Mistura segura

  • Página 23 |
  • Out 2019 |
  • Cristiana Bernardi Rankrape, Felipe Lucio, Corteva Agriscience; Eduardo Lago, Juliana Domanski Jakubski, Ketly Custodio Jung, Wellyton Morgenrotd, Ivan Carlos Zorzzi, Pedro Valério Dutra de Moraes, UTFPR-DV

Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), na última safra (2018/2019) o Brasil figurou como o segundo maior produtor mundial de soja, ficando atrás somente dos Estados Unidos, tendo uma produção de 114,4 milhões de toneladas, área plantada de 35,8 milhões de hectares e produtividade de 3.206kg/ha, porém as estimativas mostram que nas próximas safras o Brasil tomará a primeira posição, tornando-se o maior produtor mundial da oleaginosa. Contudo, vários fatores podem afetar o desenvolvimento da cultura e comprometer sua produção. Contribuem para que ocorram perdas na produção, as condições edafoclimáticas e os problemas fitossanitários como a competição com plantas daninhas e a incidência de pragas e doenças.

Devido a esses fatores ocorrerem muitas vezes simultaneamente na lavoura, o método de controle utilizado pelos produtores com maior frequência é a pulverização na área afetada, com misturas de produtos fitossanitários de mesma classe e também de produtos de diferentes classes. De acordo com a pesquisa realizada por Grazziero (2015) com 500 pessoas ligadas à agricultura, 97% utilizam mistura de tanque, sendo que em 95% das vezes o uso varia de dois a cinco produtos.   

A mistura de produtos é relatada como vantajosa devido a vários fatores, tais como redução do número de pulverizações e consequentemente menor compactação do solo, economia de água, trabalho e combustível. Além disso, pode ser uma estratégia de manejo para reduzir a possibilidade de aparecimento de populações resistentes, pela mistura de produtos com diferentes mecanismos de ação, seja de herbicidas, inseticidas ou de fungicidas.

A mistura dos diferentes produtos fitossanitários vai depender do estádio de desenvolvimento da cultura e consequentemente dos problemas enfrentados. Desta forma, aproveita-se para aplicar outros produtos, com o objetivo de eliminar uma possível nova reentrada na área.

Apesar de ser uma prática comumente utilizada pelos produtores nas lavouras, essa era proibida, pois o responsável técnico só poderia recomendá-la se estivesse especificada na bula do produto, ficando a responsabilidade imposta ao produtor que optava por utilizá-la. Entretanto, com a publicação da Instrução Normativa no 40, de 11 de outubro de 2018, o engenheiro agrônomo passa a responder pelas misturas em tanque no receituário agronômico e está autorizado a definir as aplicações. Assim, a prática passa a ter regulamentação governamental, depois de muitos anos de reivindicações do setor produtivo.

Portanto, agora mais do que nunca se faz necessário realizar estudos sobre os efeitos que as misturas de produtos fitossanitários podem causar nas culturas, principalmente com relação a fitotoxicidade, possíveis alterações de pH, condutividade elétrica e estabilidade física, fatores esses que, uma vez alterados, podem vir a comprometer o desenvolvimento normal da planta e consequentemente prejudicar a produtividade da cultura. Estes estudos serão importantes para gerar informações técnicas aos produtores, que adotam essa prática nas lavouras.

Alguns parâmetros podem ser avaliados antes mesmo da aplicação da mistura a campo. É o caso do pH, da condutividade elétrica e da estabilidade física das misturas. Utilizando-se garrafas PET, após a mistura dos produtos, com o auxílio de um pHmetro, pode-se aferir as possíveis alterações de pH. Com um condutivímentro verifica-se a condutividade elétrica. E para a avaliação da estabilidade física pode-se utilizar uma tabela já padronizada e com base nas alterações observadas atribuir notas variando de 1 a 5. Posteriormente, com base na nota atribuída, haverá uma recomendação. Sendo a nota 1, a recomendação é não aplicar a mistura. Nota 4, a recomendação é fazer a agitação contínua da mistura, e nota 5 a mistura apresenta estabilidade perfeita, podendo assim ser realizada a aplicação, sem restrições. As notas atribuídas têm como base a observação da ocorrência de sobrenadante, precipitação, floculação, formação de grumos, separação de fases, entre outras alterações que podem vir a ocorrer. 

Outra forma de avaliar a compatibilidade de produtos e seus efeitos (nesse caso, quando já aplicados nas plantas) ocorre através de avaliações de fitotoxicidade nas plantas por meio de observações visuais, realizadas normalmente aos sete, 14, 21 e 28 dias após a aplicação (DAA) das misturas. Conforme os sintomas observados, poderão ser atribuídas notas, em uma escala de 0 a 9, onde nesse caso 0 corresponde à testemunha; 1, ausência de sintomas de fitotoxicidade, e 9 à morte das plantas.

Os resultados obtidos com a realização destes testes posteriormente podem ser utilizados como parâmetro sobre o que pode ou não ser misturado e o risco que a mistura apresenta para cultura, baseando-se nas alterações no pH, na condutividade elétrica, na estabilidade física e no grau de fitotoxicidade que a mistura causou na planta.

Desta forma, foram realizados estudos em laboratório e casa de vegetação na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Campus Dois Vizinhos (UTFPR-DV), com três cultivares de soja (Roundp Ready, Liberty Link e Enlist E3) e 18 misturas de produtos, dentre eles três herbicidas (glifosato dimetilamina; glufosinato de amônio e 2,4-D colina), três fungicidas (trifloxistrobina + protioconazol; azoxistrobina + benzovindiflupir e picoxistrobina + ciproconazole) e  três inseticidas (tiametoxam + lambda-cialotrina; eflubenzurom e deltametrina), de acordo com a Tabela 1. Os produtos foram misturados utilizando a dose máxima recomendada em bula e aplicados no estádio V3, segunda folha trifoliolada completamente desenvolvida, com pulverizador costal pressurizado por CO2, simulando aplicação a campo.

Os resultados mostraram que não houve incompatibilidade física das misturas dos produtos fitossanitários testados em laboratório, sendo que o grau de estabilidade foi de 3, nas misturas glufosinato + trifloxistrobina + protioconazol e glufosinato + azoxistrobina + benzovindiflupir. Neste caso, a recomendação é realizar a agitação contínua da mistura para evitar a formação de corpo de fundo, sedimentação, precipitação, separação de fases e formação de grumos, como ocorreu para as referidas misturas, os mesmos cuidados também devem ser tomados para misturas que apresentam estabilidade de grau 4, sendo que apenas no grau 5 a mistura pode ser realizada sem restrições.

A compatibilidade química representada pelo pH e a condutividade elétrica das misturas apresentaram valores dentro da normalidade, com algumas exceções, caso da mistura de glufosinato + azoxistrobina + benzovindiflupir, em que se observaram valores de pH maiores que 9, o que poderá resultar na redução da eficácia de um dos produtos ou ambos. No que diz respeito aos valores de condutividade elétrica, os maiores foram encontrados nas misturas do herbicida glifosato com os fungicidas e inseticidas. Sendo que a condutividade elétrica diz respeito à presença de íons em suspensão que podem interagir com as moléculas dos produtos, resultando assim em possível queda na eficácia dos produtos. Desta forma, quanto maior a condutividade elétrica, maior é o risco perda de eficiência do(s) produto(s).

Com relação aos sintomas de fitotoxicidade avaliados nas diferentes cultivares de soja, estes foram classificados de muito leve a moderado, variando de 0 a 4 na escala, o que pode ser observado nos valores apresentados na Tabela 1.

Algumas misturas causaram sintomas considerados moderados nas plantas, o que foi observado em todas as misturas realizadas com o herbicida glufosinato juntamente com os três fungicidas e três inseticidas, onde em todos os tratamentos os sintomas variaram de 3 a 4, sendo considerado de leve a moderado. Esses sintomas podem vir a comprometer o desenvolvimento da planta, pois causam injúrias, como clorose, encarquilhamento, queima e retardamento do crescimento. Alguns desses sintomas podem ser observados na Figura 1. Entretanto, não houve avaliação até o final do ciclo da cultura para saber se ocorreu queda na produtividade.

No que diz respeito às misturas realizadas com os herbicidas glifosato e 2,4-D colina com os fungicidas e inseticidas, todos os tratamentos apresentaram sintomas de fitotoxicidade praticamente ausentes ou muito leves, com exceção do tratamento 2,4-D colina + picoxistrobina + ciproconazole onde, nas últimas avaliações, os sintomas de fitotoxicidade foram considerados moderados.

Quando os sintomas de fitotoxicidade são muito leves ou leves, o que ocorreu para a maioria das misturas, a planta possivelmente conseguirá metabolizar o herbicida por ser resistente, não havendo perdas na produtividade.

As misturas de diferentes classes de produtos fitossanitários podem resultar em fitotoxicidade para a cultura, ineficiência do tratamento químico, além de entupimento das pontas de pulverização. As misturas de tanque, na maioria das vezes, são realizadas sem informações sobre a compatibilidade química e física do produto. Desta forma, mesmo apresentando várias vantagens, é necessário se atentar às desvantagens e aos possíveis danos que uma mistura de produtos fitossanitários pode causar, tanto na planta como no equipamento de aplicação.

Embora tenham ocorrido algumas alterações de pH, condutividade elétrica e estabilidade física das misturas, assim como alguns sintomas de fitotoxicidade tenham sido observados em determinados casos, os ensaios realizados mostram que essa prática, de maneira geral, pode ser realizada em segurança. Porém é necessário estar atento à ordem preferencial de adição dos produtos no tanque do pulverizador, sendo recomendado: 1º água, 2º condicionador de água (se necessário), 3º Pó Molhável (PM), 4º Granulado dispersível (WG), 5º Suspensão Concentrada (SC), 6º Concentrado Solúvel (SL), 7º Concentrado Emulsionável (CE), 8º Adjuvante (se necessário), 9º Fertilizante Foliar (se necessário) e 10º Redutor de Espuma (se necessário). Deve-se também utilizar água de boa qualidade e adjuvantes recomendados em bula e que possam ajudar na qualidade da aplicação. Outro fator importante no momento da mistura, é manter a agitação contínua no pulverizador para evitar a formação de grumos, precipitação, separação de fases, sobrenadante e floculação da mistura.

A soja é a cultura que detém os maiores investimentos em pesquisa e biotecnologia, e a cada ano são lançadas no mercado novas tecnologias para ajudar no manejo de pragas, doenças e plantas daninhas, portanto, as opções disponíveis aos produtores agrícolas atualmente são várias. Assim, é necessário realizar ensaios sobre a compatibilidade de produtos e seus possíveis efeitos nas plantas, com o objetivo de sempre maximizar a produtividade da cultura e conservar as tecnologias, além de auxiliar o produtor na tomada de decisão. A nova instrução normativa sobre misturas de tanque empodera o engenheiro agrônomo, que passa a responder por isso. Desta forma, na dúvida sobre o que aplicar, consulte um profissional qualificado.

 

Figura 1 - Mistura de produtos de diferentes classes pode causar sintomas de fitotoxicidade em plantas e comprometer seu desenvolvimento. A) Glufosinato + Trifloxistrobina + Protioconazol. B) Glifosato + Tiametoxam + Lambda-cialotrina. C) Glufosinato + Tiametoxam + Lambda-cialotrina. D) Glufosinato + Teflubenzurom
Figura 1 - Mistura de produtos de diferentes classes pode causar sintomas de fitotoxicidade em plantas e comprometer seu desenvolvimento. A) Glufosinato + Trifloxistrobina + Protioconazol. B) Glifosato + Tiametoxam + Lambda-cialotrina. C) Glufosinato + Tiametoxam + Lambda-cialotrina. D) Glufosinato + Teflubenzurom.

Cristiana Bernardi Rankrape, Felipe Lucio, Corteva Agriscience; Eduardo Lago, Juliana Domanski Jakubski, Ketly Custodio Jung, Wellyton Morgenrotd, Ivan Carlos Zorzzi, Pedro Valério Dutra de Moraes, UTFPR-DV

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