Impacto nocivo

  • Página 38 |
  • Out 2019 |
  • Paulo Sergio dos Santos e Cristiano Bellé, Instituto Phytus

A produção mundial de arroz (Oryza sativa L.) atinge anualmente 700 milhões de toneladas. No Brasil, o estado do Rio Grande do Sul se destaca como maior produtor, com mais de 70% da produção nacional deste cereal, ocupando uma área de 1,10 milhão de hectares para o cultivo do arroz irrigado. Diversos problemas de ordem fitossanitária apresentam capacidade para limitar o potencial produtivo da cultura. Dentre estes fatores, os nematoides parasitas de plantas destacam-se no cenário orizícola. Estes micro-organismos são especializados em infectar e prejudicar o crescimento do sistema radicular das plantas. Um dos principais grupos envolvidos neste processo é o de  nematoides-das-galhas, considerado de maior importância econômica na agricultura mundialmente.

Apesar da grande diversidade que compõe este grupo e das várias espécies que podem atacar o arroz irrigado, Meloidogyne graminicola é o de maior ocorrência e capaz de causar danos significativos à cultura nas diferentes partes do globo. Estimativas têm apontado que o impacto causado por esse nematoide em lavouras de arroz irrigado está na ordem de 10% a 80%. Os sintomas relacionados à infecção causada por Meloidgyne variam de acordo com a densidade populacional do nematoide, as práticas de manejo utilizadas nas lavouras e a resistência das plantas.

No entanto, os sintomas geralmente começam pela formação de galhas nas pontas das raízes (comumente conhecidas como cabo de guarda-chuva), que prejudicam significativamente o desenvolvimento do sistema radicular, bem como o desenvolvimento da parte aérea das plantas. Esse processo interfere diretamente no fluxo de absorção e transporte de água/nutrientes pela planta, podendo refletir em sintomas na parte aérea como raquitismo, clorose, perda de vigor, retardo na maturação e redução no perfilhamento. Cabe salientar que esses sintomas normalmente são pouco expressivos devido à aplicação da adubação nitrogenada que acaba ocultando, ou até mesmo reduzindo, tais sintomas, permitindo que o problema aumente.

Outro aspecto que também dificulta a observação dos sintomas a campo é o fato desses micro-organismos não serem visíveis a olho nu. Os principais sintomas iniciais da problemática ocorrem no sistema radicular das plantas, ambiente “subterrâneo” de difícil visualização.

Todos os problemas de diagnose e identificação têm proporcionado condições favoráveis para o aumento do nematoide-das-galhas nas áreas produtoras de arroz. Tendo em vista o potencial biótico deste grupo de nematoide, e a alta capacidade de reprodução quando as condições ambientais são favoráveis, há preocupação com o possível aumento das populações nas lavouras de arroz irrigado. Outro ponto a se levantar é a questão da associação do nematoide-das-galhas com plantas daninhas, como capim-arroz (Echinochloa crusgalli), tiriricas (Cyperus difformis, Cyperus rotundus e Cyperus iria) e cuminho (Fimbristylis miliacea). Tal combinação vem contribuindo para o aumento da densidade populacional no solo.

Raiz com aspecto de cabo de guarda-chuva, sintoma característico do parasitismo de Meloidogyne graminicola
Raiz com aspecto de cabo de guarda-chuva, sintoma característico do parasitismo de Meloidogyne graminicola.
Plantas daninhas do gênero Cyperus spp. apresentando sintomas do parasitismo causado por Meloidogyne graminicola
Plantas daninhas do gênero Cyperus spp. apresentando sintomas do parasitismo causado por Meloidogyne graminicola.

Frente a essa situação, o Instituto Phytus tem realizado estudos em lavouras de arroz irrigado no estado do Rio Grande do Sul ao longo dos últimos anos, a fim de determinar o possível impacto deste nematoide na produtividade da cultura. Alguns estudos foram conduzidos em municípios produtores de arroz da região nos anos de 2018/19, buscando entender melhor essa relação. Para isso, lavouras infestadas por Meloidogyne graminicola foram escolhidas para esse estudo durante a safra 2018/19. Foram realizadas diversas coletas de plantas nas manchas (plantas com leve amarelecimento e porte reduzido), e fora das manchas (plantas aparentemente normais), aos 30 dias depois da emergência e encaminhadas para o laboratório de nematologia para identificação e quantificação. Após as análises, foram demarcados os pontos de maior e menor infestação, e realizado o acompanhamento até a produtividade.   

Na produtividade, dentro de cada ponto de maior e menor infestação, foram colhidos aproximadamente 2m², distribuídos em vários pontos da lavoura, para obtenção da estimativa de produtividade dentro e fora das manchas contendo a presença do nematoide.

De acordo com os resultados obtidos, foi observada redução na produtividade para os pontos com maior infestação em relação aos de menor infestação (Gráficos 1 e 2).

Os resultados obtidos nas condições desse estudo mostraram a capacidade deste nematoide de interferir negativamente na produtividade, variando entre 415kg e 697kg, o que representa algo em média entre 8,3 sacas a 13,9 sacas em relação às áreas com maior e menor infestação (Gráficos 1 e 2). 

A ocorrência e/ou presença desse nematoide se dá em função do monocultivo de arroz com cultivares suscetíveis ao longo de anos, devido à dificuldade de se fazer rotação de culturas com plantas não hospedeiras, o que contribui significativamente para o rápido crescimento populacional no solo. Outra possível causa relaciona-se ao desconhecimento e à falta de diagnóstico do problema por técnicos e produtores, onde os danos causados acabam não sendo vinculados à presença do nematoide e confundidos com outros eventos, como deficiências nutricionais, ataque de outras pragas de solo (Orizophagos oryza - bicheira-da-raiz), fitotoxidez causada por herbicidas ou até dano indireto por excesso de ferro no solo.

Portanto, todos os problemas de diagnose e identificação têm proporcionado condições favoráveis para o crescimento do nematoide-das-galhas nas áreas produtoras de arroz. Tendo em vista o potencial biótico deste grupo e a alta capacidade de reprodução quando as condições ambientais são favoráveis, existe uma preocupação com o possível crescimento das populações nas lavouras de arroz irrigado. Apesar de os primeiros resultados buscarem mensurar o impacto desse nematoide na cultura do arroz irrigado, novos estudos deverão ser realizados nesta safra para confirmação dos dados obtidos, bem como alternativas de manejo que possibilitem auxiliar os produtores na redução dos danos causados.

Paulo Sergio dos Santos e Cristiano Bellé, Instituto Phytus

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