Importância da manutenção dos sistemas internos do pulverizador na entressafra

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  • Jun 2020 |
  • Mariana Rodrigues Bueno, Mateus Aparecido Vitorino Gonçalves de Oliveira, César Henrique Souza Zandonadi e Sérgio Macedo Silva

A entressafra compreende o período entre o fim da colheita principal e o início do próximo cultivo, sendo, em geral, um período em que o solo está em pousio ou cultivado com culturas de cobertura. Normalmente, o período de entressafra acontece entre os meses de maio e setembro e a duração desse período varia muito de acordo com a região de cultivo, com o tipo de cultura e com a quantidade de safras ao longo do ano.

O mais importante não é quando esse período acontece, de fato, mas sim o que fazer nesse período em que não há culturas no campo. É extremamente importante fazer a revisão nas máquinas agrícolas nesse período, pois a manutenção preventiva, além de ter um custo menor que a corretiva, ajuda a prolongar a vida útil das máquinas e, principalmente, a evitar que a máquina estrague durante uma operação no campo.

A necessidade de manutenção se justifica pela maior demanda de uso dos pulverizadores durante o ciclo das culturas, e também em vista de não se perder o timing da aplicação. Como exemplo, os equipamentos de pulverização são utilizados no mínimo três vezes, como ocorre na cultura do milho, em média oito vezes na safra do café e mais de dez vezes no cultivo do algodão. E infelizmente é muito comum encontrar pulverizadores com barras quebradas e presas por cordões ou arames, bicos desgastados ou com diferentes vazões numa mesma barra, sujeira incrustada e vazamentos. Isso mostra, de certo modo, que a preocupação principal é maior com os defensivos, e não com a forma como eles são aplicados.

No caso dos pulverizadores e turboatomizadores, normalmente a revisão engloba a parte de funcionamento das máquinas, peças, óleos, filtros de ar e combustível, mas não contempla o sistema interno de pulverização (limpeza do tanque, mangueiras, tubulações, fluxômetros, filtros de linha e bicos).

Parte dos problemas decorrentes de fitointoxicação acontece em função da presença de resíduos de agroquímicos no sistema de pulverização, quando se lava apenas com água. Esses resíduos são detectados apenas quando se realiza uma limpeza interna do sistema. Em algumas regiões já é realidade o uso de produtos específicos para limpeza dos pulverizadores, como os “limpa tanque”, bem como a limpeza constante desses equipamentos.

Outro grave problema decorrente de sujeira incrustada no interior da máquina é o entupimento de pontas de pulverização. Os filtros no pulverizador têm a função de reter sujeiras, evitando o entupimento das pontas durante a aplicação. Contudo, quando essa sujeira não é removida, pode se acumular em todo sistema, desde o tanque até a própria ponta.

A sujeira que está no sistema de pulverização tem várias origens: a fonte de captação de água, do tanque de abastecimento; do tanque de pré-mistura, que também necessita ser limpo com frequência. Mas a principal fonte de resíduos acontece em virtude das misturas de produto em tanque. Nesse caso, é relevante considerarmos a incompatibilidade entre produtos, a qual pode ser química ou física. Quando ela é apenas química, normalmente não se observam alterações na qualidade da calda, mas o efeito é visível no campo após a aplicação, quando não há uma boa eficácia de controle do alvo. Mas quando essa incompatibilidade é física, além de ser possível observar falhas no controle, há formação de precipitados e presença de resíduos no tanque ou nos tanques de pré-mistura. Dessa forma, tais resíduos ficam aderidos às paredes do tanque, às mangueiras, aos filtros e fluxômetros, às válvulas antigotejo e às pontas, causando desgaste das peças, entupimentos e vazamentos.

Bicos desgastados e sujeira incrustada na barra (esq.) e pulverizador com última sessão da barra quebrada (dir.)
Bicos desgastados e sujeira incrustada na barra (esq.) e pulverizador com última sessão da barra quebrada (dir.)
Lavoura de soja com fitointoxicação após a pulverização, causada pela presença de resíduos de defensivo no tanque
Lavoura de soja com fitointoxicação após a pulverização, causada pela presença de resíduos de defensivo no tanque


A maior parte desses resíduos não é removida apenas com água, principalmente se estão acumulados há muito tempo no equipamento e se são provenientes do uso de produtos em pó, que possuem baixa solubilidade, produtos muito oleosos e siliconados. Dessa forma, se torna necessário o uso de produtos específicos para limpeza de tanque. É importante observar qual o ingrediente ativo desses produtos, pois água sanitária, ácido sulfúrico, gasolina e diesel, por exemplo, não são recomendados para esse fim. Produtos à base de ácido dodecil benzeno sulfônico, lauril éter sulfato de sódio e surfactantes são mais recomendados para uma limpeza profunda do sistema de pulverização, uma vez que não são corrosivos e não agridem os componentes das máquinas.

Folhas e galhos provenientes da fonte de captação e do fundo do tanque de abastecimento de água, e resíduos decorrentes de mistura incompatível entre dois produtos
Folhas e galhos provenientes da fonte de captação e do fundo do tanque de abastecimento de água, e resíduos decorrentes de mistura incompatível entre dois produtos
Tanque de pré-mistura antes e depois da limpeza com produto à base de ácido dodecil benzeno sulfônico
Tanque de pré-mistura antes e depois da limpeza com produto à base de ácido dodecil benzeno sulfônico
Resíduos de produtos fitossanitários acumulados nas terminações das sessões da barra do pulverizador, nos filtros de sessão e em pontas de pulverização
Resíduos de produtos fitossanitários acumulados nas terminações das sessões da barra do pulverizador, nos filtros de sessão e em pontas de pulverização


COMO REALIZAR A LIMPEZA

Existem diferentes formas de se fazer a limpeza interna dos equipamentos de pulverização, mas em geral o procedimento segue um padrão, mudando apenas o tempo em que o produto ficará em agitação no tanque, a quantidade de água para a limpeza e a dose, os quais variam de acordo com a recomendação de cada fabricante.

O box a seguir apresenta sugestão para realizar a limpeza/descontaminação dos equipamentos de pulverização. Esse processo de limpeza também pode ser realizado em turboatomizadores, aeronaves, pulverizadores costais e tanques de pré-mistura, basta adaptar a sequência ao processo de funcionamento de cada um desses equipamentos, bem como seguir a recomendação de cada fabricante.

É importante ressaltar que a limpeza e a descontaminação do pulverizador devem ser realizadas de preferência no pátio de descontaminação de produtos fitossanitários. Nas propriedades rurais que não o possuem, recomenda-se escolher uma área isolada, inacessível às crianças e aos animais, longe de cursos d’água e de locais de circulação de pessoas. Por fim, o uso de EPI também é obrigatório durante o processo de limpeza, a fim de evitar problema de intoxicação.

Como realizar limpeza/descontaminação dos equipamentos de pulverização

O processo de limpeza também pode ser realizado em turboatomizadores, aeronaves, pulverizadores costais e tanques de pré-mistura. Basta seguir os passos e adaptá-los a cada um dos equipamentos

1º) Adicionar água limpa ao tanque de pulverização (seguindo o volume de água recomendado pelo fabricante). Para uma limpeza profunda sugere-se metade da capacidade do tanque.

2º) Durante o abastecimento, retirar os filtros e as pontas de pulverização e colocá-los de molho em baldes com água limpa e o produto de limpeza.

3º) Adicionar o produto de limpeza na dose recomendada, de preferência pelo edutor do equipamento (quando forem equipados). Ao ser adicionado pelo edutor, o produto auxilia na limpeza da tubulação de retorno do tanque.

4º) Agitar a calda de limpeza no tanque por pelo menos 30 minutos. O tempo de limpeza depende da quantidade de incrustações e resíduos dentro do sistema de pulverização, caso haja grande quantidade pode ser necessário aumentar o tempo de agitação.

5º) Após a homogeneização do produto no tanque (entre cinco e dez minutos de agitação), abrir as sessões e deixar o produto passar por todos os bicos rapidamente. Esse processo visa colocar o produto em contato com o sistema de circulação da barra do pulverizador para facilitar a remoção de incrustações.

6º) Caso o sistema de retorno da máquina não seja acionado automaticamente durante o processo de agitação, ligar o mesmo (aproximadamente cinco minutos) pelo menos uma vez.

7º) Finalizado o tempo de agitação, iniciar o esgotamento do líquido. Remover as capas de drenagem/terminações das sessões e abrir sessão por sessão para que o líquido saia pelas tubulações (Foto A). Após esse processo, recolocar as capas.

8º) Para esgotar o restante de líquido, abrir novamente sessão por sessão e drenar o líquido pelos bicos (Foto B). Caso tenha muita água no tanque e o sistema estiver limpo, esgotar o restante de água pelo registro do fundo do tanque.

9º) Se houver resíduos nas paredes e fundo do tanque, jatear água limpa dentro do mesmo, com o registro do fundo do tanque aberto para que essa água suja seja descartada.

10º) Para finalizar, adicionar água limpa novamente no tanque, aproximadamente 1/5 da capacidade, agitar por aproximadamente cinco minutos e esgotar pelos bicos da barra.


Mariana Rodrigues Bueno,

UFVJM

Mateus Aparecido Vitorino Gonçalves de Oliveira,

JC&F/Bayer

César Henrique Souza Zandonadi,

Forquímica

Sérgio Macedo Silva,

UFVJM

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