Manejo reforçado

  • Página 14 |
  • Out 2019 |
  • Clara B. Hoffmann-Campo, Carlos A. Arrabal Arias, Beatriz S. Corrêa-Ferreira, Divânia de Lima, Irineu Lorini, Carlos Lásaro P. de Melo, Embrapa Soja

No caso das pragas da soja, os percevejos se destacam pelo potencial de danos causados diretamente nos grãos. Na fase de enchimento, esses insetos inserem seu estilete e liberaram saliva contendo enzimas digestivas para facilitar sua alimentação. Além dos danos diretos, os percevejos provocam aqueles indiretos causados por patógenos que colonizam os grãos através das aberturas no local das picadas. Dentre as espécies de percevejos de maior importância para a soja, destaca-se o percevejo-marrom Euschistus heros, pelas populações elevadas, entretanto, outras espécies como o percevejo-verde-pequeno Piezodorus guildinii, o percevejo-barriga-verde Dichelops melacanthus e o percevejo-verde, Nezara viridula compõem o complexo de insetos sugadores de grãos. Em lavouras severamente atacadas, os danos diretos podem ser observados pelo abortamento de vagens ou a formação de vagens com grãos menores e malformados (enrugados e chochos). Quando as lavouras são destinadas a sementes, têm sua qualidade fisiológica reduzida (menor germinação e vigor). Por outro lado, os danos indiretos, em função da presença de patógenos, causam apodrecimento das sementes e vagens, atraso na maturação e aumento na ocorrência de retenção foliar, provocando problemas para a colheita, reduzindo a produtividade e a qualidade de grãos. A maioria desses “defeitos” nos grãos é detectada nos locais de recebimento, provocando descontos variáveis para o agricultor.

O controle químico tem sido o método mais comum utilizado pelos agricultores para o manejo dos percevejos-pragas da soja, mas a perda da eficácia dos inseticidas utilizados tem levado à ocorrência de níveis populacionais acima do de controle, que é de dois insetos (adultos ou ninfas maiores que 0,5cm) por metro de soja. Na maioria das vezes, essa tática de controle é utilizada sem o devido diagnóstico, realizado pelas amostragens dos níveis populacionais desses insetos nas lavouras, levando à antecipação e ao crescimento no número de aplicações de inseticidas, que culminam com o aumento no custo de produção. Além disso, o restrito número de moléculas eficientes para o controle de percevejos e a exposição contínua dessas populações aos mesmos inseticidas têm promovido a seleção de indivíduos resistentes principalmente para o percevejo-marrom, reduzindo a eficiência desta ferramenta para o manejo adequado das populações dos insetos. Por isso, outras ferramentas, além do controle químico, serão extremamente importantes para evitar maiores perdas quantitativas e qualitativas. Assim, a tecnologia Block, presente em algumas novas cultivares da Embrapa, está sendo oferecida nesta safra (2019/20) para facilitar o manejo do complexo de percevejos e reduzir seus impactos negativos nos rendimentos das lavouras de soja.

Lavoura de soja com sintomas de haste verde e retenção foliar provocados pelo ataque de percevejos, Florínea, SP, safra 2018/19
Lavoura de soja com sintomas de haste verde e retenção foliar provocados pelo ataque de percevejos, Florínea, SP, safra 2018/19.
Flutuação populacional de percevejos em cultivares de soja no município de Florínea, SP, na safra 2018/19. As setas indicam o momento das aplicações de inseticidas segundo o nível crítico (NC = 4 percevejos / m) para cada cultivar.
Flutuação populacional de percevejos em cultivares de soja no município de Florínea, SP, na safra 2018/19. As setas indicam o momento das aplicações de inseticidas segundo o nível crítico (NC = 4 percevejos / m) para cada cultivar.

Tecnologia Block e o manejo dos percevejos-pragas

A tecnologia Block, desenvolvida pela Embrapa, corresponde às novas cultivares de soja com características genéticas que conferem maior tolerância ao ataque de percevejos com densidades populacionais maiores que o nível de controle, as quais têm recorrentemente ocorrido em determinadas regiões mesmo com a aplicação dos inseticidas recomendados. Dessa forma, uma cultivar com o selo da tecnologia Block, atacada por populações de percevejos acima do nível de controle, sofrerá menos impacto, tanto na produtividade como na qualidade dos grãos produzidos, quando comparada a uma outra de ciclo semelhante submetida ao mesmo ataque da praga. Assim, o agricultor poderá realizar com mais tranquilidade o diagnóstico dos níveis populacionais de percevejos, através do pano de batida, para tomar uma decisão mais segura e racional sobre a aplicação ou não do controle químico dentro dos preceitos do manejo integrado de pragas (MIP-Soja). Espera-se, com isso, evitar aplicações desnecessárias com inseticidas, reduzir as perdas de produtividade assim como os descontos na comercialização decorrentes dos danos diretos e indiretos provocados pelos percevejos.

A tolerância genética de uma cultivar é a ferramenta de manejo de pragas mais simples e barata para os agricultores, pois reduz os custos de produção, traz benefícios ambientais e interage positivamente com as demais estratégias de controle. Essa tecnologia, por não ser transgênica, pode estar presente tanto em cultivares convencionais como nas derivadas das diversas plataformas transgênicas. Duas cultivares já foram registradas com a tecnologia. Uma delas é a BRS 1003IPRO que já está sendo comercializada e, além da tecnologia Block, conta com a tecnologia Intacta para o controle de lagartas, o que pode facilitar ainda mais o manejo de pragas pela presença mais abundante de inimigos naturais resultante da redução de aplicações com inseticidas para as lagartas nas fases iniciais de desenvolvimento da soja.

A cultivar BRS 1003IPRO possui grupo de maturidade (GM) de 6.3, tipo de crescimento indeterminado, tem ampla adaptação de indicação atendendo as macrorregiões sojícolas 1, 2, 3 e 4, cobrindo os estados de Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, São Paulo, Goiás e Minas Gerais. É resistente às principais doenças da soja (mancha olho-de-rã, cancro da haste, pústula bacteriana e podridão radicular de fitóftora), além de ter moderada resistência ao nematoide de galha Meloidogyne javanica. Apresenta excelente performance produtiva nas diversas regiões, com o diferencial de tolerância aos ataques por percevejos. A outra cultivar Block é a BRS 391 não transgênica (GM = 6.4), tipo de crescimento determinado, com adaptação para Oeste,  Norte e Noroeste do Paraná, Médio Paranapanema e Sudoeste de São Paulo e Sul, Centro-Sul e Sudoeste do Mato Grosso do Sul, com teores médios de 20,7% de óleo e 39,3% de proteína, resistente às principais doenças da soja e aos nematoides de galhas (M. javanica e M. incognita), cujo comportamento em presença de diferentes níveis populacionais de percevejos já foi demonstrado em diversas publicações, inclusive em edição anterior da Revista Cultivar.

Para demonstrar um pouco mais dos benefícios da tecnologia Block em áreas de produtor, uma nova cultivar, a BRS 543RR já registrada e em pré-lançamento, e uma linhagem convencional, a BRI13 5301, em fase de registro e validação, foram cultivadas na safra 2018/19 em lavouras de validação do tipo lado a lado. A BRS 543RR é uma cultivar transgênica (GM = 6.0), com tolerância ao glifosato, que está sendo lançada na safra 2019/20. Tem indicação de semeadura para toda a macrorregião 2, incluindo os estados do Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, com resistência às principais doenças da soja. Na rede de avaliação do mérito para lançamento da cultivar, em mais de 20 ambientes de teste na região de indicação, essa apresentou alta performance produtiva comparada aos padrões de mercado com ciclo semelhantes, superando em até 2% a média de produtividade desses padrões. O comportamento produtivo da BRS 543RR reforça a filosofia do programa de melhoramento da Embrapa, em ofertar cultivares de soja Block, mas que também sejam produtivas e estáveis nas regiões de indicação. A linhagem BRI13-5301 é convencional (GM = 5.7) e encontra-se em fase de validação em áreas de produtores para possível lançamento na safra 2020/21. Já demonstrou possuir alto potencial produtivo, além de resistência às principais doenças da cultura.

Nas lavouras de validação, esses genótipos foram semeados junto com padrões de mesmo ciclo, em parcelões de um hectare de cada material, em diferentes localidades sob diferentes níveis de ataque dos percevejos-pragas da cultura. Nessas localidades, as populações de percevejos foram monitoradas com o pano de batida e o controle químico foi realizado quando a densidade populacional de percevejos atingiu o nível de quatro percevejos por metro, portanto o dobro do nível de ação usado em lavouras comerciais. De todas as áreas, por ocasião da colheita, foram tomadas amostras dos grãos produzidos de cada material para classificação comercial segundo os critérios definidos na Instrução Normativa Nº 11 do Mapa, de 15 de maio de 2007. Na validação realizada em Florínea, São Paulo, a população de percevejos foi maior em relação às demais localidades e servirá para ilustrar os benefícios da tecnologia.

Linhagem BRI13-5301 em Florínea, SP, safra 2018/19
Linhagem BRI13-5301 em Florínea, SP, safra 2018/19.
Cultivar BRS 543RR, em Florínea, SP, safra 2018/19
Cultivar BRS 543RR, em Florínea, SP, safra 2018/19.

Validação em Florínea

Na validação realizada em Florínea, na safra 2018/19, participaram os dois genótipos Block BRS 543RR e BRI13-5301 e seus respectivos padrões, BRS 433RR e 96Y90. A semeadura ocorreu em 16/10/2018 e a colheita em 8/2/2019, sendo que os genótipos BRI13-5301 e BRS 433RR apresentaram ciclos mais precoces que BRS 543RR e 96Y90. Apesar da ocorrência de diversos veranicos nessa safra, o que não permitiu toda a expressão do potencial produtivo dos genótipos, o rendimento de grãos observado na BRI13-5301 (3.226kg/ha) foi superior ao da BRS 433RR (2.589kg/ha), assim como o da BRS 543RR (2.545kg/ha) foi superior ao da 96Y90 (2.287kg/ha) para o ambiente de Florínea, reforçando a ideia de que as cultivares Block precisam ter potencial produtivo igual ou superior aos padrões de mesmo ciclo.

A população de percevejos na BRI13-5301 não atingiu o nível de controle (NC = 4 percevejos/m), enquanto no padrão BRS 433RR, ultrapassou o NC e recebeu uma aplicação de inseticida. A cultivar mais tardia BRS 543RR teve nível de mais de 11 percevejos/m (quase três vezes o NC), enquanto seu padrão 96Y90 apresentou nível acima de oito percevejos/m e ambas receberam uma aplicação do inseticida.

Comparando-se as duas cultivares mais precoces, na Tabela 1 observa-se que a BRI13-5301 apresentou desconto por percevejo bem próximo à BRS 433RR (1,9% e 1,4%, respectivamente), mesmo sem receber o controle químico. Com isso, estimavam-se valores muito próximos no percentual total de grãos avariados, no entanto, a BRI13-5301 fechou o ciclo com menor desconto de avariados em relação à BRS 433RR (13,3% contra 18,9%), principalmente em função do menor percentual de grãos imaturos (6,2% na BRI13-5301 contra 13,2% na BRS 433RR). Outra diferença importante entre os genótipos ocorreu para grãos esverdeados (2,5% na BRI13-5301 contra 15,4% na BRS 433RR). A diferença nos imaturos deve estar parcialmente relacionada ao ataque de percevejos, mas também pode ser decorrente dos estresses abióticos frequentes na safra, sendo muito difícil estabelecer relações de causa e efeito em condição de lavoura. Ao final, o mais importante a ser ressaltado é que a BRI13 5301, sem aplicação de inseticida, não sofreu desconto adicional em sua comercialização (5,3% na BRI13-5301 contra 18,3% na BRS 433RR) e manteve a qualidade dos grãos produzidos, inclusive com menores perdas quantitativas, pois terá 13% a menos no desconto.

Por outro lado, a cultivar mais tardia BRS 543RR apresentou desconto por percevejos igual ao seu padrão 96Y90 (2,7%), mesmo sendo atacada por maior número de percevejos. Porém, a BRS 543RR produziu grãos com menor percentual de avariados (13,1%) que o padrão 96Y90 (20%), principalmente em função do menor percentual de grãos fermentados (2,7% e 5,8%) e imaturos (6,9% e 11,5%, respectivamente). Parte desses grãos fermentados e imaturos deve ser consequência de danos por percevejos, mas não se pode descartar outras causas, especialmente algum estresse abiótico. Pelo comparativo desses dois genótipos mais tardios, pode-se novamente verificar que a cultivar tolerante BRS 543RR apresentou menores descontos tanto nos avariados totais como no desconto final, cuja diferença chega a 8,5% (13,6% - 5,1%) a favor da cultivar Block.

Esses dois genótipos com a tecnologia Block também permitem semeaduras antecipadas em suas regiões de indicação, pois ambas possuem tipo de crescimento indeterminado, o que também pode e deve ser utilizado para facilitar ainda mais o manejo do complexo de percevejos nas áreas comerciais. A soja semeada antecipadamente pode passar boa parte do seu desenvolvimento sem a presença de altos níveis populacionais de percevejos, reduzindo ainda mais a necessidade do controle químico. 

Considerações finais

Esses resultados corroboram os obtidos em anos anteriores tanto em áreas de validação quanto experimentais, onde genótipos com a tecnologia Block toleraram maiores níveis populacionais de percevejos em comparação a outras cultivares comerciais. As cultivares Block, por sofrerem menos danos por percevejos, trarão mais segurança à tomada de decisão sobre o controle químico, o que, certamente, irá evitar aplicações desnecessárias de inseticidas. Apesar disso, ressalta-se que não é indicado aumento do nível de controle para tomada de decisão sobre o controle químico, que continua sendo de dois percevejos (adultos ou ninfas maiores que 0,5cm) por metro de soja, não trazendo indicações específicas para essa tecnologia. Esse posicionamento da tecnologia Block com relação ao nível de controle também se deve à frequente ineficácia dos inseticidas químicos atualmente disponíveis para o manejo dos percevejos e à ocorrência de densidades populacionais elevadas do inseto, mesmo com o atual nível de controle (dois percevejos/m). Espera-se que essa tecnologia seja um incentivo aos produtores para que intensifiquem o monitoramento das populações de percevejos com o pano de batida, possibilitando a tomada de decisão mais segura dentro dos preceitos do manejo integrado de pragas da soja (MIP-Soja).

Clara B. Hoffmann-Campo, Carlos A. Arrabal Arias, Beatriz S. Corrêa-Ferreira, Divânia de Lima, Irineu Lorini, Carlos Lásaro P. de Melo, Embrapa Soja 

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