Lagartas em alta

  • Página 56 |
  • Jan 2019 |
  • Simone Martins Mendes, Embrapa Milho e Sorgo Rosangela C. Marucci, Universidade Federal de Lavras José Magid Waquil, Universidade Federal de São João Del Rei

O modelo de agricultura tropical brasileiro tem como diferencial permitir a produção por duas a três safras anuais consecutivas. Mas, se por um lado este tipo de exploração do solo permite maior rendimento por unidade de área; por outro, a sobreposição das safras dificulta o manejo de insetos-praga, sobretudo daqueles de hábito polífago, que são favorecidos pela formação da “ponte verde”, conectando as sucessivas safras primavera/verão/outono e inverno.

Um importante grupo dos insetos polífagos pertence à ordem Lepidoptera, com destaque para lagarta-do-cartucho do milho, Spodoptera frugiperda, praga-chave na maioria das regiões do País em função da ampla distribuição geográfica, por ser endêmica nas Américas e estar adaptada a se alimentar o ano todo em culturas de importância agrícola (milho, sorgo, trigo, arroz, feijão, soja, algodão). Inclusive, destaca-se como uma das espécies-praga mais importante nos sistemas intensificados de plantio, tanto nas culturas comerciais como nas de cobertura, como as braquiárias Urochloa decumbens e Urochloa  ruziziensis.
Mas as lavouras de milho também são danificadas por outros importantes lepidópteros-praga polífagos, como Diatraea saccharalis, Helicoverpa zea, Elasmopalpus lignoselus, além da Helicoverpa armigera, que ocorre em lavouras de milho, sobretudo nas regiões onde predomina o cultivo do algodão. 

IMPLICAÇÕES DO HÁBITO 
POLÍFAGO NO MANEJO

A polifagia é uma característica biológica de algumas espécies fitófagas para garantir sua sobrevivência, seu desempenho biológico e sua prevalência populacional ininterruptamente. Assim, muitos destes insetos conseguem manter-se em baixa densidade em diferentes plantas hospedeiras, até encontrarem um alimento adequado para expressarem todo seu potencial biótico. 
Spodoptera frugiperda é uma das espécies polífagas mais nocivas para as culturas anuais nas regiões tropicais das Américas. As lagartas podem causar perdas que variam de 17% a 38,7% na produção de milho e de sorgo, em função do ambiente, da cultivar e do estádio de desenvolvimento das plantas atacadas.
Durante o verão, a soja é uma das culturas mais abundantes no agroecossistema e desempenha papel importante na sobrevivência de populações de S. frugiperda que acabam submetidas a uma monofagia funcional, devido à ausência dos hospedeiros preferidos como o milho e o sorgo, que geralmente são cultivados em sucessão à soja. Além disso, plantas daninhas como milheto, capim-pé-de-galinha e sorgo selvagem também podem manter suas populações na área.
Mesmo quando se utilizam práticas conservacionistas e desejáveis aos sistemas de produção, como plantio direto e culturas de cobertura, deve ser considerada a questão da “ponte verde”. As braquiárias (U. decumbens e U. ruziziensis) são muito utilizadas como planta de cobertura por produzir grande quantidade de massa verde. No entanto, favorecem o desenvolvimento de S. frugiperda. Além disso, no sistema de plantio direto, como não há revolvimento do solo, ocorre maior sobrevivência das pupas que passam essa fase no solo. Por outro lado, a crotalária é uma das plantas de cobertura utilizadas em plantio direto que menos favorece a sobrevivência da espécie. Assim, é possível inferir que o plantio de crotalária em regiões onde a pressão de S. frugiperda é muito alta, pode ser uma ferramenta de supressão da população dessa praga.
A habilidade de S. frugiperda em se manter no ambiente com o uso de hospedeiros alternativos tem proporcionado a prevalência de injúrias em plantas recém-emergidas dos hospedeiros preferenciais, por meio da abertura de galeria na região do coleto, causando o sintoma conhecido como coração-morto e a consequente redução do estande em condições de intensificação de cultivo. Nesse caso, uma das estratégias principais para o manejo é a realização da dessecação 20 dias a 30 dias antes do plantio, com o intuito de reduzir ou eliminar a oferta de alimento para o inseto. 

Figura 1 - Sobrevivência (%) de Spodoptera frugiperda em diferentes plantas de cobertura utilizadas em sistemas de plantio direto, avaliadas em casa de vegetação
Sintoma de "coração morto" causado pela lagarta Spodoptera frugiperda


USO DE PLANTAS BT NO
MANEJO DE LAGARTAS

O milho Bt tem sido utilizado em todas as regiões agrícolas do País, atingindo mais de 80% da área cultivada. Consiste em um milho geneticamente modificado, que expressa proteínas inseticidas, cujos genes foram clonados da bactéria Bacillus thuringiensis. Essas proteínas inseticidas produzidas pela própria planta possuem ação no intestino médio da lagarta, onde se ligam a receptores específicos formando poros que promovem a ruptura da parede intestinal. Nesse processo biológico ocorre a liberação do conteúdo da célula e o inseto paralisa sua alimentação, mesmo antes de sua morte. 
As proteínas inseticidas ou proteínas Bt, são expressas em todos os tecidos da planta, assim na lavoura todas as lagartas estão expostas às proteínas tóxicas. Dessa forma, como a lagarta é difícil de ser atingida dentro do cartucho do milho via pulverização, com a utilização do milho Bt o alvo é facilmente alcançado, sendo esta uma das vantagens desta tecnologia. Por outro lado, as principais desvantagens são a pressão de seleção e a velocidade com que esses insetos são selecionados para resistência a essas proteínas. Além disso, as mesmas proteínas Bt são expressas nas culturas que se sucedem algodão, soja e milho (Quadro 1).


É importante considerar que dentre as tecnologias Bt disponíveis no milho cultivado no Brasil, há sete proteínas, sendo cinco com ação para lepidópteros e duas para coleóptero, larvas de Diabrotica speciosa. Destas cinco proteínas, duas (Cry1F e Cry1Ab), oficialmente, perderam a eficácia devido à quebra da resistência por S. frugiperda, a principal praga-alvo das tecnologias Bt no milho. 
Também vale lembrar que dados de pesquisa mostram que a presença de mais de uma proteína com sítios de ação diferentes (eventos piramidados), para a praga-alvo, pode retardar a evolução da resistência. Além disso, as proteínas inseticidas expressas em alta dose, com 99% ou mais de eficiência de controle da população de insetos, são importantes para retardar a evolução da resistência, prolongando a vida útil da tecnologia. Dessa forma, eventos piramidados para o manejo de lagartas com tecnologias Bt são mais efetivos quando comparados às tecnologias com um único evento.
Assim, o nível de controle obtido a campo pode ser afetado substancialmente dependendo da região, da população da praga, da tecnologia utilizada (proteínas presentes nas tecnologias), da expressão das proteínas em alta dose e das boas práticas agronômicas adotadas, sobretudo da área de refúgio. 

A NECESSIDADE DA 
ÁREA DE REFÚGIO

O plantio de áreas de refúgio é um pré-requisito fundamental para o manejo da resistência de insetos às proteínas Bt e que combinado com o efeito da alta dose (mata os insetos heterozigotos) é essencial para prolongar a durabilidade da resistência das plantas de milho e retardar a evolução da resistência dos insetos-alvo a campo. Nesse sentido, as instituições públicas e as empresas detentoras das tecnologias Bt têm feito um enorme esforço em todo o País no sentido de conscientizar os produtores a respeito da aplicação das Boas Práticas Agronômicas em Culturas Bt para o Manejo da Resistência. Com base nisto, por meio da adoção dessas práticas a toda safra espera-se que a tecnologia Bt continue contribuindo para o manejo eficiente das principais pragas-alvo em cada cultura. 

O USO DE INSETICIDAS 
Somente para o controle de S. frugiperda no milho estão registrados junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) 192 produtos. Desses, tem-se: um feromônio, dois B. thuringiensis, um baculovírus e um parasitoide, um extrato de planta – Azadiractina. Os demais produtos pertencem a 47 princípios ativos comercializados sozinhos ou combinados entre si.

Figura 2 - Inseticidas registrados junto ao Mapa para o controle de Spodoptera frugiperda, num programa de manejo integrado de pragas em lavouras de milho no Brasil – *extraído http://agrofit.agricultura.gov.br


Existem várias alternativas para o controle de S. frugiperda em milho. No entanto, essa diversidade de produtos disponíveis não atende à demanda em qualidade e eficácia de controle nas principais regiões produtoras. Um levantamento realizado na região de Patos de Minas, Minas Gerais, em 2017 e no Mato Grosso, em 2018, mostrou que mesmo com essa variedade de produtos, muitos inseticidas sem registro vêm sendo utilizados para o controle de lagartas.
A principal dificuldade no controle S. frugiperda no milho com inseticidas (químicos ou biológicos) está na janela de aplicação. Como ocorre superposição de gerações, o fluxo de larvas pequenas, médias e grandes se superpõe e a efetividade desses produtos fica extremamente reduzida quando a lagarta se protege dentro do cartucho da planta. Neste caso, as larvas maiores que 1,5cm se alimentam no palmito do milho, parte da planta em franco crescimento e totalmente protegida de agentes externos. Além disso, as fezes, eliminadas pela lagarta, obstruem a entrada da galeria por onde o inseto penetrou, o que dificulta ainda mais o acesso dos agentes de controle.
No estado do Mato Grosso, nas lavouras de milho safrinha em 2018, S. frugiperda foi citada pelos produtores como a principal praga da cultura nos levantamentos realizados durante o Circuito Tecnológico Aprosoja/Embrapa. Nesse levantamento também se observou que os produtores têm realizado entre duas e três aplicações de inseticidas químicos mesmo com o plantio do milho Bt, e de três a quatro aplicações em milho não Bt. A eficiência do produto é citada pelos produtores como o fator mais importante na escolha, contudo, em muitos casos, a venda dos insumos aos produtores é fechada antes mesmo do plantio da safra e um calendário de aplicações ofertado. Entretanto, na adoção do MIP, tanto o monitoramento adequado como a tecnologia de aplicação dos agentes de controle são práticas ainda pouco dominadas pela maioria dos produtores.
A logística para tornar possíveis os tratamentos fitossanitários (herbicida, fungicida, inseticida) tem sido um dos principais gargalos da não observação dos preceitos do Manejo Integrado de Pragas (MIP). Nesse cenário,  vale voltar às premissas básicas do MIP, que são o custo e o nível de controle. Aplicações calendarizadas são antieconômicas, pois inviabilizam o controle biológico natural e não consideram o nível de infestação da praga. Além disso, expõem a população das pragas-alvo aos inseticidas e aceleram a seleção precoce de populações resistentesaos produtos, pois mais de 90% das lagartas recém-eclodidas serão eliminadas naturalmente. O uso equilibrado das estratégias de manejo integrado potencializa sua eficácia e aumenta sua vida útil, evitando aplicações crescentes para o controle de lagartas nos sistemas intensivos de produção. 

Simone Martins Mendes,
Embrapa Milho e Sorgo
Rosangela C. Marucci,
Universidade Federal de Lavras 
José Magid Waquil,
Universidade Federal de São João Del Rei

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  1. Página 4

    Em movimento

  2. Página 10

    Clima x Manejo

  3. Página 17

    Voltou para ficar

  4. Página 32

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  5. Página 36

    Duas em uma

  6. Página 40

    Peste laranja

  7. Página 44

    Como interagem

  8. Página 48

    Impacto no bolso

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