Porém, por ocasião da frutificação, a densidade poderá ter aumentado muito, resultando em intenso amarelecimento e secamento de folhas, expondo os frutos ao sol. Se esses frutos não forem protegidos artificialmente, perderão o valor comercial devido a queimaduras causadas pelo sol.

Existe um terceiro fitonematoide, de importância tão grande ou talvez maior que os nematoides-das-galhas para a cultura do melão. É o nematoide-reniforme (Rotylenchulus reniformis), que também é capaz causar grande redução no crescimento do meloeiro (Heald, 1975). Como não provoca a formação de galhas nas raízes, sua presença muitas vezes passa despercebida, apesar dos evidentes sintomas nas ramas. Porém, se o agricultor lavar cuidadosamente as raízes, conseguirá visualizar as massas de ovos, que são pequenas estruturas arredondadas na superfície das raízes infestadas. Essas massas de ovos são bem visíveis 30 a 45 dias após a semeadura do melão em solos infestados. Embora seu registro na cultura do melão seja relativamente recente, em 2001 (Moura et al, 2002), é possível que a relevância de R. reniformis nessa cultura agora suplante a dos nematoides-das-galhas (Nunes et al, 2011).

Melão Gaúcho Redondo é resistente a Meloidogyne incognita, mas suscetível a outros fitonematoides, como M. javanica
Melão Gaúcho Redondo é resistente a Meloidogyne incognita, mas suscetível a outros fitonematoides, como M. javanica. Foto: Agristar

Por fim, vale a pena citar uma quarta espécie de fitonematoide, a menos conhecida pelos produtores de melão. Trata-se de P. brachyurus, a mesma que é tão temida pelos sojicultores brasileiros. Sua importância ainda não foi mensurada, mas é potencialmente uma séria ameaça, pois já há registros de ocorrência em pelo menos um município produtor do Rio Grande do Norte (Torres et al, 2004), e verificou-se experimentalmente que métodos de controle de P. brachyurus, como sucessão com Crotalaria spectabilis, resultaram em meloeiros maiores e mais vigorosos que aquelas em sucessão com sorgo, que é suscetível ao nematoide

Raiz de meloeiro Asturia com massas de ovos de Rotylenchulus reniformis
Raiz de meloeiro Asturia com massas de ovos de Rotylenchulus reniformis

O controle é difícil, mas possível

Todos os agricultores que enfrentam os fitonematoides esperam por métodos de controle eficazes, de custo baixo e que não interfiram na rotina de produção. Métodos que possuam as três qualidades ainda não existem para a cultura do melão, porém há alguns com uma ou duas delas.

Em termos operacionais, o controle por meio de nematicidas é o mais adequado. Podem ser sintéticos ou biológicos, e ser aplicados no solo ou por meio de tratamento de sementes (TS). Atualmente há somente dois nematicidas sintéticos registrados para a cultura do melão. Fenamifós e fluensulfona possuem registro para o controle de M. incognita e devem ser aplicados com a água de irrigação, na semeadura do meloeiro ou três dias antes. O TS é um dos métodos de controle de fitonematoides mais aceitos pelos agricultores, pela facilidade operacional, mas não há nematicidas registrados para essa finalidade em meloeiro. Há resultados experimentais que demonstraram a eficácia de abamectina, na dose de 0,3mg do ingrediente ativo por semente de meloeiro Gaúcho Redondo, no controle de M. javanica (Rodrigues, 2015).

Meloeiros Asturia após sorgo (esquerda) e Crotalaria juncea IAC-KR1 (direita) e após sorgo (esquerda) e Crotalaria spectabilis (direita), todos em solo infestado por Pratylenchus brachyurus
Meloeiros Asturia após sorgo (esquerda) e Crotalaria juncea IAC-KR1 (direita) e após sorgo (esquerda) e Crotalaria spectabilis (direita), todos em solo infestado por Pratylenchus brachyurus
Ciclos e sintomas de ataque de nematoides em meloeiro
Ciclos e sintomas de ataque de nematoides em meloeiro

Os nematicidas biológicos, principalmente aqueles cujos agentes são bactérias (Bacillus subtilis, B. licheniformis etc.), têm sido os preferidos pelos produtores de melão. Experimentalmente, os fungos Purpureocillium lilacinum e Pochonia chlamydosporia têm apresentado resultados positivos. O mais promissor é um produto comercial à base de P. chlamydosporia, na dose de 1g do produto comercial por planta, eficaz no controle de M. incognita e de R. reniformis (Souza, 2018; Souto, 2020).

Em diversas culturas, além de ação nematicida, os agentes de controle biológico mostram efeitos secundários que beneficiam as plantas, já tendo sido observado aumento no teor de clorofila nas folhas jovens de meloeiro. No caso específico dos fungos, podem colonizar epi e/ou endofiticamente as raízes, beneficiando-as (Souza, 2018).

Por fim, não se pode esquecer das espécies do fungo Trichoderma, muito utilizado na agricultura brasileira como uma panaceia contra vários nematoides e fungos de solo.

Sucessão deveria ser mais utilizada

A sucessão de culturas é uma opção de controle ainda pouco explorada. Nas áreas produtoras do Rio Grande do Norte e Ceará, os meses mais secos (julho a janeiro) são os preferidos para a produção de melão. Nos mais chuvosos (fevereiro a junho), em contraste, muitas dessas áreas são mantidas em pousio ou aproveitadas para a cultura do milho, com objetivo de produção de milho verde para as festas juninas. O efeito do pousio sobre os fitonematoides é muito variável, conforme a composição da vegetação espontânea e a fauna de fitonematoides local. Já o efeito do milho é conhecido e altamente previsível para M. incognita (aumenta a densidade populacional), R. reniformis (reduz) e P. brachyurus (aumenta). Por outro lado, a resposta do milho para M. javanica é dependente do híbrido ou da cultivar: embora a maioria seja suscetível, há alguns que são resistentes. Portanto, milho contribui para o controle do nematoide-reniforme, e também M. javanica, se o híbrido ou a cultivar for resistente a essa espécie de nematoide-das-galhas.

Outras culturas para sucessão são os adubos verdes. Mucuna-preta, Crotalaria juncea e milheto são os mais utilizados, pois são aqueles que conseguem competir com a vegetação espontânea. Embora C. spectabilis seja mais eficaz que esses adubos verdes no controle de fitonematoides, principalmente M. incognita, M. javanica e P. brachyurus, não tem sido utilizado nas áreas produtoras de melão do Nordeste brasileiro, devido ao crescimento inicial lento. Porém, é uma opção válida para meloeiro em estufas, tendo a vantagem adicional do porte menor que C. juncea.

Experimentalmente, verificou-se efeito positivo de C. juncea IAC-KR1 e milheto ADR-300 sobre o crescimento de meloeiro Asturia, em solo infestado por P. brachyurus. Apesar desses adubos verdes terem sido menos efetivos que C. spectabilis no controle de P. brachyurus, não se verificou vantagem de C. spectabilis em comparação com C. juncea e milheto sobre o desenvolvimento das ramas de meloeiro.

Como já mencionado, um aspecto importante para a escolha dos adubos verdes é a competição com a vegetação espontânea. Outro é a resposta aos adubos verdes aos nematoides presentes no local. Por exemplo, milheto ADR-300 tem se mostrado promissor no controle de P. brachyurus. Porém, em áreas com M. incognita não se recomenda seu uso como adubo verde, pois essa cultivar de milheto é suscetível ao nematoide.

Importância do melhoramento genético

Existem algumas cultivares de meloeiro resistentes a M. incognita ou M. javanica, porém, as cultivares mais aceitas pelo mercado nacional, como Iracema e Asturia, são suscetíveis a ambos os nematoides. O meloeiro Gaúcho Redondo seria uma opção em áreas infestadas por M. incognita, mas apenas para pequenos produtores locais, pela baixa aceitação comercial. Além disso, é suscetível a M. javanica. Porém, é uma cultivar potencialmente valiosa como fonte de resistência (Candido, 2013) e como porta-enxerto (Ito et al, 2014). Informações sobre a resposta de meloeiros a R. reniformis e P. brachyurus são escassas, e todas indicam que não há cultivares resistentes a nenhum deles.

Crotalaria juncea é um dos poucos adubos verdes capazes de competir com a vegetação espontânea durante os meses chuvosos, em áreas de produção de melão do NE brasileiro
Crotalaria juncea é um dos poucos adubos verdes capazes de competir com a vegetação espontânea durante os meses chuvosos, em áreas de produção de melão do NE brasileiro


Considerações finais

Destruição de restos culturais, enxertia sobre cucurbitáceas resistentes, solarização, injeção de vapor, alqueive tradicional, alqueive úmido, biofumigação, indução de resistência são alguns dos métodos válidos ou promissores para o controle dos fitonematoide do meloeiro. Sucessão e cultivares resistentes apresentam limitações, mas poderiam ser mais exploradas, pois listas de plantas para sucessão estão disponíves na literatura, e fontes de resistência a M. incognita ou M. javanica são conhecidas em meloeiro e outras espécies de Cucumis. Entretanto, por ora, a aplicação de nematicidas, com destaque para os biológicos à base de Bacillus spp., é o método mais aceito pelos produtores de melão no Brasil.

Galhas causadas por Meloidogyne incognita em raízes de meloeiro
Galhas causadas por Meloidogyne incognita em raízes de meloeiro

Mário Inomoto,
Victor Hugo Moura de Souza e
Tiarla Graciane Souto,
Esalq/USP


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