Cuidados com o manejo de mancha-branca em milho

  • Página 12 |
  • Jun 2020 |
  • Nédio Tormen, Phytus Group Centro-Oeste, Elevagro; Marlon Stefanello e Daiane Dalla Nora, Elevagro​

O milho é o cereal mais produzido no mundo. O Brasil é atualmente o terceiro maior produtor, atrás somente dos Estados Unidos e da China. A maior parte da produção brasileira vem do chamado milho safrinha ou de segunda safra, que já possui a maior área plantada em relação ao milho safra. Para ambos os sistemas de produção, há uma constante busca pelo incremento da produtividade e, dentro deste contexto, as preocupações com doenças tornam-se muito importantes, devido aos danos que podem causar na cultura.

Dentre as doenças mais importantes da cultura do milho, a mancha-branca vem se destacando, com altas severidades e redução de produtividade. O agente causal da doença por muitos anos foi considerado como sendo o fungo Phaeosphaeria maydis, porém trabalhos mais recentes defendem que a doença é provocada pela bactéria Pantoea ananatis. Muitos pesquisadores relatam que a causa da doença está relacionada com a interação do fungo e a bactéria, porém ainda não há unanimidade.

Os produtores têm se preocupado cada vez mais com o aumento da severidade da mancha-branca no campo e a sua identificação é muito importante para a tomada de decisão em relação ao melhor manejo. Nesse sentido, um dos principais fatores para diagnose é a identificação de sinais nas lesões. Sinais são estruturas de desenvolvimento ou reprodução do patógeno que permitem identificá-lo. Por exemplo, em lesões mais evoluídas, a presença de picnídios (pontos pretos) no centro das lesões caracteriza-se como sinais de Phaeosphaeria maydis.

No campo, é muito comum entre produtores e técnicos a dificuldade de se diferenciar corretamente os sintomas causados pela doença de lesões por injúrias da fitotoxidade de herbicidas como o paraquate. Os sintomas resultantes da deriva de herbicidas à base de paraquate caracterizam-se por áreas cloróticas, esbranquiçadas, com aspecto seco e margens de cor marrom. Assim, com frequência, as lesões produzidas pela deriva têm sido confundidas com a mancha-branca.

De maneira geral, a mancha-branca começa com pequenos sintomas nas folhas e vai evoluindo, tomando maiores proporções. Por outro lado, os sintomas de fitotoxidade ocorrem de forma repentina, horas ou dias após a exposição das plantas ao herbicida. Tipicamente a mancha-branca está associada a períodos úmidos, de alta pluviosidade, dias nublados, molhamento foliar e solo bastante úmido.

Picnídios (sinais) indicando a presença de P. maydis em folhas de milho
Picnídios (sinais) indicando a presença de P. maydis em folhas de milho.
Mancha de feosféria ou mancha-branca
Mancha de feosféria ou mancha-branca.

Epidemiologia e sintomatologia

Algumas condições têm tornado o ambiente de cultivo favorável à ocorrência da doença, como a sucessão de culturas e o aumento das áreas de milho safrinha. O milho cultivado sempre na mesma área (safra-safrinha-safra) faz com que o patógeno encontre uma ponte verde e o inóculo aumente na área de cultivo.

Algumas condições ambientais são mais favoráveis à ocorrência do fungo, como umidade relativa acima de 60%, alta precipitação e temperaturas noturnas mais amenas (14°C). A produtividade pode ser reduzida em mais de 60%, em ambientes favoráveis, combinado com o uso de cultivares mais suscetíveis. Normalmente, o maior período de ocorrência e severidade da doença ocorre a partir da primeira quinzena de novembro e vai até março.

O inóculo primário do fungo P. maydis está associado aos restos culturais, pois é um fungo necrotrófico. A disseminação do patógeno se dá por meio do vento e respingos de chuva no solo, que posteriormente entram em contato com as folhas das plantas. O florescimento da cultura é o período de maior sensibilidade da planta ao ataque do patógeno e, consequentemente, os sintomas são mais severos. No início da incidência da doença são observados sintomas nas folhas basais, que rapidamente progridem para a parte superior da planta. As lesões são cloróticas e têm forma oblonga, que com o passar do tempo evoluem e tornam-se esbranquiçadas. Posteriormente passam para a coloração pardo-escura. A ocorrência mais severa do fungo causa problemas no enchimento de grãos (tamanho e peso), redução do ciclo, o que pode levar à secagem prematura da planta. As folhas do terço inferior são as mais afetadas pela doença.

Manejo de mancha-branca

Com a produtividade cada vez maior dos novos híbridos e a necessidade da manutenção de toda a sua área foliar até o final do ciclo para que expressem toda a sua capacidade produtiva, surge o desafio de manejar as doenças para proteger o potencial produtivo. Mais cuidados devem ser observados na produção de milho de segunda safra, época em que o clima é mais úmido e propício para o desenvolvimento da mancha-branca. Períodos com condições climáticas favoráveis, especialmente após o florescimento da cultura, tornam as plantas mais suscetíveis ao ataque do patógeno.

Grande ênfase tem sido dada à aplicação de fungicida como estratégia de controle de mancha-branca. No entanto, fatores como a intensidade da doença e a época de sua ocorrência devem ser considerados na tomada de decisão sobre a primeira aplicação. Melhores resultados são observados com aplicações preventivas de fungicidas, que contribuem para manter a planta verde por mais tempo no campo e possibilitam maior enchimento de grãos. Além disso, o uso de fungicidas com misturas de triazóis, estrobilurinas e carboxamidas associados com multissítios apresenta resultados mais expressivos no controle da doença, resultando em incremento produtivo (Figura 1).

Figura 1 - Incremento produtivo de milho (AG 9000) (sc/ha) pela aplicação de fungicidas (Tz - Triazol; St - Estrobilurina;  Dtc - Ditiocarbamato). Fonte: elevagro.com
Figura 1 - Incremento produtivo de milho (AG 9000) (sc/ha) pela aplicação de fungicidas (Tz - Triazol; St - Estrobilurina; Dtc - Ditiocarbamato). Fonte: elevagro.com

Uma estratégia de manejo para a doença é a utilização da tolerância genética de cada híbrido. No entanto, sabe-se que os híbridos comercialmente distribuídos no mercado apresentam diferenças em relação à suscetibilidade para mancha-branca (Figura 2). Quanto maiores os valores de AACPD, mais suscetível é o híbrido de milho. Dessa maneira, é importante considerar a época de plantio para o correto posicionamento das aplicações de fungicida de acordo com cada híbrido utilizado na propriedade.

Figura 2 - Suscetibilidade de quatro híbridos de milho para mancha-branca, com base nos valores da Área Abaixo da Curva de Progresso da Doença (AACPD) *AACPD é uma variável que estima o acúmulo da doença ao longo do ciclo da cultura. Fonte: UEBEL, 2015.
Figura 2 - Suscetibilidade de quatro híbridos de milho para mancha-branca, com base nos valores da Área Abaixo da Curva de Progresso da Doença (AACPD) *AACPD é uma variável que estima o acúmulo da doença ao longo do ciclo da cultura. Fonte: UEBEL, 2015.

Desse modo, as principais medidas recomendadas para o manejo da mancha-branca são a rotação de culturas, o uso de cultivares resistentes, a aplicação de fungicidas e a adequação do posicionamento de fungicidas em função desses três fatores. Em áreas onde há histórico da ocorrência da doença, a rotação de culturas com espécies não suscetíveis torna-se uma prática amplamente recomendada, pois objetiva diminuir o inóculo inicial na área de cultivo, por se tratar de um patógeno que sobrevive em restos culturais.

Área de milho com severidade elevada de mancha-branca (P. maydis)
Área de milho com severidade elevada de mancha-branca (P. maydis).
Daiane, Stefanello e Tormen alertam para o aumento da mancha-branca em milho
Daiane, Stefanello e Tormen alertam para o aumento da mancha-branca em milho


Nédio Tormen, Phytus Group Centro-Oeste, Elevagro; Marlon Stefanello e Daiane Dalla Nora, Elevagro

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