Efeito da nutrição no manejo de doenças em soja

  • Página 13 |
  • Dez 2019 |
  • Nédio Rodrigo Tormen e Larissa Gomes Araújo Tormen, Instituto Phytus

O Brasil é atualmente o maior exportador mundial de soja e deverá se tornar também o maior produtor na safra 2019/20, com produção estimada em 120 milhões de toneladas em uma área cultivada de 36,5 milhões de hectares. A produtividade média nas últimas safras tem ficado próxima a 3.200kg/ha, porém em concursos de produtividade já foi possível colher 8.944kg/ha, evidenciando o grande potencial genético que a cultura possui e que pode ser explorado nas condições brasileiras.

A determinação do potencial produtivo da soja depende de diversos fatores, relacionados principalmente com a genética da cultivar, o manejo da lavoura e as condições ambientais durante o período de cultivo. Dentre os fatores limitantes da produtividade da soja no Brasil, a ocorrência de doenças tem desempenhado papel de destaque, especialmente após o surgimento da ferrugem-asiática nos anos 2000 e, mais recentemente, com o aumento em importância de doenças como a mancha-alvo (Corynespora cassiicola), a antracnose (Colletotrichum sp.) e as DFCs (Septoria glycines e Cercospora kikuchii). Podem ainda ser citadas as diversas doenças causadas por fungos que atacam as raízes e hastes, além, é claro, dos nematoides.

A determinação do potencial produtivo da soja depende de diversos fatores
A determinação do potencial produtivo da soja depende de diversos fatores.
Soja sadia x soja sem proteção
Soja sadia x soja sem proteção.

Dentro do contexto atual de controle de doenças em soja, algumas práticas são determinantes sobre sua ocorrência e severidade. No caso da ferrugem-asiática, o vazio sanitário da soja, a calendarização de plantio, o uso de cultivares de ciclo mais curto e a concentração da janela de plantio são práticas largamente utilizadas e que, juntamente com o emprego de fungicidas, possuem efeito marcante sobre as epidemias dessa doença. No caso de manchas foliares, podridões de raízes e de hastes e nematoides, a severidade do ataque depende muito mais da sequência de cultivos da área e da resistência da cultivar utilizada.

Altas produtividades somente serão possíveis com controle eficiente de doenças da soja
Altas produtividades somente serão possíveis com controle eficiente de doenças da soja.

Entretanto, apesar dos grandes avanços conseguidos com o melhoramento genético, não existem cultivares com resistência para todas as doenças e o sistema de cultivo atual baseia-se no plantio da soja todos os anos, o que resulta em aumento na densidade de inóculo de fungos necrotróficos. Adicionalmente, vários fungos têm evoluído e sofrido mutações que resultam em perda de sensibilidade parcial ou completa aos principais grupos de fungicidas utilizados. Todos esses fatores resultam em aumento das perdas em função do ataque por doenças e também no crescimento dos custos de produção, uma vez que o produtor se vê obrigado a buscar alternativas de melhor eficiência.

Os efeitos dos nutrientes sobre crescimento, desenvolvimento e produtividade das plantas são bastante conhecidos e normalmente explicados pelas funções desses elementos no seu metabolismo. Entretanto, a nutrição pode causar efeitos secundários nas plantas por alterar o padrão de crescimento, anatomia, morfologia ou composição química, resultando em aumento ou decréscimo da resistência ou tolerância das plantas aos patógenos causadores de doenças. Além disso, os nutrientes podem afetar a virulência dos patógenos, ou seja, sua capacidade de causar doença na planta.

Embora a resistência e a tolerância das plantas aos patógenos sejam controladas geneticamente, são bastante influenciadas por fatores ambientais. Dentro deste contexto, a nutrição de plantas pode ser considerada como um fator do manejo relativamente fácil de ser controlado através da aplicação de nutrientes para a supressão de estresses bióticos. A amplitude do efeito da nutrição mineral sobre as doenças varia em função da genética da cultivar e normalmente apresenta pouca interferência em cultivares altamente suscetíveis ou altamente resistentes, mas costuma ser importante em genótipos com níveis intermediários de resistência.

Vários dos mecanismos pelos quais a nutrição pode aumentar a resistência de plantas às doenças fúngicas já foram descobertos. De modo geral, a proteção através da nutrição mineral balanceada pode ser resultado de uma eficiente barreira física (através do espessamento de cutícula, lignificação e acumulação de silício nas células da epiderme), melhor controle da permeabilidade da membrana citoplasmática (reduzindo a saída de açúcares e aminoácidos, que nutrem os patógenos) e formação de compostos fenólicos (com ação fungistática sobre os patógenos).

O efeito da nutrição mineral no controle de doenças pode ser obtido tanto por sua aplicação direta na cultura da soja ou através de práticas que possibilitem melhor absorção e assimilação dos nutrientes. Por outro lado, o desequilíbrio nutricional, seja por excesso ou deficiência de algum elemento mineral, pode influenciar significativamente a reação das plantas à infecção, aumentando sua suscetibilidade ou favorecendo a ocorrência da doença. Desse modo, é essencial considerar o conceito de equilíbrio nutricional quando se busca melhor controle de doenças pela aplicação de nutrientes.

Não é incomum a realização de operações como calagem, gessagem e principalmente escolha de fertilizantes minerais granulados, tanto em relação à sua composição quanto à dose a ser aplicada, sem se conhecer os níveis de nutrientes na área. Nesse tipo de situação o desequilíbrio desencadeado pode exercer efeito contrário ao desejado e favorecer a alta severidade das doenças.

O efeito de macro e micronutrientes reduzindo a severidade de doenças em soja vem sendo demonstrado ao longo dos anos. Conforme demonstrado na Figura 1, o fornecimento de níveis crescentes de fósforo (P) e potássio (K) para a cultura da soja resultou na redução da severidade da ferrugem-asiática em duas cultivares de soja.

Os efeitos do nitrogênio (N) sobre as doenças têm sido variáveis, entretanto de modo geral o seu fornecimento em excesso na cultura da soja favorece o maior crescimento das plantas, criando um microclima mais favorável às doenças. Adicionalmente, quando acompanhado da deficiência de cálcio, há um enfraquecimento das paredes celulares, facilitando a penetração dos fungos, e ainda maior disponibilidade de aminoácidos e compostos nitrogenados na célula da planta que servem como alimento para os patógenos. Como regra geral, o nitrogênio favorece fungos parasitas obrigatórios, como a ferrugem-asiática, e desfavorece os facultativos, que preferem tecidos senescentes, como as manchas.

Dentro dos macronutrientes secundários, atenção especial deve ser dada ao cálcio (Ca) e ao enxofre (S). O cálcio é componente da lamela média e essencial para a estabilidade das biomembranas, conferindo estabilidade à parede celular e dificultando a penetração de patógenos. O enxofre é usado diretamente como fungicida em função de seu efeito sobre patógenos. Além disso, é componente essencial de enzimas e está presente em muitos metabólitos secundários que participam de processos de defesa contra patógenos.

No caso dos micronutrientes, vários possuem participação importante no progresso das doenças. O manganês é cofator importante em reações envolvidas na biossíntese de metabólitos secundários associados com a via do ácido chiquímico, podendo ser um importante nutriente para o desenvolvimento da resistência das plantas a doenças fúngicas das raízes e das folhas. O cobre, além do seu papel fungistático, participa da síntese de lignina que dificulta a entrada de patógenos na célula. O níquel possui papel na produção de etileno, na resistência de plantas às doenças e na germinação de sementes. No caso do silício, estudos têm mostrado que esse nutriente pode favorecer o fortalecimento da estrutura da planta aumentando a resistência ao acamamento e ao ataque de pragas e doenças.

A obtenção de níveis de produtividade elevados, ultrapassando a barreira dos 100 sacos de soja por hectare, somente será conseguida com um controle eficiente das doenças da soja. Nesse sentido, a utilização da nutrição de plantas, baseada no princípio do equilíbrio entre os nutrientes, aparece como uma ferramenta de grande potencial de utilização, pois pode resultar em plantas mais fortes, resistentes e com capacidade superior de tolerar estresses de toda ordem, incluindo o ataque de patógenos. Assim como todas as práticas de manejo, sua utilização de forma isolada não trará resultados satisfatórios, porém, quando associada a práticas como resistência genética, plantio de cultivares precoces, rotação de culturas e aplicação de fungicidas, entre outras, pode contribuir enormemente para a redução nos danos causados pelas doenças e aumento da rentabilidade do produtor rural. 

Figura 1 - Efeito da aplicação de diferentes níveis de P e K em duas cultivares de soja sobre a severidade da ferrugem-asiática, nos estádios fenológicos V2 e R5. Extraído de Balardin et al, 2006
Figura 1 - Efeito da aplicação de diferentes níveis de P e K em duas cultivares de soja sobre a severidade da ferrugem-asiática, nos estádios fenológicos V2 e R5. Extraído de Balardin et al, 2006.
Nédio e Larissa abordam efeito da nutrição no manejo de doenças em soja
Nédio e Larissa abordam efeito da nutrição no manejo de doenças em soja.

Nédio Rodrigo Tormen e Larissa Gomes Araújo Tormen, Instituto Phytus

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