Descontaminação de citros pós-colheita para controle do cancro cítrico

  • Página 8 |
  • Jun 2020 |
  • Franklin Behlau e Alexandre Paloschi

O cancro cítrico, causado pela bactéria Xanthomonas citri subsp. citri (X. citri), é uma das doenças mais importantes da citricultura mundial por reduzir a produtividade das plantas afetadas pela desfolha e pela queda prematura dos frutos. A doença afeta também o comércio e transporte de frutos in natura pelo risco de disseminação do patógeno. Além de causar depreciação na aparência do fruto, o cancro cítrico restringe a comercialização da produção a outras regiões, principalmente aquelas sem ocorrência da doença. Os sintomas característicos do cancro cítrico nos frutos são lesões necróticas marrons, salientes e ásperas, visíveis cerca de duas semanas após a infecção durante os estádios iniciais de desenvolvimento.

Lesões de cancro cítrico em fruto de lima ácida Tahiti (esquerda) e em fruto e folha de laranja doce (direta)
Lesões de cancro cítrico em fruto de lima ácida Tahiti (esquerda) e em fruto e folha de laranja doce (direta)

As áreas de cultivo de citros em vários estados do Brasil, mas mais proeminentemente em São Paulo, enfrentaram o cancro cítrico por meio de medidas de exclusão e erradicação por 60 anos. Desde que a doença foi detectada pela primeira vez no país, em 1957, até 2017 o programa de erradicação passou por muitas modificações. Como o cancro cítrico nunca foi eliminado durante esse período, mas mantido com sucesso em níveis muito baixos, foi alcançada a supressão, mas não a erradicação definitiva da doença. No entanto, depois que os protocolos de erradicação se tornaram menos rigorosos, no final dos anos 2000 e início dos anos 2010, a incidência de pomares afetados pelo cancro cítrico em São Paulo, a maior área produtora de laranja do mundo, começou a estabelecer recordes consecutivos anualmente. Além disso, os resultados de pesquisas produzidas nas últimas décadas e as experiências bem-sucedidas em regiões produtoras de citros que realizam o manejo da doença estimularam a adoção de uma estratégia semelhante no Brasil.

Assim, levando em consideração o crescimento contínuo e irreversível do cancro cítrico em São Paulo, a maior área produtora de laranja do mundo e a distribuição heterogênea da doença no País, uma nova legislação federal entrou em vigor em 2017 (Instrução Normativa nº 37 – IN 37, de 5/9/2016, substituída em 2018 pela Instrução Normativa nº 21 – IN 21, de 25/4/2018) com a manutenção das principais determinações estabelecidas no documento anterior.

A IN 21 é a legislação atual que institui, em todo território nacional, critérios e procedimentos para o estabelecimento e a manutenção do status fitossanitário relativo à praga do cancro cítrico. Esta regulamentação mantém o cancro cítrico como uma doença quarentenária e permite que cada estado da federação adote diferentes status em relação à presença e incidência da doença em pomares de citros. Além disso, diferentes status podem ser adotados dentro de um mesmo estado. O status de uma área é determinado com base em levantamentos anuais coordenados pelas secretarias estaduais de agricultura de cada estado. Os resultados são submetidos ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para aprovação e oficializados por meio de resoluções. A definição do status não é obrigatória. No entanto, áreas com status desconhecido não podem comercializar e transportar frutas para outros estados. A IN 21 determina quatro status de controle ao cancro cítrico dependendo da incidência da doença nos pomares: (I) área sem ocorrência da praga, (II) área livre da praga, (III) área sob erradicação e (IV) área sob Sistema de Mitigação de Risco da Praga (SMR).

O SMR é um programa de certificação que preconiza a redução de riscos de comercialização de frutos com cancro cítrico por meio da adoção de medidas de manejo da doença nos pomares e higienização de frutos em packing houses ou casas de beneficiamento. O SMR permite que, pela primeira vez na história do país, o cancro cítrico possa ser manejado usando medidas de controle em substituição à erradicação de árvores em áreas com alta incidência da doença. O objetivo desta certificação é reduzir o potencial de inóculo para a proteção de áreas ainda sem ocorrência da praga, permitir o trânsito de frutos de citros oriundos de áreas de ocorrência da praga para outros estados e permitir a exportação de frutos de citros oriundos de áreas de ocorrência da praga para outros países. Atualmente os estados que possuem áreas sob SMR são São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Groso, Mato Grosso do Sul e alguns municípios de Minas Gerais.  

Frutos de laranja em balsa de imersão com bactericida para descontaminação contra a bactéria causadora do cancro cítrico
Frutos de laranja em balsa de imersão com bactericida para descontaminação contra a bactéria causadora do cancro cítrico

Descontaminação de frutos em pós-colheita

Apesar de o Brasil ser o maior produtor e exportador mundial de suco de citros, o país tem pequena participação no mercado internacional de frutas in natura. Neste segmento, o Brasil está muito abaixo de países com amplo histórico no cultivo de citros, como a Espanha, a África do Sul e a Argentina, que possuem áreas cultivadas de citros menores que a do Brasil. Os principais fatores que limitam a exportação de citros do Brasil estão relacionados às restrições fitossanitárias, em decorrência principalmente da ocorrência de doenças como a pinta-preta e o cancro cítrico. Apesar da pequena participação no cenário internacional, o citros é a terceira fruta in natura mais exportada do País e ainda com grande potencial de aumento do volume de exportação.

Com a recente mudança na legislação e a adoção do SMR em vários estados do País, que permite a presença de plantas com cancro cítrico nos pomares, a descontaminação de frutos em pós-colheita nas casas de beneficiamento passou a ser obrigatória para viabilizar a comercialização de frutas de citros in natura entre os estados da federação e outros países. Anteriormente a esta legislação, quando o cancro cítrico não estava disseminado no estado, a descontaminação de frutos em casas de embalagem era praticada por poucos produtores que utilizavam a aplicação de produtos sanitizantes para reduzir ou inibir a microbiota presente nos frutos e assim prolongar a “vida de prateleira” da produção. Apesar de implicar investimentos estruturais aos produtores, a obrigatoriedade de construir e adaptar as instalações para atender à legislação tem levado a um avanço importante na qualidade de produtos e processos a toda cadeia de frutos de citros in natura.

Apesar de existirem inúmeros produtos sanitizantes, de acordo com a IN 21, apenas o hipoclorito de sódio (NaCl) é permitido no Brasil para a descontaminação de frutos de citros contra X. citri. O hipoclorito de sódio é, provavelmente, o sanitizante de frutos de mesa mais utilizado no mundo. O amplo uso deste produto se deve principalmente ao grande volume de pesquisas que atestam sua eficácia e baixo custo. No entanto, este produto apresenta desvantagens importantes que levaram à necessidade de validação de bactericidas alternativos para esta finalidade, como perda de eficácia em calda com presença de sólidos em suspensão e matéria orgânica, e alto poder corrosivo a metais, o que reduz a vida útil de algumas máquinas e equipamentos utilizados nas casas de beneficiamento. Além disso, o hipoclorito de sódio pode ser precursor de compostos clorados tóxicos como cloraminas orgânicas, trihalometanos e dioxinas, que são prejudicais à saúde humana pelo potencial carcinogênico.

Bactericidas alternativos

Diversos outros produtos sanitizantes contendo ingredientes ativos de diferentes composições químicas são utilizados para a descontaminação de frutas e verduras, ambientes hospitalares, indústrias de alimentos etc. Esses produtos possuem ampla caracterização e aval favorável quanto a toxicidade, impacto ao meio ambiente e resíduos nas superfícies tratadas, credenciando-os para uso contra X. citri em casas de beneficiamento como substitutos ou alternativas ao hipoclorito de sódio. Entre estes produtos destacam-se o dióxido de cloro (ClO2), o oxicloreto de cálcio (Ca(ClO)2) e o ácido peracético (C2H4O3).

O dióxido de cloro tem a vantagem de ser mais estável na presença de matéria orgânica e tolerar faixa de pH em calda mais ampla (4 a 10), possuindo um poder oxidante 2,5 vezes maior quando comparado ao hipoclorito de sódio, o que possibilita o uso de menor concentração do produto. O dióxido de cloro possui ainda menor poder corrosivo e não forma compostos secundários tóxicos na calda ou superfície tratada. Por sua vez, o oxicloreto de cálcio, assim com o hipoclórico de sódio, ao ser adicionado à água forma o ácido hipocloroso (HOCl) que tem alta capacidade biocida. O oxicloreto de cálcio difere dos demais sanitizantes por ser formulado em pó ou pastilhas, o que facilita o armazenamento, porém necessita de agitação antes da utilização para completa dissolução em água. Além disso, o cálcio presente na formulação pode contribuir para uma maior resistência da superfície tratada ao ataque de micro-organismos em pós-colheita e assim prolongar o período de armazenagem. Por fim, o ácido peracético é um produto não clorado, consequentemente não corrosivo. Além disso, não leva à formação de substâncias residuais tóxicas em calda, gerando apenas oxigênio e ácido acético em contato com a água, e sua eficiência é pouco afetada pela presença de matéria orgânica em suspensão. Este bactericida tem sido amplamente utilizado nos EUA para higienização de legumes e frutas em pós-colheita, incluindo citros.

Desta forma, um estudo foi conduzido para avaliar estes ingredientes ativos quanto à capacidade bactericida contra X. citri e eficiência na descontaminação por imersão de frutos de lima ácida Tahiti (Citrus latifolia) contaminados por X. citri em laboratório e campo. A Tabela 1 apresenta as doses e os produtos comerciais utilizadas no estudo.

Além do bactericida, o tempo de exposição do fruto ao produto em imersão para descontaminação contra micro-organismos é outro fator importante no processo de beneficiamento da produção. Quanto maior o tempo exigido de tratamento, maior também deverá ser o dimensionando da balsa de imersão e consequentemente do investimento necessário em infraestrutura. Até recentemente a legislação determinava que os frutos de citros deveriam ser tratados em solução bactericida por no mínimo dois minutos. Este tempo é considerado exagerado por muitos produtores por onerar significativamente o processo.

Eficiência comprovada

O presente estudo demostrou que os bactericidas dióxido de cloro, oxicloreto de cálcio, ácido peracético e hipoclorito de sódio, utilizado como referência, foram capazes de eliminar completamente a população de X. citri viável imediatamente após contato com a bactéria ou após uma hora de exposição ao produto. Enquanto que nas placas com meio sólido de cultura que receberam amostras da calda contendo os diferentes bactericidas não houve recuperação de X. citri, nas placas que receberam a calda controle, contendo somente água, foi possível recuperar de 5 a 6 log10 bactérias/ml de X. citri após zero ou uma hora de exposição.

Os bactericidas avaliados foram igualmente eficientes na descontaminação de frutos de citros em pós-colheita contaminados por X. citri (Figuras 1 e 2). Os produtos promoveram reduções igualmente significativas da população de X. citri em frutos contaminados artificialmente em laboratório após tratamento por um ou dois minutos. Para os frutos tratados, independentemente do tempo de exposição, a quantidade de X. citri recuperada variou de 0,5 a 1 log10 bactérias/ml. Estes valores representam uma redução de 100 a mil vezes na quantidade de bactérias viáveis quando comparado ao tratamento controle (Figura 1). 

Figura 1 - Xanthomonas citri proveniente de frutos de lima ácida Tahiti contaminados em laboratório e recuperada em meio de cultura sólido após 1 ou 2 minutos de exposição à calda contendo individualmente os bactericidas dióxido de cloro, oxicloreto de cálcio, ácido peracético e hipoclorito de sódio. Para cada produto, colunas seguidas de mesma letra não diferem significativamente pelo teste Tukey (p=0,05). Barras de erro indicam o erro padrão da média de três experimentos independentes
Figura 1 - Xanthomonas citri proveniente de frutos de lima ácida Tahiti contaminados em laboratório e recuperada em meio de cultura sólido após 1 ou 2 minutos de exposição à calda contendo individualmente os bactericidas dióxido de cloro, oxicloreto de cálcio, ácido peracético e hipoclorito de sódio. Para cada produto, colunas seguidas de mesma letra não diferem significativamente pelo teste Tukey (p=0,05). Barras de erro indicam o erro padrão da média de três experimentos independentes
Figura 2 - Xanthomonas citri proveniente de frutos de lima ácida Tahiti contaminados naturalmente em pomar com cancro cítrico e recuperada em meio de cultura sólido após 1 ou 2 minutos de exposição à calda contendo individualmente os bactericidas dióxido de cloro, oxicloreto de cálcio, ácido peracético e hipoclorito de sódio. Para cada produto, colunas seguidas de mesma letra não diferem significativamente pelo teste Tukey (p=0,05). Barras de erro indicam o erro padrão da média de três experimentos independentes
Figura 2 - Xanthomonas citri proveniente de frutos de lima ácida Tahiti contaminados naturalmente em pomar com cancro cítrico e recuperada em meio de cultura sólido após 1 ou 2 minutos de exposição à calda contendo individualmente os bactericidas dióxido de cloro, oxicloreto de cálcio, ácido peracético e hipoclorito de sódio. Para cada produto, colunas seguidas de mesma letra não diferem significativamente pelo teste Tukey (p=0,05). Barras de erro indicam o erro padrão da média de três experimentos independentes

O desempenho dos bactericidas na sanitização de frutos contaminados provenientes de pomares com cancro cítrico foi similar ao observado para frutos contaminados em laboratório. Não houve diferença entre as formulações e todos os produtos promoveram a diminuição da população de X. citri de 1,3 a 1,8 para 0,1 a 0,3 log10 bactérias/ml. Não houve diferença significativa entre os tempos de exposição dos frutos aos bactericidas, de um ou dois minutos, sobre a quantidade de X. citri recuperada após tratamento higienizante em nenhum dos experimentos (Figura 2).

Assim como em pesquisas anteriores relacionadas, esse estudo demonstrou também que é possível que o tratamento com bactericidas não elimine completamente a população de X. citri presente na superfície dos frutos de citros. No entanto, foi demonstrado também que o potencial de causar doença das bactérias remanescentes não é significante. A inoculação da suspensão proveniente da lavagem dos frutos tratados em folhas de laranja demonstrou que as concentrações remanescentes da bactéria nos frutos não são capazes de causar lesões de cancro cítrico. Isso demonstra que a quantidade de X. citri que permanece eventualmente em frutos após tratamento com bactericida não representa risco para disseminação da doença.  Outro fator importante a ser considerado é que há um declínio natural da população bacteriana durante o transporte e armazenamento do fruto.

Higienização de frutos de citros realizada em packing houses
Higienização de frutos de citros realizada em packing houses

Bactericidas habilitados

Após a realização do estudo, foi solicitada via Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Citricultura (CSCIT) a regulamentação desses bactericidas ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). A solicitação foi deferida por meio de ofício em 31/3/2020 (Nº 182/2020/SDA/Mapa) que referendou a habilitação dos bactericidas avaliados para descontaminação de qualquer espécie de frutos de citros incluindo laranja, limão, lima ácida, tangerina, tangor, entre outros citros importantes para o mercado in natura. A aplicação dos bactericidas deve ser realizada exclusivamente por imersão nas concentrações avaliadas no estudo.

O estudo foi conduzido no curso de mestrado em Fitossanidade dos Citros do Fundecitrus e pode ser acessado na íntegra no site.

Franklin Behlau
Fundecitrus.
Alexandre Paloschi
Coordenadoria de Defesa Agropecuária do estado de São Paulo

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