Integração das atividades agrícolas com apicultura e meliponicultura

  • Página 40 |
  • Jul 2020 |
  • Ellen P. Souza e Paulo E. Degrande, Univ. Federal da Grande Dourados (UFGD)

A integração das atividades da agricultura com aquelas da apicultura e meliponicultura é benéfica e possível. Abordada como um componente importante da sustentabilidade, esta assimilação demanda medidas para a mitigação de riscos de práticas agrícolas sobre as abelhas. Em escala, a maioria das culturas de interesse agrícola necessita da utilização de pesticidas para o controle dos seus antagonistas (como pragas, doenças e plantas daninhas), e as medidas de boas práticas agrícolas na aplicação destes produtos são fundamentais na adoção do Manejo Integrado de Pragas (MIP).

Tratamentos fitossanitários devem ser realizados somente quando forem realmente necessários, seguindo rigorosamente as instruções de uso, por exemplo, sem extrapolar a dosagem recomendada e com produtos autorizados para a cultura e respeitando as condições climáticas nas aplicações. Estas são medidas básicas para a minimização de riscos, ao lado da assistência técnica qualificada.

Conhecer os principais polinizadores a conservar, os produtos seletivos e o padrão de uso com base no comportamento destes insetos são medidas essenciais para escolhas que minimizam os riscos de contaminação das abelhas no campo.

Presença de Apis mellifera em flor de algodoeiro
Presença de Apis mellifera em flor de algodoeiro

Polinização

A polinização é um serviço entomológico que ocorre em ecossistemas, seja agrícola ou natural. Ao contrário do que se acredita, o agente polinizador visita as plantas atrás de recursos florais para sua alimentação e não com a intenção de polinizar flores. Daí decorre a dificuldade de mensurar os tais valores destes serviços ecossistêmicos em Entomologia.

Pelo grau de dependência, algumas plantas não dependem de agentes externos, como as abelhas, para que ocorra a fecundação dos seus óvulos e realizam a autopolinização (por exemplo: arroz, feijão, sorgo e trigo), ou no cultivo nem mesmo as flores têm significado (alho, cana-de-açúcar, mandioca e tabaco). Outras lavouras têm uma dependência muito restrita de polinizadores (algodoeiro, cafeeiro, mamoneira e soja).

De outro lado, a polinização cruzada proporciona variabilidade genética da espécie vegetal diversificando genomas de plantas, alguns mais vigorosos e produtivos. Os casos da castanheira, do guaranazeiro, da goiabeira e do maracujazeiro são ilustrativos neste aspecto.

Abelhas sociais sem ferrão são úteis para a polinização de várias plantas
Abelhas sociais sem ferrão são úteis para a polinização de várias plantas

Para uma grande maioria de espécies de plantas, os polinizadores são essenciais, pois sem eles muitas não conseguiriam se reproduzir e, consequentemente, não seria possível produzir frutos, sementes, amêndoas ou castanhas, que são utilizados em larga escala pela sociedade humana; além, de contribuírem para a manutenção da vegetação nativa e no incremento produtivo de diversas culturas. Assim, as plantas atraem os polinizadores oferecendo recompensas como pólen, néctar, óleos, resinas, cores e odores, que por sua vez atraem uma variedade de visitantes florais.

Sabe-se que os polinizadores mais eficientes por excelência são os insetos, destacando-se as abelhas criadas ou silvestres. Entre os gêneros de abelhas que se destacam como polinizadores de cultivos estão o Centris, de abelhas solitárias coletoras de óleo, o Xylocopa, que também são abelhas solitárias conhecidas como abelhas carpinteiras por nidificarem em madeira e são muito importantes para o maracujazeiro e a castanheira do Brasil. O gênero Bombus também se destaca com as mamangavas, também muito importantes para a cultura do maracujá, por sua vez o grupo de gêneros das abelhas sociais sem ferrão (meliponíneos e mesmo Trigona) são úteis para a polinização de várias plantas.

A abelha mais conhecida, citada e usada em monoculturas, pertence à espécie domesticada Apis mellifera (Hymenoptera: Apidae), comumente denominada abelha africanizada ou melífera, pois possui uma ampla distribuição geográfica. É generalista ao forragear uma enorme quantidade de plantas e cultivos, com elevada intensidade, visitando várias flores devido à sua grande necessidade nutricional para manutenção da colônia. Além disso, é amplamente manejada para a exploração dos seus produtos como mel, geleia real, própolis, pólen apícola e cera. Também são comumente utilizadas na mobilidade da apicultura migratória, com o objetivo de realizar a polinização de culturas no auge de sua floração para que se alcance o máximo da produtividade (eventualmente qualidade) da cultura e coleta de produtos apícolas. Por sua vez, os meliponíneos costumam ter manejos mais artesanais e são menos conhecidos cientificamente, o que não reduz o serviço prestado por eles.

Medidas de mitigação de riscos para polinizadores

O primeiro ponto é distinguir causas de potenciais mortandades de abelhas, como a importância de separar claramente as causas incidentais e acidentais das ações deliberadas. Além disso, entender que o Distúrbio do Colapso das Colmeias (DCC) tem supostas causas múltiplas, ocorrendo em períodos cíclicos nos últimos séculos, predominantemente no Hemisfério Norte e não exclusivamente causado por pesticidas.

A proximidade das abelhas com culturas agrícolas as torna expostas aos diferentes produtos fitossanitários empregados na proteção dos cultivos, o que causa elevada preocupação com a saúde desses insetos. Assim, dada a integração da agricultura com a apicultura e a meliponicultura, medidas de mitigação de riscos de pesticidas para tais polinizadores são necessárias.

Apis mellifera não empelota pólen de algodoeiro na corbícula, ele apenas fica sobre o corpo da operária
Apis mellifera não empelota pólen de algodoeiro na corbícula, ele apenas fica sobre o corpo da operária

A adoção plena do MIP nas lavouras é o primeiro passo desta conciliação. O uso do monitoramento de pragas e organismos benéficos como instrumento das decisões devidamente associado à aplicação dos métodos de controle cultural, resistência de plantas, controle biológico ou natural, recursos regulatórios, dentre outros, descomplica a necessidade de utilização de pesticidas em uma emergência para prevenir a extrapolação do nível de dano econômico.

Conhecer a lista de produtos seletivos a esses polinizadores para escolhas acertadas é chave. Também, ter um conhecimento prévio da lista dos principais polinizadores que visitam a cultura em que se pretende realizar tais aplicações, bem como seu comportamento de forrageamento na cultura, é de elevada importância para ações de conservação.

Na parte operacional, evitar aplicações diretamente sobre abelhas em visitação nos campos de cultivo, por exemplo após o início da manhã até o final da tarde, principalmente no período de floração das culturas, pois é quando estão mais atrativas às abelhas, procurando realizar estes tratamentos bem cedo ou próximo do crepúsculo ou à noite, sempre seguindo as recomendações de utilização das bulas dos produtos fitossanitários. Simplificando, evitar aplicar pesticidas entre 8h e 16h, o que tem também algum significado prático nas eficácias das aplicações, por causa dos frequentes ventos intensos e suas rajadas, temperaturas mais elevadas e umidades do ar baixas.

O mais indicado é realizar aplicações de produtos fitossanitários quando não existir abelhas ou apiários próximos aos cultivos, porém muitas vezes isso não é possível. Então, se viável, caso existam colônias alocadas nos cultivos durante a florada não é recomendada a aplicação até que sejam removidas. Alternativamente, recomenda-se a proteção das colônias na hora da aplicação, fechando o alvado ou a fenda de entrada e saída dos adultos das abelhas da colmeia.

Para otimizar a validade, a aplicabilidade e a funcionalidade destas medidas é notável a necessidade de diálogo frequente e profissional entre vizinhos apicultores e agricultores e seus gestores, ou mesmo entre prestadores de serviços de polinização e responsáveis pelas lavouras do entorno. Na sua grande maioria, as abelhas forrageiam num raio de até dois a três quilômetros da colmeia.

A composição de locais de forrageamento com outras plantas que permitam uma flora apícola maior, diversificada e mais atrativa que o cultivo também é recomendada, como uma alternativa no incremento da diversidade de habitats e plantas no entorno donde as abelhas possam coletar recursos florais, locais estes onde não ocorreram aplicações de produtos fitossanitários. Para este fim, têm sido sugeridas plantas como: assa-peixe, vassourão-branco, astrapeia-rosa, eucalipto-anão-de-flores-vermelhas, cambará-lixa, paineira-bombax, resedá-branco, resedá-rosa, ipê-de-jardim, dentre outras.

É oportuna, ainda, a conservação da vegetação nativa próxima das áreas de cultivo agrícola, que forneçam habitats com flores para os polinizadores como fonte de recursos mais atrativa e eficiente que a própria cultura agrícola. Assim, o número de visitas nos cultivos que recebem aplicações diminuirá e os riscos de contaminação serão menores.

Dinâmica temporal de abelhas A. mellifera em um cultivo de soja de ciclo indeterminado, ao longo do período de floração estimado pelo modelo linear generalizado de Poisson. (Fonte da tese Souza, E.P. 2019)
Dinâmica temporal de abelhas A. mellifera em um cultivo de soja de ciclo indeterminado, ao longo do período de floração estimado pelo modelo linear generalizado de Poisson. (Fonte da tese Souza, E.P. 2019)

Outro ponto a ser observado é o respeito às faixas de segurança para as aplicações (distância entre cultivo e áreas de preservação ou conservação), de acordo com os conceitos de boas práticas agrícolas e a legislação pertinente de cada localidade ou bula do produto. Indica-se sempre realizar periodicamente a manutenção dos equipamentos de pulverização terrestres, bem como seguir as dosagens recomendadas, com volume de calda e tamanho das gotas para cada produto a ser aplicado; assim, será obtido o máximo de efetividade no controle de pragas, serão evitadas perdas por deriva e consequentemente previne-se a contaminação de polinizadores colaborando para sua conservação.

Quanto às recomendações para as aplicações aéreas, que não são mais deletérias que as terrestres comparativamente, propõe-se não aplicar em uma distância menor que 300 metros de áreas de vegetação natural e culturas agrícolas vizinhas em fase de florescimento e visitação de abelhas. Indica-se que antes das aplicações deve-se notificar os apicultores localizados a um raio de até seis quilômetros com antecedência mínima de 48 horas, para que possam proteger suas colmeias, e recomenda-se que as aplicações sejam feitas a uma altura de três a cinco metros de altura de voo sobre a cultura a ser pulverizada. Destaca-se que os apicultores no anonimato ou aqueles que colocam suas colmeias clandestinamente em locais não autorizados acabam ficando sujeitos a surpreendentes problemas de mortandade de abelhas ou colmeias.

O volume de aplicação deve ser no mínimo de 50 litros de calda por hectare, se viável para o sucesso do tratamento fitossanitário, e as condições climáticas devem ser respeitadas conforme as bulas de registros dos produtos fitossanitários, procurando aplicar quando a velocidade do vento estiver entre 3km/h e 7km/h, a temperatura estiver inferior a 30ºC com a umidade relativa do ar superior a 55% e com gotas finas e médias, visando assim reduzir ao máximo as perdas por deriva e evaporação e garantindo um controle eficiente das pragas. Alguns estados da Federação detêm suas próprias normas para pulverização aérea, por isso é preciso atenção no momento da aplicação.

Contemporaneamente, em um ambiente de agricultura 4.0, onde os dados coletados, transmitidos e processados em tempo real melhoram a produtividade e a sustentabilidade do campo, faz-se necessário o desenvolvimento de produtos, processos e serviços que utilizem georreferenciamento (GIS/GPS) das colmeias, aplicativos de mapeamento e intercomunicação, mapas e sistemas de aviso para alertar riscos iminentes.

Em suma, nota-se aqui a importância evidente do diálogo permanente entre vizinhos apicultores e agricultores (ou seus gestores) para o gerenciamento de riscos, com vistas a minimizar problemas de mortalidade de abelhas e evitar conflitos interpessoais, judiciais ou de negócios.


Ellen P. Souza e Paulo E. Degrande, Univ. Federal da Grande Dourados (UFGD)

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