É preciso diversificar

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  • Jul 2019 |
  • João Leonardo F. Pires, Eduardo Caierão e Ricardo Lima de Castro, Embrapa Trigo

Atualmente estão disponíveis modelos de negócio envolvendo fatores ligados a produção, beneficiamento e comercialização específicos, voltados ao uso do trigo na produção animal e para a produção de grãos destinados à alimentação humana (Figura 1). Dentre as possibilidades de utilização em sistemas de produção envolvendo animais estão os usos para pastejo, para silagem e para o chamado duplo propósito (“trigo flex”), através do qual, em uma mesma área, com manejo e cultivares específicas, é possível utilizar o trigo para pastejo e, após a retirada dos animais (seguindo critérios técnicos), fazer a colheita de grãos. 

Figura 1 - Oportunidades para diversificação da produção de trigo no Sul do Brasil
Figura 1 - Oportunidades para diversificação da produção de trigo no Sul do Brasil.

Na produção de grãos também é possível encontrar alternativas para diversificação. A produção dos trigos Melhorador e Pão pode bonificar o produtor, pois são bastante demandados pela indústria nacional. Apesar da maior dificuldade em manter a regularidade de produção desses trigos em alguns ambientes no Sul do Brasil, alguns modelos de negócio envolvendo essas opções têm gerado resultados interessantes.

Alternativa já experimentada por algumas cooperativas em Santa Catarina e no Paraná é a produção de trigo com características específicas para a confecção de biscoitos. Programas com cultivares selecionadas para esse uso também permitem bonificar o produtor participante do projeto. 

Neste contexto, a escolha correta do material genético é fundamental para o sucesso de cada modelo de produção. A Embrapa tem oferecido cultivares para cada opção de uso.

Cada cultivar foi desenvolvida pensando em características específicas que podem atender aos diferentes modelos de diversificação. Por exemplo, a BRS Reponte agrega rusticidade (sanidade e baixa exigência em insumos) e elevado potencial produtivo de grãos, quesitos fundamentais em sistemas para exportação e fabricação de ração, que necessitam menor custo de produção em relação aos demais. Já a BRS Pastoreio apresenta resistência ao pisoteio, alta capacidade de rebrote e ciclo longo para permitir pastejo, além da quase ausência de aristas, fator muito importante para aumentar a palatabilidade do material no caso de uso para silagem.

A BRS Pastoreio é uma das ofertas da Embrapa para produção de pasto, feno, silagem e grãos
A BRS Pastoreio é uma das ofertas da Embrapa para produção de pasto, feno, silagem e grãos.

A cultivar, entretanto, não pode ser considerada a única tecnologia necessária para o sucesso das alternativas de produção. Em muitas situações, para a exploração do máximo potencial da tecnologia, é necessário o ajuste do manejo para obter o maior rendimento (de grãos ou forragem), a redução de riscos associados ao clima ou a doenças e pragas, e a melhor relação custo/benefício da opção escolhida para uso. Por exemplo, trigos de duplo propósito utilizados para pastejo e grãos precisam ser semeados de 20 dias a 50 dias (dependendo da cultivar) antes da época indicada para trigos precoces, com objetivo de permitir o aproveitamento do diferencial de ciclo e produção de forragem. Também, a retirada dos animais da lavoura precisa ser realizada em momento adequado, para não comprometer a produção de grãos. Outros exemplos, no caso de produção de grãos, são: o ajuste da adubação nitrogenada de acordo com a resposta da cultivar, aplicando somente o necessário para a melhor relação custo/benefício; o uso de redutores de crescimento no caso de cultivo em situações de elevado risco de acamamento; e a colheita antecipada para evitar perdas da qualidade tecnológica pela exposição desnecessária às intempéries no final do ciclo. Essas e outras informações podem ser obtidas nos canais de comunicação da Embrapa e de parceiros comerciais.

Essas opções tecnológicas estão resultando em projetos especiais em cooperativas ou de produtores individuais, com especialização, agregação de valor e/ou liquidez na produção do cereal. Por exemplo, na Cotricampo, em Campo Novo, Rio Grande do Sul, onde foi implementado um projeto com trigo branqueador, parte da produção é organizada, apoiada e segregada para este uso, com a valorização do produto chegando a 20% de bonificação. Na integração lavoura-pecuária, a Fazenda Librelotto, em Boa Vista das Missões, também no Estado gaúcho, conseguiu melhorar a sustentabilidade e a rentabilidade do sistema de produção com uso do trigo para pastagem e produção de grãos.

Algumas das possibilidades de diversificação como as citadas anteriormente já são empregadas no Sul do Brasil. Outras ainda estão em fase inicial de pesquisa ou articulação de produção e do modelo de negócio. Destaca-se o uso do grão de trigo para alimentação animal, na formulação de ração, e também para exportação. No caso da ração, a redução da área cultivada com milho no Sul e a dificuldade de importar o cereal de outros estados a valores competitivos têm levado à busca de alternativas produzidas na região capazes de atender à demanda. O trigo tem sido apontado como uma das possibilidades, com estudos indicando boa compatibilidade para uso em rações. No caso de exportação, a oportunidade é interessante para regiões (ambientes e/ou tecnologias) onde há dificuldade de produção de trigo com força de glúten elevada (compatível com as classes Melhorador e Pão), em função do mercado externo, principalmente de Ásia e África, ser menos exigente neste quesito e ter como parâmetro principal o conteúdo de proteína, que seria mais facilmente obtido.

Acredita-se que todas as oportunidades são possíveis e não concorrentes, desde que encaradas com profissionalismo, por meio da busca de conhecimento, de assistência técnica e do desenvolvimento de modelos de negócio que permitam maior chance de sucesso nas diferentes linhas de uso do trigo. Há muito espaço para crescimento da cultura do trigo no Sul do Brasil e isso passa, sem dúvida, por novas alternativas de produção.

Na produção de grãos é possível encontrar alternativas para diversificação
Na produção de grãos é possível encontrar alternativas para diversificação.


Posicionamento de cultivares de trigo ofertadas pela Embrapa 

- BRS Pastoreio: produção de pasto, feno, silagem e grãos

- BRS Tarumã: produção de pasto e grãos

- BRS Parrudo: produção de grãos com qualidade da classe trigo Melhorador

- BRS Marcante: produção de grãos com qualidade da classe trigo Pão

- BRS 374: produção de grãos para uso na produção de biscoitos

- BRS 327: produção de grãos para uso na produção de farinha branqueadora

- BRS Reponte: produção de grãos para exportação (Ásia e África)

Caierão, Pires e Castro defendem a diversificação na cultura do trigo
Caierão, Pires e Castro defendem a diversificação na cultura do trigo.

João Leonardo F. Pires, Eduardo Caierão e Ricardo Lima de Castro, Embrapa Trigo

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