Medidas eficientes para manejo da requeima em batata

  • Página 22 |
  • Dez 2019 |
  • João Pedro Elias Gondim, Universidade Federal de Lavras; José Feliciano Bernardes Neto, Juliano Henrique Alves de Sousa Carvalho e Rodrigo Vieira da Silva, IF Goiano Campus Morrinhos

No Brasil, a batata é a principal hortaliça cultivada do ponto de vista econômico. Atualmente, a área plantada alcança aproximadamente 120 mil hectares, com produção de 3,7 milhões de toneladas (IBGE, 2017). A produção poderia ser ainda maior, não fossem os prejuízos provocados pelos micro-organismos causadores de doenças.

Para o manejo de doenças na cultura da batata é importante considerar três fatores básicos, conhecidos como o triângulo da doença. O primeiro deles é o hospedeiro (cultivar da hortaliça que está sendo plantada). O segundo, ambiente, se refere às condições edafoclimáticas, constantemente ideais para o desenvolvimento de doenças e epidemias. O terceiro vértice do triângulo é o patógeno, que deve ser virulento e presente em grandes quantidades no ambiente.

A principal doença da batata é o míldio, mais conhecida como mela ou requeima. Possui tamanha importância que destruiu milhares de hectares de batata, na década de 1940, provocando fome e morte de milhões de pessoas em todo o continente europeu. No Brasil, as quantidades de defensivos utilizados para o controle deste patógeno são extremamente elevadas, devido ao fato de que as pulverizações são realizadas por meio de calendário fixo, desconsiderando os fatores ecológicos que afetam a interação entre este oomiceto e a batateira, principalmente as condições ambientais.

Desenvolvimento da doença no campo

O agente causal da requeima é o oomiceto Phythophthora infestans, que ao contrário dos chamados fungos verdadeiros, produz micélio cenocítico (sem septos) hialino e esporângios hialinos liminiformes, estas últimas formadas sob condições de alta umidade relativa, acima de 90%, e temperaturas amenas entre 18ºC e 22°C, que por sua vez formam os zoósporos biflagelados, em temperaturas mais baixas (com temperatura ótima de 12°C). Estas estruturas são as unidades assexuadas do oomiceto que causarão surtos epidêmicos. Portanto, em regiões de clima ameno, as epidemias são geralmente mais severas. Ainda assim, pode ocorrer a germinação direta de esporângios em regiões de clima antes considerado desfavorável ao desenvolvimento da doença, provocando surtos epidêmicos. A principal forma de disseminação do patógeno ocorre pelo vento, mas pode se dar também por meio de água, insetos, mudas e tubérculos contaminados. Em presença de água na superfície foliar, os zoósporos se dispersam rapidamente para vários pontos da folha, provocando o surgimento de diversos sítios de infecção. Noites com temperaturas amenas (16ºC – 20°C) e umidade relativa na faixa de 90% – 100% são ideais para o desenvolvimento da requeima, pois são fatores-chave para a infecção e esporulação do patógeno. O ciclo de vida do patógeno se completa entre quatro e cinco dias. Em temperaturas acima de 30°C a doença não se desenvolve, mas o patógeno permanece nos tecidos do hospedeiro, e quando as condições voltam a ser favoráveis os ciclos de infecção recomeçam.

Prejuízos da requeima à produção de batata

Em condições favoráveis, P. infenstans pode destruir completamente uma lavoura em poucos dias, devido à destruição da folhagem. Os esporos deste patógeno, que são as células reprodutivas, aderem em minutos à superfície da planta e em menos de três horas penetram nos órgãos da parte aérea. Após três a quatro dias os sintomas já são visíveis. O fungo sobrevive por muito tempo na batata-semente e ocorre também a disseminação pelo vento que o transporta para novos locais.

Em áreas com alto nível de infecção e controle ineficiente, os prejuízos podem chegar em 100%.

Nos últimos anos ocorreu o aparecimento de novas raças ainda mais agressivas do patógeno e, consequentemente, a demanda de uma maior quantidade de aplicação de agroquímicos. Estima-se que os prejuízos causados por essa doença em todo o mundo ultrapassem os 8 bilhões de dólares. Algumas estimativas indicam que no Brasil mais de 20% do custo de produção é direcionado para o controle da requeima da batata.

Sintomas da requeima na batateira

O oomiceto sobrevive no campo por meio de restos culturais infectados de safras anteriores ou através do material propagativo contaminado. Geralmente, antes de generalizar-se, a doença surge na lavoura por meio de focos isolados, podendo ser propagada rapidamente por toda a planta, contaminando tubérculos, caules, folhas e pecíolos, até matar a planta por completo em um curto período de tempo. Nas folhas, as lesões se iniciam aquosas no limbo foliar com rápido crescimento, e em pouco tempo provocam a necrose, apresentando bordos de tonalidade verde mais clara se comparada com os tecidos sadios. Em condições de alta umidade pode ocorrer a formação das estruturas do patógeno, geralmente na face abaxial das folhas. Sob condições de surtos epidêmicos, as lesões coalescem, destruindo as folhas de forma rápida, dando-lhes aspecto de queimada, o que originou o nome característico da doença.

Como manejar

Em função da agressividade deste micro-organismo, o manejo eficiente da doença requer o uso constante de fungicidas (Tabela 1), tanto protetores quanto sistêmicos, principalmente de forma preventiva, pois a requeima é uma doença muito destrutiva. A aplicação após o aparecimento dos sintomas pode ser inviável econômica e ambientalmente. Portanto, a pulverização de defensivos para o controle da requeima deve ser criteriosa e sempre com o auxílio de um profissional especializado.

Dentre as práticas culturais é recomendável evitar o plantio em solos contaminados pelo fungo, em áreas de baixada e expostos à ocorrência frequente de neblina por períodos prolongados. Evitar também o plantio em solos onde não há boa drenagem e a forma escalonada, ou seja, não implementar novas lavouras próximas de velhas, bem como abandonadas.

Para desfavorecer o fungo, o ideal, se possível, é o plantio em épocas mais quentes com menor volume de chuva. A irrigação deve ser preferencialmente por gotejamento e a incorporação de restos vegetais após a última colheita é essencial para reduzir fontes de inóculo. Para casos mais severos recomenda-se também a rotação de culturas por dois anos com gramíneas ou plantas que não sejam hospedeiras do fungo. Quando as condições do ambiente são favoráveis ao progresso da doença recomendam-se aplicações periódicas de fungicidas de contato registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para a cultura.

O período de proteção pode chegar a até oito dias, porém são sujeitos à remoção pela chuva e/ou irrigação. Portanto, após a detecção dos primeiros sintomas da doença no campo, é recomendável a aplicação de fungicidas sistêmicos, também registrados no Mapa para a cultura, que oferecerão proteção por até 14 dias. A aplicação de fungicidas deve ocorrer de forma sequenciada, ou seja, primeiro a aplicação dos produtos de contato a partir da emergência, com posterior aplicação dos produtos sistêmicos no crescimento vegetativo e frutificação da cultura. É de fundamental importância alternar os ingredientes ativos e modos de ação, a fim de evitar a pressão de seleção de patógenos resistentes, visto que P. infestans apresenta alta variabilidade genética.

Para a cultura da batata existem algumas cultivares com bom nível de resistência à requeima, como Araucária, BRS Clara, BRS Cristal, Catucha, Ibituaçu, Itararé, Pérola, IAPAR Cristina, Monte Alegre 172 e SCS 365. Entretanto, a utilização apenas do controle genético não é suficiente, principalmente quando as condições ambientais são favoráveis à doença. Assim, deve-se adotar e integrar as práticas culturais e a aplicação de fungicidas à utilização de cultivares resistentes ou tolerantes. As práticas culturais para o manejo da requeima na batata se assemelham às do tomate. Porém, para a batata tem-se desenvolvido sistemas de previsão e aviso da doença em muitas regiões que são produtoras, de modo a facilitar e reduzir número de aplicações de fungicidas. Esses sistemas preveem a possibilidade de desenvolvimento da requeima a partir de dados de temperatura, umidade e chuva, alertando produtores sobre a necessidade de pulverizações de fungicidas nas lavouras.

Há um grande número de fungicidas registrados no Mapa para o controle da requeima da batata. De maneira geral, as pulverizações de fungicidas protetores que protegem contra a infecção do fungo por até oito dias devem ser repetidas em intervalos de quatro dias a sete dias em períodos chuvosos ou em que há rápido desenvolvimento vegetativo da cultura, e de sete dias a dez dias em períodos mais secos. Os fungicidas sistêmicos possuem ação curativa, sendo translocados pelo sistema vascular, se distribuindo em toda a planta. Esses produtos apresentam rápida absorção e o período de proteção é mais prolongado, por até 14 dias. A aplicação dos fungicidas também deve ser realizada de forma sequencial para a batata, com produtos de contato a partir da emergência, e posterior com produtos sistêmicos no crescimento vegetativo e tuberização da cultura. A alternância de ingredientes ativos e de modos de ação é indispensável, prevenindo a seleção de isolados de P. infestans resistente a fungicidas.

A utilização de barreiras vegetais ao redor da área de produção propicia o isolamento da área e dificulta a disseminação de esporos de fungos por meio de ventos. Assim, as barreiras vegetais podem ser formadas através de algumas plantas de interesse econômico, como sorgo, mandioca, milho, cana-de-açúcar e bananeira, além de árvores frutíferas ou não, capim-colonião e alguns arbustos.

Muitos fungos ainda permanecem viáveis em restos de cultura na área de produção, servindo como fonte de inóculo para os cultivos sucessores. Fazem-se necessárias a destruição e a incorporação dos restos culturais ao solo logo após a colheita. Na decomposição, os materiais orgânicos geram produtos no solo que podem proporcionar o aumento da atividade microbiana natural e reduzir os danos causados pelos fungos através da competição, com favorecimento da ação de micro-organismos antagônicos presentes no solo.

Outras medidas adotadas capazes de prevenir impactos negativos são a escolha de época adequada para plantio, o manejo e as práticas culturais. Logo, sistemas de irrigação por gotejamento são utilizados no controle, evitando a produção de esporos devido à redução do molhamento foliar, e adicionalmente, gerando economia no consumo de água. Como P. infestans é um patógeno capaz de sobreviver em restos culturais, recomenda-se sua eliminação da área de plantio e também de hospedeiros eventuais.


Estratégias alternativas de controle

Diversas pesquisas comprovam a eficiência de fungos usados como antagonistas de P. infestans, que podem reduzir o impacto da doença na cultura, aumentando também o crescimento da planta. Os fungos do gênero Trichoderma spp. demonstram a sua efetividade no controle em função de diferentes mecanismos de ação: competição, antibiose ou hiperparasitismo.

A utilização de óleos essenciais e extratos vegetais é estratégia de manejo que nos últimos anos vem ganhando bastante espaço entre pesquisadores e produtores. Para P. infestans, já foram avaliados extratos de pimenta, pimenta-do-reino, cravo, açafrão-da-índia e alho, a partir dos quais a incidência da doença foi reduzida devido à inibição da formação de zoósporos. Além disso, o óleo de nim, combinado a fungicidas químicos, proporcionou um menor progresso do patógeno, indicando que controles com estes compostos são eficazes e benéficos à cultura. É possível citar também pesquisas com produtos à base de fosfito, que apresentam ação fúngica e antioomicetos, com o potencial de controle de doenças em condições de campo.

Manejo correto de lavoura cultivada com batata
Manejo correto de lavoura cultivada com batata.


Sintoma típico da requeima esporulando
Sintoma típico da requeima esporulando.

Medidas mais eficazes de manejo

1. Plantio de cultivares resistentes;

2. Adubação equilibrada, sem excesso de nitrogênio;

3. Adução com o silício;

4. Evitar o plantio em regiões sujeitas à ocorrência e à permanência de neblina;

5. Realizar a rotação de culturas com espécies de planta não hospedeira da doença;

6. Utilizar batatas-semente de boa procedência;

7. Vistoriar as batatas-semente para a verificação e eliminação de tubérculos infectados;

8. Não plantar em áreas próximas de culturas velhas de batata e de tomate;

9. Realizar plantios menos adensados, para um melhor arejamento;

10. Eliminar plantas voluntárias próximas às lavouras;

11. Destruir os restos da cultura logo após a colheita. 


João Pedro Elias Gondim, Universidade Federal de Lavras; José Feliciano Bernardes Neto, Juliano Henrique Alves de Sousa Carvalho e Rodrigo Vieira da Silva, IF Goiano Campus Morrinhos

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