Desafio de controlar lagartas em cultivos Bt

  • Página 24 |
  • Dez 2019 |
  • Germison Tomquelski e Yasmin Milken, Fundação Chapadão

A liberação de plantas geneticamente modificadas com resistência a pragas tem levado a grandes mudanças no sistema de produção com as culturas de soja, milho e algodoeiro. As principais se deram no comportamento das pragas, adaptação no sistema de produção, hospedeiros alternativos, mudanças quanto ao “status” de pragas (principais-secundárias) de cada cultura, entre outras.

Cada vez mais é importante analisar o agroecossistema no Cerrado brasileiro. Se observa muitas vezes um ambiente favorável à multiplicação de pragas, pois prevalece um sistema de produção em que a soja é a principal cultura a se estabelecer na grande maioria das áreas, podendo ser rotacionada com algodoeiro, milho ou não. Em ambientes em que não ocorre esta sucessão após a colheita, ainda pode ser estabelecida uma cultura de cobertura ou mesmo as áreas permanecem em “pousio”. Neste sistema de cultivo as pragas têm se adaptado há vários anos, mesmo antes da entrada dos Bts no mercado. Fatores como condições climáticas favoráveis, de altas temperaturas e de inverno ameno tornam-se ideais para a multiplicação dos insetos.

Tanto a soja, como as demais culturas estão sujeitas ao ataque de vários insetos desde a germinação até a colheita. No Manejo Integrado de Pragas (MIP) é fundamental o reconhecimento das pragas e de seus inimigos naturais. O monitoramento é a operação que reúne informações para a tomada de decisão de controle, como danos e intensidade da ocorrência. Entretanto, nos programas de MIP a tomada de decisão de controle é um fator que se modifica em função de diversos aspectos como eficientes estratégias de manejo, pátio de máquinas, custos de controle, entre outras variáveis ao longo dos anos.

O MIP caracteriza-se por alterar o agroecossistema o mínimo possível. A partir desse pressuposto, o controle de pragas na cultura da soja deixou de ser realizado através da dependência exclusiva de inseticidas químicos, para adotar sistemas que enfatizam o manejo da população de artrópodes no sistema de produção.

Entre as pragas, as lagartas podem gerar grandes prejuízos na cultura da soja, sendo que até a safra 2014/2015 eram consideradas por muitos pesquisadores como as de maior importância. Uma das lagartas, a Helicoverpa armigera, na região dos Chapadões, teve seu custo de controle na ordem de 50 dólares por hectare, nas safras de 2013/2014 e 2014/2015.

Entre as demais lagartas no sistema de produção também se destacam as do complexo Spodoptera (Spodoptera frugiperda e S. eridania), que nas condições de Cerrado apresentam alta frequência, destruindo folhas, vagens e grãos, comprometendo a produção.

O Brasil, por apresentar condições de vários ciclos, tem registrado sobreposição de gerações destas pragas e um aumento principalmente no número de indivíduos. Estas várias gerações da praga têm encontrado nos diversos hospedeiros alternativos, como as tigueras de culturas, como o milho e mesmo o algodoeiro, condições para que ocorram altos surtos populacionais nos últimos anos. 

Helicoverpa armigera é uma praga altamente polífaga, que pode se alimentar tanto dos órgãos vegetativos como reprodutivos de várias espécies de plantas de importância econômica no País. Seus prejuízos na região dos Chapadões já alcançaram a ordem de 40% na cultura da soja e até 75% na cultura do algodoeiro.  

Tanto a soja como as demais culturas estão sujeitas ao ataque de vários insetos desde a germinação à colheita
Tanto a soja como as demais culturas estão sujeitas ao ataque de vários insetos desde a germinação à colheita.

A espécie apresenta metamorfose completa, passando pelas fases de ovo, lagarta, pupa e adulto. O ovo, em sua porção apical, é liso, sendo o restante da sua superfície esculpido em forma de nervuras longitudinais. Possui coloração branco-amarelada com aspecto brilhante quando depositado, se tornando marrom-escuro próximo ao momento da eclosão. Após a eclosão, as lagartas se alimentam das partes mais tenras das plantas, onde podem produzir um tipo de teia ou até mesmo formar um pequeno casulo, no caso da soja. O período larval da H. armigera é composto de seis períodos distintos. Nos primeiros instares as lagartas apresentam coloração que varia do branco-amarelado a marrom-avermelhado. À medida que vão crescendo, se tornam de amarelo-palha ao verde, apresentando listras de coloração marrom lateralmente no tórax, abdômen e na cabeça. A coloração pode ser variável, pois é influenciada por sua alimentação e o ambiente.

Do quarto instar em diante as lagartas apresentam tubérculos abdominais escuros, que são bem visíveis na região dorsal, sendo esta a característica determinante para a identificação da espécie, também chamada por alguns especialistas de “sela”. Outra característica que a difere das demais é a textura coriácea do tegumento, que oferece certa resistência a inseticidas. A pupa apresenta coloração amarronzada e superfície arredondada, desenvolvendo-se no solo. Os adultos machos são cinza-esverdeados, com uma banda ligeiramente mais escura no terço distal e uma pequena mancha escurecida no centro da asa, podendo ser melhor vista ao se verificar a face inferior do inseto. Já as fêmeas apresentam asas dianteiras amareladas e as a posteriores claras. Apresentam uma borda marrom em sua extremidade apical. As fêmeas têm longevidade média de 11,7 dias e os machos de 9,2 dias e podem colocar de aproximadamente mil até três mil ovos sobre as plantas hospedeiras. Normalmente a oviposição é realizada à noite, sendo colocados os ovos de forma isolada ou em pequenos agrupamentos, preferencialmente na face adaxial das folhas ou sobre os talos, flores, frutos e brotações terminais com superfícies pubescentes. O ciclo total gira em torno de 30 dias.

Características de cultivo presentes no Brasil permitem gerações destas pragas e aumento principalmente no número de indivíduos
Características de cultivo presentes no Brasil permitem gerações destas pragas e aumento principalmente no número de indivíduos.

O alicerce do Manejo Integrado de Pragas (MIP) está na boa amostragem de campo, onde o monitor deve realizá-lo observando a frequência de amostragem, em intervalos de cinco - sete dias, com bom número de pontos, que proporcionem representatividade da lavoura, além de uma boa acurácia com relação às pragas. O número de pontos em um talhão é variável em função da operacionalidade, mas não se pode deixar de lado a questão da boa representação destas amostras. O mínimo sugerido é de um ponto a cada dez hectares em talhões superiores a 100ha.

Na questão da amostragem é importante salientar a distribuição desuniforme (ou seja, apresenta ocorrência em manchas nos talhões) das diversas pragas incidentes no atual ambiente “pós Bts”, fazendo-se necessário um cuidado maior na amostragem. Para H. armigera o monitoramento necessita de maiores cuidados na fase inicial, devendo o técnico desenrolar as folhas novas que porventura possam abrigar esta praga. No reprodutivo é preciso estar atento à sua ocorrência nas vagens, estimando a praga em porcentagem ou mesmo em lagartas por metro.

Distribuição de lagartas de Helicoverpa armigera em talhão de soja. Fundação Chapadão, safra 18/19. (Pontos vermelhos acima de duas lagartas por metro)
Distribuição de lagartas de Helicoverpa armigera em talhão de soja. Fundação Chapadão, safra 18/19. (Pontos vermelhos acima de duas lagartas por metro)

Dentre as estratégias de manejo adotadas pelos produtores é possível salientar o aumento na utilização de soja com a tecnologia de proteção às lagartas (soja com a expressão da proteína Bt).

A utilização de cultivares Bts faz com que as lagartas ao se alimentarem, os cristais de B. thuringiensis, ao serem ingeridos pelas larvas, sofram ação do pH intestinal e de proteases, que solubilizam o cristal e ativam as toxinas. Estas, por sua vez, se ligam a receptores localizados no tecido epitelial do intestino da larva, ocasionando a quebra do equilíbrio osmótico da célula, que se intumesce e rompe, propiciando o extravasamento do conteúdo intestinal para a hemocele do inseto. Em consequência, a larva para de se alimentar, entra em paralisia geral e morre por inanição ou septicemia.

Esta estratégia da utilização das plantas resistentes é muito oportuna por preservar grande parte dos inimigos naturais na cultura. No entanto, a sua utilização sem os cuidados com refúgio e outros aspectos tem levado ao processo de resistência, em determinadas pragas -culturas.

O Brasil, na safra 2018/2019, alcançou mais de 65% da área com adoção da tecnologia Bt em soja. Aliado a outras culturas com até maior taxa de adoção, observa-se uma certa pressão de seleção em determinados indivíduos, sendo importante o produtor se atentar cada vez mais às mudanças das pragas. Um fato interessante observado, quando a adoção alcançou mais de 50% em alguns eventos Bts ocorreu a quebra da resistência, apresentando os primeiros casos no Brasil (Farias 2014).

Na safra (2017/2018) ocorreram os primeiros relatos de escapes no controle de H. armigera na soja Bt com o desenvolvimento das lagartas na cultura a campo, sem a presença de misturas, em talhão cultivado (Fundação Chapadão 2018). Após, foi constatada a presença de híbridos, de H. armigera e H. zea, mesmo em outras áreas de produção do Brasil (Anderson et al, 2018). Na atual safra 19/20 algumas lagartas têm sido encontradas em determinadas regiões, porém com misturas de sementes.

Apesar deste fato, a cultura da soja apresenta um grande fator favorável, pois expressa mais a proteína quando comparada a outras. Mas em função do que já ocorreu em determinadas culturas como algodoeiro e milho, a pesquisa espera novos eventos. Uma extensa série de genes de B. thuringiensis pode ser utilizada na transgenia, incluindo alguns produtos comercialmente disponíveis e pipelines, principalmente os que expressam as toxinas Cry2Ab, Cry2Ae e Vip3a.

Um dos aspectos importantes ao analisar o sistema de produção, reside no fato de que o ambiente para as pragas é fundamental para o desenvolvimento, e devido à disponibilidade de hospedeiros alternativos o ano todo, tem se tornado viável o desenvolvimento inicial das lagartas e permitido que se desloquem para plantas Bt, em instares de desenvolvimento mais avançados. Esta situação leva a danos nas diversas culturas, além de contribuir para o processo de resistência no campo. O caso das tigueras de milho no sistema de produção é um grande exemplo para o aumento de S. frugiperda, Dichelops melacanthus, além da temida H. armigera. Outro fator a se analisar na utilização da tecnologia Bt é a taxa de mistura entre soja transgênica e não transgênica, e mesmo outras culturas, onde é comum a prática do produtor salvar parte de sua semente para utilizar na safra seguinte, ocorrendo também a migração entre estas plantas.

A estratégia do manejo cultural é uma das principais práticas que podem ajudar o sistema de produção em ambiente Bt, suportando outras táticas de controle. Esta estratégia busca diminuir o alimento para a praga, retirando-se hospedeiros alternativos como as tigueras. A prática do vazio sanitário já é utilizada em doenças, e em alguns casos de determinadas pragas auxilia, e muito, por retirar em certo momento, o melhor hospedeiro. No entanto, é necessário também entender os outros hospedeiros alternativos, e buscar retirá-los do ambiente, para uma melhor eficiência deste método.

Outra estratégia que pode ajudar a biotecnologia neste primeiro momento é o controle químico. Estratégia que o produtor tem realizado há vários anos para uma ampla gama de pragas. No entanto, vale salientar que grande parte das moléculas apresenta problemas de resistência, e isto é variável em função das diversas populações que apresentam suscetibilidades diferentes dentro do Brasil.

Para algumas ferramentas já se observa a diminuição de eficiência, em determinadas regiões. Estes problemas em um primeiro momento são contornados com associações a outros grupos químicos, para tentar uma sobrevida. Vale ainda salientar que os inseticidas “premium”, como benzoato de emamectina, indoxacarb, clorfenapyr e espinetoram, têm alcançado eficiências superiores a 80%, na grande maioria das regiões. No entanto, um trabalho de rotação com outros modos de ação se faz necessário, que englobe diamidas, reguladores de crescimento de insetos, carbamatos, fosforados, entre outros, para que não ocorra o “desgaste” das ferramentas.

Lagartas podem gerar grandes prejuízos na cultura da soja, sendo que até a safra 2014/2015 eram consideradas pragas de maior importância
Lagartas podem gerar grandes prejuízos na cultura da soja, sendo que até a safra 2014/2015 eram consideradas pragas de maior importância.

Vale salientar que para o Brasil é necessário avançar em lançamentos de novas moléculas. O problema é que o ritmo está aquém dos desafios dos últimos anos, principalmente após a entrada dos Bts.

Táticas como o controle biológico registram aumento na adoção, com grande expectativa pela pesquisa e sociedade. Porém ainda é necessário levar aos produtores e técnicos de campo um maior entendimento da sincronia dos diversos agentes com os Bts. Isso acaba sendo muito importante para as tomadas de decisões em âmbitos social e ambiental e para a rentabilidade da agricultura.

A integração das tecnologias é o caminho para o manejo destas importantes pragas. São fundamentais o bom conhecimento da praga, o sistema de produção e a realização de boas amostragens, que proporcionarão ao produtor adequar as ferramentas para alcançar aumento da produtividade-rentabilidade nas culturas, além de continuar a levar alimento barato à mesa do consumidor brasileiro.

Germison Tomquelski e Yasmin Milken, Fundação Chapadão

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