Estratégias para manejo racional da ramulária em algodão

  • Página 30 |
  • Dez 2019 |
  • Flavia Elis de Mello, Daniel Dias Rosa e Ricardo Desjardins Antunes, Syngenta Proteção de Cultivos

Na safra de 2018/2019, a safra de algodão no Brasil, de acordo com estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), teve produção 35,9% superior à safra anterior, atingindo aproximadamente quatro milhões de toneladas em caroço e 2,7 milhões de toneladas de pluma, principalmente estimulados pela taxa de câmbio favorável e a evolução dos preços no mercado internacional que levaram ao aumento de área plantada. Considerando o estado do Mato Grosso - maior produtor de algodão do Brasil – foram semeados 1,072 milhão de hectares, sendo 159 mil hectares cultivados na primeira safra e 913 mil hectares cultivados na segunda safra, o que representa um acréscimo de 35% em relação à safra 2017/2018 (Conab, 2019). Esse aumento pode ser atribuído, principalmente, ao preço atrativo da commodity, às altas tecnologias utilizadas na cultura e ao investimento em qualidade de fibra. A produtividade média de algodão em caroço nas principais regiões produtoras de Mato Grosso, na safra 2018/2019, foi de 283 @/ha.

Com a expansão da área cultivada com o algodoeiro, tem-se observado um aumento acentuado das doenças que atacam a cultura, que estão ocorrendo com alta incidência e severidade, aumentando a fonte de inóculo no campo (FMT, 2015). 

Dentro desse contexto, as doenças do algodoeiro estão ocorrendo de acordo com o sistema de manejo utilizado na cultura e as cultivares que os produtores estão adotando em suas lavouras. Algumas doenças que antes eram consideradas secundárias, que ocorriam de forma esporádica, aumentaram significativamente sua importância e tornaram-se epidêmicas. É o caso da mancha de ramulária (Ramulariopsis pseudoglycines / Ramulariopsis gossypii), que no passado ocorria apenas no final do ciclo da cultura e atualmente surge mais cedo no ciclo, sendo considerada a principal doença foliar do algodoeiro, necessitando, portanto, de um maior número de pulverizações com fungicidas (Embrapa, 2006), caso a cultivar não seja tolerante à doença.

Adicionalmente a isso, as condições climáticas do Cerrado, de forma geral, são favoráveis para o desenvolvimento de doenças, apresentando altos índices pluviométricos, temperaturas diurnas elevadas e noturnas mais amenas (FMT, 2015), o que remete à necessidade de um manejo cada vez mais consciente de doenças.

Atualmente a mancha de ramulária é a principal doença foliar do algodoeiro
Atualmente a mancha de ramulária é a principal doença foliar do algodoeiro.
O uso de fungicidas com diferentes modos de ação é fundamental no correto manejo de doenças em algodão
O uso de fungicidas com diferentes modos de ação é fundamental no correto manejo de doenças em algodão.

A resistência dos patógenos aos fungicidas e suas implicações

A resistência é uma alteração herdável e estável em um fungo em resposta à aplicação de fungicidas, geralmente sítio-específicos, que resulta na diminuição da sensibilidade do fungo ao fungicida utilizado. O uso indiscriminado e incorreto de fungicidas registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para o controle da mancha de ramulária contribui para a seleção de indivíduos menos sensíveis, resultando em falhas de controle eficaz no campo.

Os fungicidas sítio-específicos como os DMIs, QoIs e SDHIs, por atuarem apenas em sítios bioquímicos muito específicos, representam um ponto de atenção, pois geralmente apenas uma mutação neste sítio-específico, que é o alvo do fungicida, pode resultar em um indivíduo resistente. O Fungicide Resistance Action Committee (Frac) classifica os DMIs, QoIs e SDHIs como fungicidas de médio a alto risco para o desenvolvimento de resistência e, portanto, segundo a recomendação, é para evitar o uso desses produtos isoladamente.

Atualmente as recomendações realizadas por empresas, pesquisadores e órgãos competentes baseiam-se na utilização de várias táticas para controle da mancha de ramulária em cultivares suscetíveis, sendo uma delas a rotação de grupos químicos e modos de ação como parte do manejo de resistência.

O bom manejo de doenças passa pelo manejo da resistência

O uso de fungicidas com diferentes modos de ação é o princípio básico e fundamental para o manejo correto das doenças na cultura do algodão e, ao mesmo tempo, proporciona gerenciar a resistência dos principais patógenos aos fungicidas. Atualmente, na cultura do algodoeiro, os principais e mais efetivos grupos químicos disponíveis para controle do complexo de doenças e da mancha de ramulária estão descritos na Tabela 1.

O manejo deve ser consciente!

A adaptação dos fungos aos fungicidas, suas habilidades de superar genes de resistência da planta de algodoeiro e sua capacidade de sobreviver durante o ano todo na presença de hospedeiros alternativos ou em restos culturais demonstram que apenas o uso de fungicidas para o controle das doenças do algodoeiro não é suficiente. É preciso mudar o manejo de doenças no cultivo do algodoeiro. Um exemplo de inciativa que pode ser citado, neste sentido, é o da Syngenta, em parceria com diversas instituições de pesquisa, que apresentou na safra 2019 o programa Manejo Consciente na Cultura do Algodão (Figura 1), focado em garantir um manejo adequado e sustentável para as doenças na cultura. Entre os pilares do Manejo Consciente, se destacam cinco relacionados a características dos produtos e cinco focados nas práticas agronômicas. Quando utilizados em associação pelos cotonicultores podem proporcionar controle mais eficaz das doenças.

Os resultados dos ensaios da Rede Embrapa/Ramulária (2018/2019)

Embora os ensaios cooperativos de rede para algodão/ramulária conduzidos pela Embrapa explorem os produtos em usos sequenciais e isolados, os resultados da safra 2018/2019 indicam que o uso de produtos como Mertin, Adepidyn + difenoconazole (A20259E) e difenoconazole + clorotalonil (A16976A) é fundamental para a composição de um programa de controle que endereça manejo de resistência associado ao controle de doenças. Os resultados da Figura 2 indicam que a diversidade de ativos e modos de ação em um programa de manejo são fatores críticos de sucesso.

Mertin (organoestânico), Adepidyn + difenoconazole (combinação de carboxamida (SDHI) com triazol) e difenoconazole + clorotalonil (triazol em combinação com multissítio) são fungicidas fundamentais para o controle e manejo de resistência de ramulária no cultivo do algodoeiro.

As opções de manejo químico ao alcance dos produtores de algodão

Mas afinal, qual seria a melhor forma de se manejar a resistência e as doenças na cultura do algodoeiro? A incorporação dos pilares do Manejo Consciente (Figura 1) nas propriedades por parte dos produtores e a utilização adequada das tecnologias disponíveis para o cultivo do algodoeiro são fundamentais para o sucesso do manejo das doenças e da resistência. Atualmente, apesar da mancha de ramulária ser a principal doença que ataca a cultura do algodoeiro, as primeiras pulverizações, logo nos primeiros dias do ciclo da cultura, têm sido realizadas com foco principalmente em ramulose (Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides). Nesse contexto, fungicidas registrados no Mapa à base de estrobilurinas são altamente eficazes e contribuem, dentro do sistema de manejo, como uma alternativa excelente para o controle da doença. A utilização de fungicidas à base de estrobilurina é recomendado para o controle da ramulose e o Priori Top (azoxystrobina + difenoconazole), além de controlar eficazmente a doença, é uma alternativa considerando o princípio da alternância dos modos de ação dos fungicidas.

Em relação ao controle químico eficaz da mancha de ramulária, foram ofertados ao produtor fungicidas à base de carboxamidas, como A20259E (AdepidynTM + difenoconazole), produto de alta performance para o controle da doença. Recomenda-se no máximo três pulverizações durante o ciclo da cultura, realizadas até os 100 Dias Após a Emergência (DAE). Sugere-se que essas pulverizações sejam intercaladas com Mertin (hidróxido de fentina, que é um organoestânico) em intervalos de 14 dias para o controle do patógeno. Adicionalmente, Score (difenoconazole, um triazol) associado a Bravonil 720 (clorotalonil, um multissítio) é excelente opção para compor as últimas aplicações do ciclo do algodoeiro, onde a pressão e a ocorrência de ramulária são elevadas. Essa combinação é evidenciada nos dados de controle apresentados por A16976A (difenoconazole + clorotalonil) nos ensaios de Rede Algodão/Ramulária 2018/2019.

Seguindo os princípios do Manejo Consciente, os cotonicultores não apenas atingirão os melhores níveis de controle e manterão altos patamares de produtividade, mas também protegerão as poucas e tão necessárias ferramentas para o manejo das doenças do algodoeiro, garantindo a continuidade e sustentabilidade do seu negócio.

 Figura 1 - Manejo consciente da cultura do algodão. Syngenta 2019
Figura 1 - Manejo consciente da cultura do algodão. Syngenta 2019
 Figura 2 - Resultados da Rede Ramularia, safra 208/2019
Figura 2 - Resultados da Rede Ramularia, safra 208/2019.

Flavia Elis de Mello, Daniel Dias Rosa e Ricardo Desjardins Antunes, Syngenta Proteção de Cultivos

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