Duas em uma

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  • Jan 2019 |
  • Cecilia Czepak, Universidade Federal de Goiás Wee Tek Tay, CSIRO Black Mountain Laboratories Clunies Ross Street – Canberra/Australia Humberto O. Guimaraes, Tiago Carvalhais, Matheus Le Senechal e Rafael F. Silvério, Universidade Fede

Crescem as evidências da presença de híbridos de Helicoverpa no Brasil. Amostras de lagartas das espécies Helicoverpa armigera e H. zea, coletadas no Mato Grosso e analisadas por pesquisadores do Reino Unido e da Austrália, através de sequenciamento genômico completo, confirmam hibridização. O uso de diferentes táticas de manejo integrado deve ser adotado para que os problemas fitossanitários resultantes desta e de outras pragas agrícolas possam ser resolvidos da melhor maneira possível 

Os insetos pertencentes à família Heliothinae estão entre as pragas agrícolas mais prejudiciais do mundo. Dentre os principais representantes desta família estão Helicoverpa armigera e H. zea, popularmente denominadas lagarta do Velho Mundo do algodoeiro e lagarta da espiga do milho, respectivamente. A comunidade científica mundial classificou H. armigera como uma das pragas de maior impacto agrícola entre os anos de 2012 e 2016. 
H. armigera é uma praga extremamente polífaga, sendo registrada em mais de 300 hospedeiros, entre os quais estão plantas cultivadas, invasoras e silvestres em diferentes partes do mundo, incluindo culturas como algodão, soja, milho e tomate. Enquanto H. zea possui um número menor de hospedeiros, 123 espécies, dentre essas também estão culturas de grande importância econômica para o Brasil, tais como algodão, milho e tomate. Sendo assim, pode-se dizer que há uma relação próxima e contínua entre as duas espécies, principalmente em cultivos anuais. Esta situação pode se agravar ainda mais, em sistemas contínuos de cultivo, como, por exemplo, áreas irrigadas, criando assim as conhecidas “pontes verdes”, muito comuns em regiões agrícolas do Cerrado brasileiro.
H. armigera e H. zea são espécies morfologicamente semelhantes e análises moleculares comprovaram a similaridade genética entre seus genomas, o que justifica os casos relatados de hibridização entre as duas espécies. Há aproximadamente 1,5 milhão de anos, na linha evolutiva do tempo, H. armigera e H. zea compartilhavam um ancestral comum, o que explica esta proximidade genética. A capacidade de hibridização entre a lagarta do Velho Mundo H. armigera e a do Novo Mundo H. zea, em produzir descendentes férteis, têm sido claramente demonstrada em experimentos de laboratório desde 1965, embora tais cenários tenham se restringido apenas a condições laboratoriais e anteriores à recente chegada de H. armigera no continente sul-americano. Por meio do sequenciamento genômico completo, conforme estudo do renomado Instituto CSIRO na Austrália, foi possível constatar a existência de indivíduos híbridos provenientes de amostras brasileiras. 
No recente estudo publicado na revista científica internacional Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS) os pesquisadores do Reino Unido e da Austrália analisaram um pequeno número de espécimes do Mato Grosso, originalmente identificados como H. armigera por meio do DNA mitocondrial, porém, quando realizado o sequenciamento completo do genoma, ficou evidenciado de que essas supostas “H. armigera” na verdade seriam híbridos, com quantidade variável de contribuição genética de H. zea. Além disso, outra amostra identificada como H. zea, a partir do DNA mitocondrial, apresentou uma grande porcentagem de DNA de H. armigera em seu genoma. Portanto, essa introgressão genética pode levar ao surgimento de novos ecótipos (presença de populações geneticamente únicas que são adaptadas ao seu ambiente local) na família Heliothinae.

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