Evolução da qualidade de grãos e sementes de soja

  • Página 16 |
  • Dez 2019 |
  • Irineu Lorini, José Marcos Gontijo Mandarino, Marcelo Alvares de Oliveira, José de Barros França-Neto, Francisco Carlos Krzyzanowski, Ademir Assis Henning, Fernando Augusto Henning, Marcelo Hiroshi Hirakuri e Vera de Toledo Benassi, E

A Embrapa Soja conduz o projeto “Caracterização da Qualidade de Sementes e Grãos de Soja no Brasil”, no qual já foram avaliadas as safras 2014/15, 2015/16 e 2016/17. Nesse período foram coletadas e analisadas 2.581 amostras de grãos provenientes de 293 municípios de dez estados brasileiros, agrupados em microrregiões definidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As amostras foram provenientes de mais de 60 instituições, compostas por cooperativas, universidades, empresas e associações de produtores de sementes e empresas estaduais de pesquisa.

Os resultados mostraram que a qualidade física dos grãos de soja da safra 2016/17 foi melhor comparativamente às duas safras anteriores (2014/15 e 2015/16). Embora em algumas microrregiões tenham ocorrido problemas sérios com elevado número de defeitos nos grãos colhidos, a maioria das microrregiões do Brasil teve diminuição na porcentagem de defeitos, destaque para o Centro-Oeste que reduziu a porcentagem de grãos com defeitos, diminuindo assim os descontos aos sojicultores. Esta melhora na qualidade dos grãos se deve à melhoria no manejo pelos agricultores e armazenadores, e pelas melhores condições climáticas durante a safra.

A média de grãos fermentados da safra 2016/17 foi de 1,30%, com variação de zero a 12,45% de grãos fermentados, sendo a maior porcentagem no Paraná, com 1,77%, e a menor na Bahia, com 0,17%. Os grãos danificados por percevejos (picados) tiveram média de 2,09%, com variação de zero a 11,69%, sendo a maior porcentagem no Mato Grosso do Sul, com 3,57%, e a menor na Bahia, com 0,64%. A média de grãos avariados na safra foi de 3,68%, com variação de zero a 21,22%, sendo a maior porcentagem média no Paraná, com 5,62%, e a menor na Bahia, com 0,87%. Para grãos quebrados e amassados a média da safra 2016/17 foi de 3,46%, variando de zero a 19,78%. Como a porcentagem de grãos avariados tem tolerância de 8%, houve uma menor quantidade de descontos aplicados no recebimento dos grãos nas unidades armazenadoras do País, devido a essa melhora na qualidade. Considerando a média dos descontos por grãos avariados devido aos defeitos, principalmente de grãos fermentados e picados por percevejos, o país perde um pouco mais de R$ 1 bilhão por ano com esse problema. 

O dano mecânico não aparente para as amostras de grãos de soja colhidas na safra 2016/17 foi de 14,46%, sendo os maiores índices de ocorrência nos estados do Mato Grosso, com 17,32%; Paraná, com 17,17%; Goiás, com 15,97%, e Santa Catarina, com 15,17%. O índice médio nacional de grãos partidos na safra foi de 10,3%, considerado um valor baixo em relação ao tolerado pela Instrução Normativa número 11, de 15 de maio de 2007, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Os maiores índices foram nos estados de Goiás, com 13,05%, Rio Grande do Sul, com 12,60%, Santa Catarina, com 11,63%, Paraná, com 11,77%, São Paulo, com 9,87%, Mato Grosso do Sul, com 8,92%, e Mato Grosso, com 8,84%. A Bahia, com índice médio de 2,07%, foi o estado com menor porcentagem de grãos partidos.

O dano mecânico no nível (1-8) determinado pelo teste de tetrazólio para as amostras de grãos de soja colhidas na safra 2016/17 foi de 28,27%, valor inferior aos 33,5% constatados na safra 2015/16 e a 32,9% na safra 2014/15. Os maiores índices de ocorrência desse dano foram registrados nos estados do Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Mato Grosso. Os estados do Tocantins, Santa Catarina, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia e Goiás se destacaram pela ocorrência dos menores índices de danos mecânicos determinados pelo teste de tetrazólio. Diversas amostras com baixíssimos índices de danos mecânicos foram encontradas em diversas regiões brasileiras, o que comprova a existência de tecnologia para colheita, que pode resultar na produção de grãos de soja com menores índices de danos mecânicos, que é alcançado com um melhor manejo da colheita.

A deterioração por umidade constatada no Brasil na safra 2016/17 apresentou índice médio de 23,3%, valor muito superior ao da safra 2014/15, que foi de 11,9%, porém ligeiramente inferior aos 28,1% da safra 2015/16. Esse valor elevado de deterioração por umidade deveu-se à ocorrência de chuvas frequentes na pré-colheita na safra 2016/17 em diversas regiões brasileiras. Os menores índices de deterioração por umidade foram encontrados em Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Os maiores valores foram para os grãos provenientes de Tocantins, Goiás e Mato Grosso. São Paulo apresentou valores próximos à média nacional. Deve-se destacar que em todos os estados, diversas amostras de grãos apresentaram níveis muito baixos desse tipo de dano, com várias amostras com nível mínimo igual a zero, demonstrando que a qualidade dos grãos, em relação a esse problema, tem ainda muito a ser melhorada.

Em relação à ocorrência de grãos de soja esverdeados, o índice médio nacional foi de 2,1%, valor idêntico ao constatado na safra 2015/16 e inferior aos 4,1% da safra 2014/15. Os maiores índices na ocorrência de grãos esverdeados foram encontrados no Mato Grosso do Sul, em São Paulo, no Paraná e em Minas Gerais.

Qualidade das sementes de soja também foi avaliada
Qualidade das sementes de soja também foi avaliada.

Aspergillus flavus, principal fungo de armazenamento e potencial produtor de aflatoxinas, apresentou média nacional de ocorrência de 3,35% na safra 2016/17, com aumento de intensidade nos estados do Mato Grosso do Sul (média de 8,85%), Rio Grande do Sul (média de 5,54%), São Paulo (média de 3,81%) e Paraná (média de 5,58%), nos demais estados sua ocorrência foi inferior à média nacional. Para Fusarium graminearum, fungo potencial produtor da micotoxina zearalenona, a média nacional de ocorrência foi bastante baixa, apenas 0,06%, com as maiores médias nas microrregiões de Chapecó, SC (2,5%); Goioerê, PR (2%); Iguatemi, MS (2,5%) e Dourados, MS (3%). A ocorrência de bactérias saprofíticas foi bastante elevada e generalizada em todas as regiões, com ocorrência máxima de 91,5% em Jaguarão (RS). A média nacional foi de 23,83%. Todavia, vale ressaltar que tais micro-organismos não são fitopatogênicos e a presença de bactérias está normalmente associada a grãos danificados, causando sua deterioração.

Houve a presença de insetos-praga contaminantes nas amostras de soja coletadas no País na safra 2016/17, em todos os estados, evidenciando ser esse um problema generalizado em todas as regiões produtoras dos grãos. As espécies de maior ocorrência foram Ephestia spp., Sitophilus spp., Cryptolestes ferrugineus, Liposcelis bostrychophila e Lasioderma serricorne. Lophocateres pusillus também foi encontrado em algumas amostras e, embora com poucos exemplares (14 insetos), é considerada uma ameaça ao grão de soja armazenado, pois até o ano de 2011 não era encontrado no Brasil. Destaca-se também a presença da praga Lasioderma serricorne com 290 exemplares, sendo a maioria (245 exemplares) no estado do Mato Grosso. A infestação de insetos-praga em grãos de soja aumentou consideravelmente ao longo das três safras estudadas, sendo encontrados 11.677 insetos e partes destes nas 903 amostras da safra 2016/17, número muito superior ao encontrado nas safras 2015/16 (8.401) e 2014/15 (6.315). A presença de insetos-praga na soja é uma importante barreira para a comercialização e/ou exportação dos grãos, o que poderá causar transtornos técnicos e econômicos, com reflexo direto no preço do produto pago aos produtores de soja.

O teor médio de proteína nos grãos de soja na safra 2016/17 foi de 37%, e esse teor variou de 32,03% a 41,35% nas 903 amostras analisadas. O estado que apresentou a maior média no teor de proteína foi a Bahia, com 38,16%, e o Paraná foi o estado com a menor média, 36,74%. O teor médio nacional de proteínas da safra 2016/17 foi superior aos teores médios nacionais das safras anteriores avaliadas, safra 2014/15 com 36,10% e safra 2015/16 com 36,88%. Este teor porcentual médio de proteínas nos grãos representa um bom padrão para a indústria de produção de farelo desengordurado, destinado à fabricação de rações, uma vez que a maioria dos valores, de modo geral, ficou em um intervalo entre 36% e 38%.

Com relação ao teor médio de óleo não houve grande variação nos valores encontrados para as microrregiões de cada um dos estados onde as amostras foram coletadas nem entre os estados. O teor médio de óleo determinado para o Brasil, para a safra 2016/17, foi de 22,42%, sendo 19,15% o teor mínimo encontrado e 25,73% o teor máximo. Esse teor médio de 22,42% é superior ao teor considerado como ideal pelas indústrias esmagadoras de grãos e produtoras dos diferentes tipos de óleo de soja comercializados no País. Comparativamente com as safras de 2014/15 e 2015/16, o teor médio de óleo para o Brasil se manteve praticamente inalterado, com média nacional de 22,45% e 22,16%, respectivamente.

O teor médio de índice de acidez no Brasil na safra 2016/17 foi de 0,47%, bem mais baixo que da safra 2015/16 (0,94%), e muito mais baixo que da safra 2014/15 (2,24%). A indústria preconiza que o índice ótimo de acidez no óleo do grão de soja seja de aproximadamente 0,7%, e certamente para a indústria de óleo a safra 2016/17 foi a melhor das três avaliadas.

O teor médio de clorofila total determinado nos grãos de soja da safra 2016/17 foi baixo em todos os estados brasileiros, com média nacional de 0,90mg/kg. As maiores médias ocorreram nos estados do Mato Grosso do Sul, com 1,69mg/kg, e Paraná, com 1,59mg/kg, e a menor média no estado do Rio Grande do Sul, com 0,53mg/kg.

O mercado consumidor é extremamente exigente e busca cada vez mais maximizar o “valor de entrega” do produto que está adquirindo, que corresponde à diferença entre o valor total esperado e os custos do produto. Assim, a qualidade do produto (valor) e a eficiência dos processos logísticos (custos) serão imprescindíveis para aumentar a competitividade e a sustentabilidade da cadeia produtiva de grãos. Os gargalos da logística agrícola nacional e os requisitos de qualidade fazem com que seja necessário tratar os aspectos associados à qualidade dos grãos, assim como as fontes geradoras de danos, nos frágeis elos logísticos, de modo que sejam criadas inovações tecnológicas e conhecimentos para disparar ações estratégicas relacionadas à manutenção da sustentabilidade da cadeia produtiva.

As análises da qualidade dos grãos produzidos na safra 2017/18 estão sendo realizadas e, em breve, esses resultados serão relatados.  Informações mais detalhadas sobre esse levantamento da qualidade dos grãos de soja produzidos nas regiões produtoras do Brasil são encontradas nas publicações “Qualidade de sementes e grãos comerciais de soja no Brasil”, safras 2014/15, 2015/16 e 2016/17, que podem ser acessadas diretamente do site da Embrapa Soja (www.embrapa.br/soja), acessando nos links “Publicações” e em “Armazenagem e Pós-colheita”. 

Figura 1 - Média de grãos danificados por percevejos (%) nas amostras de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil, na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras
Figura 1 - Média de grãos danificados por percevejos (%) nas amostras de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil, na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras.
Figura 2 - Média de grãos avariados (%) nas amostras de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil, na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras
Figura 2 - Média de grãos avariados (%) nas amostras de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil, na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras.
Figura 3 - Dano mecânico não aparente (%) nas amostras de grãos de soja das diferentes microrregiões nos estados do Brasil, na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras
Figura 3 - Dano mecânico não aparente (%) nas amostras de grãos de soja das diferentes microrregiões nos estados do Brasil, na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras.
Figura 4 - Espécies de insetos-praga presentes nas 903 amostras de grãos de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil, na safra 2016/17
Figura 4 - Espécies de insetos-praga presentes nas 903 amostras de grãos de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil, na safra 2016/17.
Figura 5 - Teor de proteínas (%) em grãos de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil, na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras
Figura 5 - Teor de proteínas (%) em grãos de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil, na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras.
Figura 6 - Índices de acidez do óleo (%) nas amostras de grãos de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil, na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras
Figura 6 - Índices de acidez do óleo (%) nas amostras de grãos de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil, na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras.
Figura 7 - Teores de clorofila (mg.kg-1) nas amostras de grãos de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil, na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras
Figura 7 - Teores de clorofila (mg.kg-1) nas amostras de grãos de soja das diferentes microrregiões dos estados do Brasil, na safra 2016/17. As cores representam a intensidade da característica nas diferentes microrregiões brasileiras.

Irineu Lorini, José Marcos Gontijo Mandarino, Marcelo Alvares de Oliveira, José de Barros França-Neto, Francisco Carlos Krzyzanowski, Ademir Assis Henning, Fernando Augusto Henning, Marcelo Hiroshi Hirakuri e Vera de Toledo Benassi, Embrapa Soja; Gilda Pizzolante de Pádua, Embrapa/Epamig-Oeste

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