Manejo integrado de pragas da oliveira

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  • Dez 2019 |
  • ​Tiago Scheunemann e Daniel Bernardi, Universidade Federal de Pelotas; Dori Edson Nava, Embrapa Clima Temperado

Atualmente, a área de produção de oliveiras do Brasil abrange aproximadamente cinco mil hectares, sendo os estados do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina os principais produtores. Estima-se que o cultivo deve continuar aumentando, uma vez que o Brasil é um dos principais importadores de azeite e de azeitona do mundo.

O crescimento da área de produção vem acompanhado pelo aumento dos problemas fitossanitários. No Rio Grande do Sul os olivais têm sido infestados por artrópodes-praga, destacando-se a lagarta-da-oliveira, a cochonilha-negra e o microácaro da oliveira. A ocorrência dessas pragas nos olivais, dependendo da região e do ano, pode comprometer a produtividade. Para a integralização das estratégias de manejo, o primeiro passo é realizar a identificação correta do agente causal.

Lagarta-da-oliveira

Conhecida por Palpita forficifera Munroe, 1959 (Lepidoptera: Crambidae) (Figura 1) é considerado o principal inseto-praga nos olivais brasileiros. Trata-se de uma mariposa que passa por quatro fases de desenvolvimento (ovo, lagarta, pupa e adulto) (Figura 2). O ciclo biológico (ovo a adulto) da lagarta-da-oliveira é de aproximadamente 56 dias, na temperatura de 25ºC, podendo ter até cinco gerações anuais.

Os danos provocados pelas lagartas começam durante a fase vegetativa, principalmente em folhas novas (ponteiros). Nos pomares, os adultos são primeiramente observados no mês de outubro. Por consequência, iniciam-se as primeiras infestações nas plantas. De acordo com observações de campo, os maiores danos/perdas ocasionados por este inseto se dão durante o período de novembro a março. As lagartas neonatas (lagartas de 1º instar) se mantêm aderidas às folhas novas e nas gemas vegetativas após a eclosão, sendo que, durante o 4º e 5º instares larvais, constroem o abrigo entre folhas, excrementos e fios de seda (Figura 3).

Os danos ocorrem primeiramente nas folhas novas mediante a raspagem pelas lagartas de primeiro instar. Contudo, com o desenvolvimento larval, os danos são caracterizados em folhas maduras (velhas), flores e frutos. Quando os danos são observados nessas estruturas, é um indicativo de elevada infestação da praga no pomar. Além de ocasionar danos no ano em todo o pomar, a infestação de P. forficifera, quando mal manejada, pode ocasionar perdas para a safra do ano seguinte. Este fato ocorre pois as oliveiras produzem em ramos de ano. Em densidades populacionais maiores, podem atacar os frutos, inviabilizando a industrialização.

Nos pomares, o aumento populacional de P. forficifera ocorre em parte devido à oferta de ramos ladrões nas plantas, que propiciam alimento e local de refúgio às lagartas. Frente a este comportamento, a realização do manejo de poda é fundamental para auxiliar na diminuição da densidade populacional da praga no campo e diminuir as perdas ocasionadas pelas lagarta-da-oliveira.    

Cochonilha-negra da oliveira

Conhecida por Saissetia oleae (Olivier, 1791) (Hemiptera: Coccidae), é uma cochonilha cujas fêmeas adultas apresentam carapaça dura de coloração preta ou marrom, sendo que na sua fase imatura, possui uma elevação na carapaça em forma de H. Aliado a isso, os machos são de difícil visualização, pelo fato de serem insetos diminutos, alados e muito frágeis. Normalmente, morrem logo após a cópula, sendo que grande parte da reprodução ocorre por partenogênese.

Em baixa densidade o dano da cochonilha ocorre devido à sucção de seiva, não ocasionando efeitos negativos na produtividade. Entretanto, em altas populações, pode ocorrer a presença de um fungo, conhecido como fumagina, que ocorre a partir da excreção do honeydew pelas cochonilhas no momento da alimentação. A presença deste fungo deixa folhas, ramos e frutos com uma coloração escura, que de acordo com a infestação podem reduzir área fotossintética da planta e, consequentemente, a produtividade final (Figura 4).

A cochonilha-negra tem preferência por ambientes com alta umidade, concentrando-se nas partes média e baixa da árvore e na parte abaxial das folhas (Figura 5). Alta umidade e temperaturas moderadas favorecem o desenvolvimento e a sobrevivência da cochonilha-negra nos pomares. Neste sentido, pomares que têm grande sombreamento de copa e um adensamento de ramos favorecem o desenvolvimento de S. oleae. Da mesma forma, o excesso de adubação nitrogenada no pomar favorece a ocorrência e a multiplicação da praga.

Microácaro da oliveira

Conhecido como Oxycenus maxwelli (Keifer, 1939) (Acari: Eriophyidae), apresenta formato vermiforme achatado, com anéis mediando de 0,1mm de comprimento a 0,35mm de comprimento. Na parte frontal do corpo, a espécie tem apenas dois pares de pernas, apresentando coloração âmbar, branco e laranja (Figura 6).

A época de maior infestação do ácaro nos pomares ocorre durante a primavera e o outono. Nestas estações, provocam os maiores danos e sempre se localizam dentro do tecido foliar. Mediante este comportamento, as plantas ficam enfraquecidas, proporcionando o enrolamento de folhas nas regiões atacadas e diminuição da área fotossintética. Assim, ocorre a queda prematura das folhas. Essa fase de desenvolvimento do ácaro coincide com a emissão das brotações da oliveira, sendo este material vegetal preferido para a alimentação dos indivíduos, devido à maciez das folhas. O ácaro O. maxwelli pode infestar folhas presentes em toda a planta, contudo, encontra-se mais facilmente na parte superior das folhas. Embora em altas infestações possa ser encontrado também na parte inferior das folhas jovens (Figura 7).

Folhas de oliveira com infestação de O. maxwelli apresentam distúrbios fisiológicos, o que favorece o abortamento de gemas em mudas e árvores novas. Este fato resulta no atraso do crescimento e acelera a deformação das plantas. Durante o período de floração, os danos podem ser observados também em plantas adultas (folhas) e nos frutos. O dano observado em frutos de oliveira é reflexo que ocorreu infestações durante a fase de floração. Os danos nos frutos devido à ocorrência do ácaro apresentam protuberância e depressões na superfície da casca de forma variável. Estes aspectos visuais prejudicam a comercialização, especialmente quando são destinados para azeitona de mesa.

Formigas cortadeiras

As principais espécies de formigas saúvas (Atta spp.) e quenquéns (Acromyrmex spp.) causam grande prejuízo em plantas jovens de oliveira e as que estão em desenvolvimento. Os danos são caracterizados pelo corte das folhas, o que proporciona o desfolhamento parcial ou até mesmo total das plantas. Em altas infestações, pode causar a morte ou deformações de plantas jovens, impedindo uma boa formação das plantas e comprometendo a implantação do pomar. Desta forma, deve-se ter cuidado na hora da implantação do pomar para eliminar os ninhos presentes nas áreas. Assim como realizar o monitoramento semanal da área principalmente nos cinco primeiros anos de instalação do cultivo.

Manejo de pragas em olivais

Para um bom manejo dos artrópodes-praga nos pomares de oliveira é aconselhável a realização do planejamento do plantio, para que no momento da implantação e na adoção do sistema de condução do pomar, seja permitida uma boa entrada de luminosidade e circulação do ar na copa das árvores. A aplicação correta de fertilizantes químicos implica diretamente no bom desenvolvimento das plantas com melhores condições de evitar danos causados pelas pragas. Um exemplo é o uso correto da dosagem nitrogenada para evitar possíveis surtos de lagartas-da-oliveira, ácaros e cochonilhas. Da mesma forma, práticas de poda devem ser realizadas para possibilitar uma adequada iluminação e circulação de ar na copa, além de servir para retirar ramos e folhas infestadas. Contudo, vale ressaltar que o ponto principal para se adotar um manejo adequado é a identificação correta das espécies de insetos e ácaros que causam danos na cultura.

Atualmente, no Brasil, apenas o inseticida Delegate, do grupo químico das espinosinas (espinetoram), está registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para o controle de Palpita unionalis, espécie que até então não tem sido identificada no País. Já no caso da cochonilha-negra e do microácaro da oliveira, não se tem nenhum produto registrado no Mapa (Agrofit, 2019). As formigas cortadeiras devem ser controladas antes do estabelecimento dos pomares e durante os primeiros anos, utilizando iscas tóxicas e formicidas em pó.

No atual cenário da produção agrícola, buscam-se formas de produção e manejo de pragas que preconizam a agricultura sustentável, através das táticas de manejo que sejam assertivas, menos agressivas ao ambiente e que mantenham o equilíbrio da fauna presente na área. Aliado a isso, o MIP vem se tornando uma ferramenta cada vez mais importante na tomada de decisão na agricultura. Uma das principais estratégias de MIP é aliar táticas de manejo que atuam de forma racional e eficiente, mas mantendo o equilíbrio no ecossistema agrícola. Nesta dinâmica agroecológica existem vários insetos benéficos que contribuem na manutenção de insetos-praga, que são chamados de agentes de controle biológico, pois auxiliam positivamente no equilíbrio das espécies e desta forma devem ser preservados nos olivais. 

Figura 1 - Adulto de Palpita forficifera
Figura 1 - Adulto de Palpita forficifera.
Figura 2 - Fases do ciclo biológico de Palpita forficifera com as respectivas durações (dias) de cada fase
Figura 2 - Fases do ciclo biológico de Palpita forficifera com as respectivas durações (dias) de cada fase.
Figura 3 - Danos causados em brotações de oliveira pela lagarta-da-oliveira
Figura 3 - Danos causados em brotações de oliveira pela lagarta-da-oliveira.
Figura 4 - Ramo de oliveira com cochonilha-negra e folhas e ramos de oliveira com a presença de fumagina
Figura 4 - Ramo de oliveira com cochonilha-negra e folhas e ramos de oliveira com a presença de fumagina.
Figura 5 - Cochonilha-negra na parte abaxial da folha de oliveira
Figura 5 - Cochonilha-negra na parte abaxial da folha de oliveira.
Figura 6 - Oxycenus maxwelli (foto microscópica com aumento de 100x)
Figura 6 - Oxycenus maxwelli (foto microscópica com aumento de 100x).
Figura 7 - Ramo de oliveira cujas bordas das folhas estão retorcidas devido ao ataque de Oxycenus maxwelli
Figura 7 - Ramo de oliveira cujas bordas das folhas estão retorcidas devido ao ataque de Oxycenus maxwelli.


Tiago Scheunemann e Daniel Bernardi, Universidade Federal de Pelotas; Dori Edson Nava, Embrapa Clima Temperado


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