Manejo da traça-das-crucíferas

  • Página 40 |
  • Jun 2020 |
  • Clérison R. Perini, Natalia T. Schwab, Wanessa N. F. Vasconcelos, Laís F. Nicoletti, Lais Cherobini, Carolina F. Gonçalves, Gabriel A. Guedes e Jerson C. Guedes e Lucas Colpo

A traça-das-crucíferas, Plutella xylostella (Linnaeus, 1758) (Lepidoptera: Plutellidae), é a principal praga nas variedades de Brassica oleracea no Brasil e no mundo, pois causa danos em repolho, couve-de-folhas, couve-flor, brócolis, entre outras brassicáceas (antiga família das crucíferas). O dano causado pela traça-das-crucíferas deprecia o produto final comercializável, o que demanda um monitoramento rigoroso e, muitas vezes, uma bateria de aplicações de inseticidas para seu controle, gerando custos ao produtor e contaminação acima do limite permitido nos alimentos.

Embora o controle químico dessa praga seja importante em muitos casos para evitar os danos, a problemática da aplicação intensiva de inseticidas torna-se ainda maior, visto que grande parte da produção de hortaliças no Brasil, em torno de 60%, concentra-se em áreas próximas aos grandes centros consumidores, denominadas cinturões verdes, podendo ocorrer deriva para áreas não desejadas. Nesse sentido, o entendimento e a aplicação das bases do Manejo Integrado de Pragas (MIP) nas brassicáceas são fundamentais para evitar o uso abusivo de produtos químicos nesses alimentos.

Identificação, bioecologia e comportamento

A mariposa de P. xylostella é um microlepidóptero estreito e longo, com aproximadamente 1cm de comprimento e de coloração parda. Na margem posterior das asas anteriores, apresenta uma mancha de cor creme/clara que na posição de repouso forma uma mancha alongada no dorso dos adultos (Figura 1). Os adultos apresentam hábito noturno, ficando escondidos nas folhas durante o dia e saindo ao entardecer para se alimentar e, principalmente, para se reproduzir. As fêmeas depositam pequenos ovos amarelos ou esverdeados na face inferior das folhas, de forma isolada ou em grupos de três a cinco, e buscam locais com cavidades nas folhas para a oviposição.

Figura 1 - Ciclo de desenvolvimento da traça-das-crucíferas, Plutella xylostella
Figura 1 - Ciclo de desenvolvimento da traça-das-crucíferas, Plutella xylostella

Após três a quatro dias as larvas eclodem, apresentando coloração verde-claro, pelos escuros no corpo e cabeça parda e, quando completamente desenvolvidas, chegam a atingir em torno de 1cm de comprimento. Como característica comportamental, as larvas reagem com movimentos saltitantes quando são tocadas. O período de larva é bastante variável e dura em torno de seis a 14 dias, sendo considerado um período curto, porém ocasiona severos danos nas folhas das culturas. O ciclo de desenvolvimento das brássicas varia entre 80 e 150 dias, podendo perdurar até três anos, no caso da couve-de-folhas, o que proporciona a ocorrência de diversas gerações da traça-das-crucíferas, resultando em elevadas populações com sobreposição de fases (presença de ovos, larvas, pupas e adultos), inúmeras aplicações de inseticidas e falhas de controle. A pupa dura cerca de três dias e fica recoberta por um casulo. Apresenta cor esverdeada no início, passando a amarelo-palha e a marrom-escuro próximo à emergência do adulto. Normalmente, as larvas tecem o casulo na passagem para a fase de pupa em locais da planta que são mais protegidos do clima e do ataque de inimigos naturais, o que caracteriza um comportamento para a sobrevivência da espécie.

A ocorrência dessa praga é verificada o ano todo devido ao cultivo contínuo de brássicas para abastecer o mercado consumidor, com plantas em variados estágios de desenvolvimento em áreas de produção próximas, o que possibilita o crescimento e o desenvolvimento contínuo da traça-das-crucíferas. Entretanto, apresenta os maiores picos populacionais nos meses mais quentes e secos, no momento em que o ciclo de desenvolvimento é menor.

As mariposas não apresentam boa habilidade de voo a longas distâncias, mas utilizam-se das correntes de ar para migrar de uma região para outra, podendo percorrer mais de mil quilômetros. O sucesso desse inseto como praga no Brasil e no mundo deve-se, principalmente, à sua biologia, perfazendo vários ciclos durante o ano com o desenvolvimento de ovo-adulto variando de 11 a 22 dias. A duração do ciclo biológico depende principalmente das condições climáticas e da cultivar ou espécie de brássica. Além disso, as fêmeas podem ovipositar em torno de 150 a 360 ovos, o que lhes confere a capacidade de aumentar a densidade populacional rapidamente, podendo chegar a níveis incontroláveis pelo produtor.

Danos

O impacto da injúria das larvas de P. xylostella nas folhas de brássicas, como a couve-de-folhas e o repolho, traz grandes prejuízos ao produtor de hortaliças, pois as partes afetadas são as comercializadas. As larvas logo que eclodem penetram no interior da folha e constroem galerias com o consumo do parênquima. Quando maiores, alimentam-se também da epiderme da face inferior da folha e em elevada infestação as folhas ficam rendilhadas (Figura 2A). A maior perda, nesse caso, é em qualidade e consequentemente a não comercialização do produto, pois o consumidor dificilmente aceita adquirir alimentos com defeitos visuais, mesmo que esses defeitos sejam mínimos e não afetem as propriedades nutricionais do produto. De forma geral, os consumidores de brássicas e das demais hortaliças e frutas procuram alimentos livres de danos ocasionados por pragas, selecionando e descartando na gôndola aqueles que apresentam pequenas manchas, ranhuras ou falhas.

Figura 2 - Dano da traça-das-crucíferas em couve-de-folhas: A) folhas rendilhadas e B) larvas, ovos e pupas nas folhas em brotação
Figura 2 - Dano da traça-das-crucíferas em couve-de-folhas: A) folhas rendilhadas e B) larvas, ovos e pupas nas folhas em brotação

O ataque das larvas se estende desde o início do desenvolvimento das culturas e, muitas vezes, já na produção das mudas, até o momento da colheita. No repolho, a ocorrência e o não controle no início da formação da “cabeça” podem resultar em inúmeras pulverizações de inseticidas e, às vezes, perda comercial da planta. As larvas ficam protegidas dos inimigos naturais e dos inseticidas no interior da “cabeça” de repolho em desenvolvimento. Na couve-de-folhas, embora não forme uma “cabeça” compacta, as folhas em brotação ficam sobrepostas até se expandirem e abrigam larvas, ovos e pupas da traça-das-crucíferas (Figura 2B). Outro fator comportamental da traça-das-crucíferas, que aumenta as falhas e a dificuldade de controle, é a preferência pela permanência na face abaxial das folhas, impedindo que as gotas pulverizadas atinjam diretamente as larvas.

Monitoramento

O monitoramento frequente com a correta identificação e quantificação das fases da traça-das-crucíferas nas plantas é uma estratégia importante na tomada de decisão das medidas de controle. A inspeção dos cultivos de brássicas deve ser periódica, de uma a duas vezes na semana, de modo a verificar quaisquer ocorrências de pragas e focos iniciais de infestação. Recomenda-se percorrer o plantio em zigue-zague (Figura 3) e amostrar entre 30-50 plantas aleatórias do interior e da borda da lavoura, inspecionando as folhas (principalmente na face abaxial) (Figura 4A), o ponteiro e a “cabeça”, procurando por orifícios nas folhas (Figura 4B), larvas (Figura 4C), ovos e pupas de P. xylostella.

Figura 3 - Caminhamento em zigue-zague para o monitoramento em multicultivos de brássicas
Figura 3 - Caminhamento em zigue-zague para o monitoramento em multicultivos de brássicas
Figura 4 - Inspeção nos cultivos de brássicas (A), orifícios em folhas (B) e larvas (C)
Figura 4 - Inspeção nos cultivos de brássicas (A), orifícios em folhas (B) e larvas (C)

Outra forma de monitorar a presença da praga no plantio de brássicas é com o uso de armadilhas de feromônio sexual para capturar os adultos (Bio Plutella). A armadilha mais utilizada é a do tipo delta, com piso colante, onde as mariposas ficam presas e se observa o número de adultos capturados diariamente (Figura 5).

Quando a infestação atingir o Nível de Dano Econômico (NDE) deve ser adotada alguma medida de manejo. O NDE é variável entre as brássicas, considerando o potencial de dano da praga, o valor econômico da cultura e o custo do controle. De maneira simples e considerando apenas o dano da praga, em repolho, o controle deve ser iniciado quando encontrar seis furos nas quatro folhas centrais da “cabeça” ou quando for detectada a presenta de adultos na área com o monitoramento por armadilha. Para a cultura da couve-de-folhas o NDE fica em torno de 0,5 - três larvas por planta, dependendo do custo do controle e do valor de mercado da couve. Além disso, alguns produtores consideram o percentual de plantas atacadas que fica entre 5%, para a couve e o brócolis, e 20% para outras brássicas.

Controle

Uma das grandes dificuldades no controle da traça-das-crucíferas deve-se ao ciclo biológico curto, às várias gerações resultantes dos cultivos escalonados, aos sucessivos cultivos de brássicas durante todo o ano, e à elevada capacidade de desenvolver resistência aos inseticidas devido à pressão de seleção imposta com várias pulverizações, independentemente da presença da praga no campo. Esses fatores somados levam a falhas de controle. Portanto, torna-se imperiosa a realização de um monitoramento constante e eficaz e que se utilize de diferentes métodos de controle, considerando os culturais, biológicos e químicos, entre outros, a fim de assegurar sanidade das plantas.

O controle cultural pode ser realizado com o uso de mudas sadias e isentas de pragas; emprego de cultivares de ciclo curto direcionado ao escape dos picos populacionais nos meses quentes e secos; uso de cultivares mais resistentes ao ataque da traça-das-crucíferas; evitar o escalonamento de plantio e cultivar em áreas distantes, a fim de fazer um período de vazio sanitário entre cultivos e redução das infestações para as áreas vizinhas; uso de barreiras vegetais de porte alto (capim-elefante ou cana-de-açúcar) nas bordas da lavoura; rotação com culturas não hospedeiras e destruição dos restos culturais; manejo adequado da fertilidade do solo; uso de plantio direto e irrigação por aspersão que pode ser efetuada durante a noite para reduzir o acasalamento ou durante o dia para a remoção dos ovos de P. xylostella depositados na planta durante a noite (período chuvoso acaba reduzindo naturalmente a infestação).

O controle biológico pode ocorrer com a população natural de parasitoides e predadores sobreviventes das aplicações de inseticidas seletivos ou de ambientes de cultivo orgânico; com o uso de produtos formulados à base de entomopatógenos, como a bactéria Bacillus thuringiensis e fungos (Beauveria bassiana), e com a liberação de parasitoide de ovos (Trichogramma sp.). O controle biológico de P. xylostella é fundamental nas áreas de cultivo orgânico de brassicáceas, que resulta em produtos mais limpos e na valorização do produto final, pois esses produtos não contêm agroquímicos em sua constituição.

Figura 5 - Monitoramento de adultos da traça-dascrucíferas com armadilha de feromônio sexual
Figura 5 - Monitoramento de adultos da traça-dascrucíferas com armadilha de feromônio sexual

Além desses, o controle químico é o método mais utilizado, sendo realizadas até quatro aplicações semanais, dependendo do nível de infestação de P. xylostella. Recomenda-se a aplicação racional de inseticidas seletivos registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e o respeito ao período de carência de cada produto, que é o período compreendido entre a aplicação e a colheita. Esse período é extremamente importante e deve ser seguido rigorosamente, especialmente, para a couve-de-folhas, que tem as folhas coletadas constantemente para venda e consumo. A rotação de ingredientes ativos com diferentes modos de ação é fundamental para retardar ou evitar o aparecimento de populações resistentes (incluir na rotação inseticidas biológicos) e a perda precoce do ingrediente ativo.

Com relação à pulverização de produtos formulados, sejam esses químicos ou biológicos, a tecnologia de aplicação é fundamental para o melhor controle dessa praga nas culturas de brássicas. Devido à cerosidade das folhas de brássicas é recomendável sempre adicionar adjuvantes juntamente aos inseticidas para aumentar a área de cobertura e a aderência dos produtos nas folhas. Além disso, o volume de calda utilizado para pulverização é bastante elevado para aumentar o molhamento foliar, podendo variar entre 600 e mil litros/hectare, sendo muitas vezes realizada uma pulverização dirigida na linha de cultivo.

Portanto, o sucesso do controle da traça-das-crucíferas nos cultivos de brássicas está relacionado com a implantação de estratégias de manejo, como o monitoramento rigoroso e frequente para detectar o início da infestação da praga e o posterior posicionamento dos métodos de controle, sejam esses químicos, biológicos ou, também, os métodos culturais, que são realizados diariamente na propriedade. Nesse sentido, o produtor consegue entregar, ao consumidor, produtos livres de pragas e sem resíduos de agroquímicos, resultando em maior valorização do produto final.

Clérison R. Perini,
Natalia T. Schwab,
Wanessa N. F. Vasconcelos,
Laís F. Nicoletti,
Lais Cherobini,
Carolina F. Gonçalves,
Gabriel A. Guedes e
Jerson C. Guedes,
Univ. Fed. de Santa Maria - LabMIP e GrupHort
Lucas Colpo,
Técnico Agrícola

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