Efetividade preservada

  • Página 44 |
  • Fev 2019 |
  • Jacob Crosariol Netto, Guilherme Gomes Rolim, Leonardo Scoz e Erica Soares Martins, Instituto Mato-grossense do Algodão Rafael Major Pitta, Embrapa Agrossilvipastoril e Daniela de Lima Viana, Universidade de Cuiabá

O cultivo de plantas transgênicas é um dos maiores exemplos de aplicação dos conhecimentos em biotecnologia. No Brasil, a primeira aprovação de um evento transgênico expressando uma proteína inseticida ocorreu em 2005. Tratava-se de plantas de algodão expressando um gene da bactéria Bacillus thuringiensis, que produz a proteína inseticida Cry1Ac. Desde então, a utilização de plantas Bt, expressando diversas proteínas inseticidas, foi adotada também nas culturas de milho, soja e cana-de-açúcar no País. 

Essa tática de controle promoveu a redução significativa do uso de inseticidas, gerando, consequentemente, benefícios como reduções nos custos de produção, ganhos ambientais, diminuição nos impactos em espécies não alvo desses produtos fitossanitários, como inimigos naturais e polinizadores, e nas pressões de seleção de populações resistentes a diversas moléculas inseticidas. 
Helicoverpa armigera (Hubner) (Lepidotera: Noctuidae) é uma espécie polífaga amplamente distribuída no planeta. Características como elevada mobilidade e fecundidade, alta capacidade de adaptação a diferentes cultivos e potencial destrutivo em diversas culturas tornam essa espécie uma praga de significativa relevância econômica.
O uso de plantas transgênicas resistentes a lagartas tem sido uma importante ferramenta para o controle de H. armigera. Porém, como as plantas Bt produzem proteínas inseticidas durante todo seu ciclo, os insetos que se alimentam dessas plantas estão sob constante seleção de indivíduos mais tolerantes a tais proteínas. 
Considerando a importância dessa espécie como praga na cultura do algodoeiro e a significativa expansão dessa cultura no Brasil (1,2 milhão de hectares na safra 2017/18), cresce a preocupação em preservar a efetividade dessa tática de controle. Sendo assim, faz-se necessário o estabelecimento de um plano de monitoramento da suscetibilidade de populações de campo da praga a fim de detectar o início da redução de sensibilidade dos insetos às proteínas Bt. Portanto, trata-se de uma ação estratégica que permite evitar/retardar futuras falhas de controle das tecnologias. 
Em Mato Grosso, populações de H. armigera têm sido monitoradas quanto à eficiência dos traits transgênicos de algodão. Até a safra 2015/2016, não havia sido observada a ocorrência de lagartas dessa espécie em lavouras de algodão Bt, com as tecnologias WideStrike, Bollgard II e TwinLink, demonstrando que até então essa tática de controle era eficiente sobre essa espécie. Entretanto, na safra 2016/2017 foi constatada uma população de campo de H. armigera em Primavera do Leste, Mato Grosso, com sobrevivência de 40% de lagartas até o 4° instar em bioensaios com discos foliares de cultivares de algodoeiro WideStrike, que expressam as proteínas inseticidas Cry1Ac + Cry1F (Figura 1).
Apesar de haver uma sobrevivência de 40% de lagartas durante os bioensaios, quando essas lagartas sobreviventes continuavam se alimentando de folhas do algodoeiro, nenhum indivíduo atingia a fase adulta, o que sugere que o processo evolutivo da resistência estava no início. Entretanto, na safra 2018, foi constatada a ocorrência de lagartas de H. armigera, em um talhão semeado com uma cultivar de algodoeiro transgênica com essa tecnologia, no município de Campo Verde, Mato Grosso. Em um bioensaio em laboratório com essa população, 25% dos indivíduos atingiram a fase adulta. Evidenciando então um possível processo de evolução de resistência. Adicionalmente, em entrevistas com produtores e consultores agronômicos (38 entrevistados), mais de 50% afirmaram ter detectado a presença de lagartas de Heliothinae causando danos em variedades de algodoeiro com a mesma tecnologia. 
Durante as safras de 2015 a 2017, lagartas de H. armigera têm sido coletadas em campos de algodão no estado de Mato Grosso e submetidas a ensaios com toxinas purificadas, para o monitoramento da evolução da resistência deste inseto às toxinas Cry (Tabela 1). Não houve diferenças significativas ao longo dos três anos monitorados, indicando que até 2017 não existia evidência de evolução da resistência em campo às proteínas de B. thuringiensis presentes nos eventos transgênicos. Para o ano de 2018, estes bioensaios ainda estão em fase de execução.
Estudos com Spodoptera frugiperda comprovam que indivíduos resistentes à Cry1F podem apresentar corresistência às toxinas Cry1Aa, Cry1Ab e Cry1Ac. Considerando que a tecnologia Widestrike contém as proteínas Cry1Ac e Cry1F, é possível que ocorra a seleção simultânea de indivíduos resistentes às duas proteínas. Esta informação alerta para a possiblidade de que esse processo de seleção esteja ocorrendo para H. armigera, indicando que o manejo deste inseto baseado unicamente no uso de plantas Bt precisa ser revisto.  
Como o controle químico é uma ferramenta importante e complementar para o controle dessa e de outras espécies-alvo da tecnologia Bt, uma parceria entre IMAmt, Embrapa e diversos colaboradores tem proporcionado o monitoramento da suscetibilidade de populações de H. armigera às principais moléculas inseticidas utilizadas, assim como proteínas Bt. 

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